Capítulo 4 - Vinícius

Eu ainda não tinha me adaptado ao estresse dessas reuniões, muito menos quando sabia que os resultados seriam os piores possíveis.

Ajustei a gravata, que parecia estar me enforcando, e respirar ficou difícil.

Calma, pensei. O que poderia ser pior do que a última reunião, quando ficou claro que o ano passado tinha sido o pior da história da Lotus?

Que o meu primeiro ano como presidente foi um absoluto fracasso.

Apertei o botão do aplicativo de videoconferência para ativar a webcam e acabar logo com esse castigo.

— Boa tarde, pessoal — cumprimentei, forçando um sorriso enquanto arrumava o ângulo da câmera.

No mosaico da tela, vi a miniatura dos rostos hostis que pareciam querer me fuzilar desde que assumi a presidência da empresa dois anos atrás.

Meu pai, com aquela expressão de decepção permanente que ele reservava especialmente para mim.

Minha mãe, mexendo distraidamente no celular, claramente mais interessada em tudo menos no que acontecia na reunião.

E Valéria, minha ex-sogra, com um sorriso de satisfação que eu sabia significar problemas pro meu lado. Aquela mulher se alimentava do meu fracasso e do meu sofrimento.

Eu sei que me recusei a casar com a filha dela quando ficou grávida, mas eu não a amava. Quase onze anos depois, Valéria ainda não tinha me perdoado.

— Vinícius, vamos direto ao ponto — disse meu pai, sem rodeios. — Os números da campanha "Beleza Verdadeira" chegaram hoje de manhã.

Senti o estômago apertar. Pela expressão dele, eu já sabia que não eram bons.

— E então?

Fernanda, nossa diretora de marketing, pigarreou antes de falar:

— A coleção teve uma performance bem abaixo do esperado. As vendas ficaram 40% menores que a projeção inicial.

Quarenta por cento. Merda.

— Investimos uma fortuna nessa campanha, contratamos modelos plus size, fizemos toda aquela divulgação de inclusão…

— Esse é exatamente o problema — Valéria me interrompeu, e dava pra ver o prazer que sentia em me ver fracassar. — A Lotus não foi criada pra essa gente. Por mais que você tente se aproximar do público geral, a empresa foi fundada para agradar mulheres sofisticadas, de bom gosto.

Me ajeitei na cadeira, sentindo o rosto queimar.

— Valéria, com todo respeito, o mundo mudou. Não podemos mais ignorar 80% do mercado consumidor. Somos uma empresa brasileira disputando com gigantes internacionais. Acha mesmo que a elite a quem se refere vai nos priorizar?

— Tudo muito bonito na teoria, mas os resultados não mentem — meu pai interveio, cínico como sempre. — No meu último ano como presidente tivemos lucro de 12%. No seu primeiro ano, tivemos prejuízo de 8%. E este ano não está começando melhor.

A maldita gravata parecia uma corda no meu pescoço, pronta pra me matar a qualquer momento. Todos na reunião sabiam dos números, mas ouvi-los da boca do meu pai, na frente de todos os acionistas, foi uma humilhação que me fez cerrar os punhos.

— Pai, eu sei que o primeiro ano foi difícil, mas…

— Não tem “mas”. Se até o final do ano não terminarmos em superávit, eu volto a ser o presidente dessa empresa. Pensei que na minha idade poderia descansar, mas a sua incompetência está me tirando o sono!

— Não se preocupe, pai. O senhor vai ter superávit. Já tenho tudo planejado.

Eu não tinha.

— Quero que pense seriamente se está no lugar certo, Vinícius. Talvez liderar não seja pra você — disse meu pai, encerrando com chave de ouro a pior reunião da minha vida, e olha que a lista de competidoras era vasta.

Desliguei a chamada, fechei a tampa do laptop e soquei a mesa com toda a força, até a dor física apagar o resto.

O sangue vermelho vivo tingia os nós da minha mão.

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