Mundo de ficçãoIniciar sessãoGostoso, cheiroso, rico e classista.
O mundo continuava girando do mesmo jeito de sempre. Ufa, pelo menos era um completo babaca. Se me expulsasse dali por isso, e não por causa do meu portfólio ou currículo, já era um consolo. Eu poderia me acalmar dizendo a mim mesma que não tinha conseguido o emprego por culpa da minha aparência ou pelo preconceito do CEO gostoso e escroto. Tava tudo bem. E além do mais, não seria justo um homem tão lindo ser gente boa. Isso não faria sentido algum. Nossa, ele realmente era alto… e forte… e cheiroso. — Eu vim pela vaga de designer — respondi, com a voz falhando levemente, apesar do esforço. — Meu nome é Isabela, sou formada com honras pela USP, em Artes Visuais. Não sei por que já fui esfregando parte do meu currículo na cara dele, mesmo antes de qualquer pergunta. Me senti encurralada, um animal indefeso. Havia algo naquele olhar gelado que me deixava ainda mais vulnerável, e eu não sabia como reagir. Vinícius assentiu com a cabeça, apontou pra cadeira e mandou eu me sentar. Entreguei minha pasta com alguns dos meus trabalhos num portfólio impresso, e ele começou a folhear. Tentei captar algo no olhar dele que me desse uma pista se estava gostando ou não, mas nada. O homem era uma esfinge. — Tenho o portfólio completo no endereço virtual, coloquei no fim da última folha — disse, precipitada, ajeitando o maldito óculos que insistia em escorregar pelo meu nariz. Ele não respondeu. Fiquei em silêncio por segundos que pareceram horas. Vinícius coçou o rosto com as costas da mão, puxou o ar como se estivesse tomando coragem e disse: — Isabela, eu sei que vai parecer muito estranho o que vou te propor, mas quero que mantenha a mente aberta. Você não vai trabalhar como designer — ele disse, devolvendo a pasta sem sequer olhar nos meus olhos, como se fosse algo sem valor, que ele precisava descartar com pressa. — Não que não seja boa, seu trabalho é excelente, mas não tenho tempo pra desperdício. Preciso de alguém para cuidar do meu filho. Eu comecei a piscar nervosa, diversas vezes. — Desculpa, você disse… seu filho? — Thales. Tem dez anos. Não estou conseguindo manter ninguém na função. As babás não suportam ele mais de duas semanas. Ele falava tudo de forma ensaiada, impessoal, como se não estivesse falando do filho e sim sobre o prazo de entrega de um relatório qualquer. — Preciso de alguém de confiança, com o mínimo de formação intelectual, que entenda o valor da discrição. Você me parece o tipo de pessoa adequada pra isso. Eu abri a boca para protestar, mas ele já continuava: — O salário é três vezes o da vaga de designer. Horário flexível, alimentação inclusa, plano de saúde, férias. Tenho urgência, então se topar, pode começar agora mesmo. Eu procurei câmeras escondidas. Não é possível, pensei. Era uma pegadinha? — Eu não tenho experiência com crianças — confessei, sem saber se era melhor mentir ou não. —Tudo bem. — ele rebateu, seco. — O importante é que não seja influenciável, não se assuste fácil. Thales é... Inteligente, mas difícil. Preciso de alguém que consiga lidar com isso. E, de preferência, que não tenha tempo para dramas pessoais. Não pude evitar de sentir essa última frase como uma indireta para a minha aparência. Ser feia talvez fosse sinônimo de felicidade pra ele. Afinal, sem relacionamentos, sem drama. Ele não estava totalmente errado. — Se me permite perguntar, por que não contratar alguém… de uma agência especializada? — Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia. — Tentei. Não funcionou. — Ele olhou para o relógio de pulso, impaciente, como se já estivesse atrasado para o próximo compromisso. — E aí? Já decidiu? Se aceitar, a vaga de designer é sua depois de seis meses. Considere um estágio probatório.






