A Babá "Feia" e o CEO
A Babá "Feia" e o CEO
Por: Luna Moreau
Capítulo 1 - Bela

— Beto, por favor, eu já te falei que até semana que vem eu acerto o aluguel! — Implorei enquanto acelerava o passo. O dono do meu apartamento já estava virando o corredor.

Continuava chamando por ele, mas o canalha fingia que eu não estava ali. Isso me acontecia com bastante frequência.

Eu era invisível, tirando a primeira vista, claro, quando todos me olhavam duas ou até três vezes… só para ter certeza do que estavam vendo.

Sou feia, e isso quem diz não sou eu, mas a sociedade inteira.

— Ei! Me espera!

Quando Beto estava prestes a entrar no apartamento dele, onde também morava ali no prédio, segurei a porta. Ao perceber que estava evitando olhar pra mim, insisti:

— Estou falando com você! Preciso de mais tempo, por favor, não tenho pra onde ir!

Ele ergueu o olhar, finalmente me encarando. Pensei ter visto algum sinal de empatia, mas tudo mudou quando a vizinha bonita do 102 passou pelo corredor.

O homem criou uma coragem a mais. Inflou o peito e engrossou a voz comigo.

— Bela, eu te avisei! Não toleramos atrasos!

O exibicionismo dele funcionou, porque a vizinha bonitona voltou alguns passos, impressionada com a masculinidade do meu carrasco.

Carla me olhava com um desprezo tão grande que beirava ao nojo.

Eu pensei que tinha superado esse tipo de olhar. Que tinha me acostumado. Mas ainda doía…

— Betinho, meu amor, eu sei que atrasei dois meses do aluguel, mas prometo que até a semana que vem consigo pagar, tá bom?

Meu estômago embrulhou.

Como eu não tinha percebido?

Eu não estava sendo despejada por ter atrasado um mês de aluguel. Eu estava sendo despejada por ser feia.

Ao menos Beto estava bastante desconfortável, era visível pela sua expressão corporal. Se existisse um buraco grande o suficiente no chão, ele com certeza teria pulado dentro dele.

Uma curiosidade sobre as pessoas: elas costumam ser cruéis na mesma medida em que são covardes..

Ele finalmente quebrou o silêncio:

— Olha, eu sinto muito mesmo.

Eu deveria ter lutado por igualdade, esfregado na cara dele a própria hipocrisia, mas estava cansada. E me sentia humilhada demais para insistir.

Não respondi nada, apenas dei de ombros e me virei, pronta para ir embora quando o ouvi dizer:

— Pode ficar mais uma semana. Depois disso, não posso mais te ajudar.

***

— Como assim, Bela? Você tá dizendo que aquele babaca te expulsou? — Juliano me perguntou enquanto se ajeitava na poltrona florida herdada da avó.

— Claro, né, Juliano. O que você esperava? Que ele deixasse a feia do prédio quebrar alguma cláusula do contrato?

Juliano concordou. Continuei:

— Não posso voltar a morar com meu pai.

— Eu sei que o seu Ernesto é superprotetor, mas ele te ama. Nunca negaria te aceitar de volta.

— Eu sei, amigo. O problema não é me aceitar de volta, é me deixar ir.

Meu pai pensava que eu ainda era uma garotinha frágil e indefesa.

Minha mãe morreu quando eu nasci, e desde sempre ele me protegeu numa redoma. Como se me blindar do mundo fosse o suficiente para me poupar da dor.

Adivinha só? Não funcionou.

Era melhor pra mim e pra ele mantermos uma distância saudável.

— O que foi? Que cara é essa? – perguntei ao perceber que Juliano me olhava com uma cara péssima.

— É a hamburgueria. O movimento caiu muito depois que abriram aquelas fast foods no bairro. E você sabe como ele é teimoso, não quer mudar nada…

Que ótimo.

Agora, além de desempregada e despejada, eu tinha um pai prestes a falir.

Eu precisava mesmo de dinheiro.

— Eu ouvi dizer que a Lotus tá contratando…

— A Lotus, perfumaria? — Ele confirmou com a cabeça.

— Olha pra mim! Se não consigo emprego em lugar nenhum, imagina em uma empresa focada em beleza.

— A Lotus anda com uma campanha de inclusão... "Beleza Verdadeira". Talvez...

— Aceitem uma aberração como eu pra exibir na jaula?

***

O prédio branco parecia um consultório de dentista gigante e, como passei a infância e adolescência toda usando aparelho, não me trazia boas lembranças.

Puxei o ar, fiz um rápido exercício de respiração.

Abri minha ecobag e tirei de lá um espelhinho de maquiagem pra ver como eu estava.

Meu cabelo era uma bagunça, e não parecia haver jeito de fazê-lo me obedecer. Achei melhor prender num rabo de cavalo.

Estava com um vestido que costumava usar quando era caloura na faculdade. Ele era bege, e não há muito o que falar sobre ele, nem sobre o corte ou a costura.

Eu parecia um saco de batatas com rabo de cavalo e um óculos torto bem no meio.

Bom, espero que exista alguma sala escura, sem janelas, onde possam me enfiar com um salário abaixo da média.

Após vários olhares desconfiados e ligações da recepção para outros setores, mandaram eu subir e esperar no saguão principal.E foi isso que fiz: esperei.

Esperei por um bom tempo, e quando estava começando a pensar que tinham me esquecido, ouvi a voz da secretária me chamar.

— O doutor Vinícius pediu que eu a acompanhasse até o escritório dele.

Subimos vários andares de elevador, até chegar à cobertura do prédio.

Quando a secretária fez sinal com a mão para que eu entrasse e cochichou um “boa sorte, você vai precisar”, tive a certeza de que estava fodida.

— Márcio, já falei, não sei como vou fazer pra ir à festa hoje — uma breve pausa, ele estava no celular e nem tinha notado minha presença na sala —. Eu sei, sei que sou o CEO e preciso estar presente, mas acontece que não tenho com quem deixar o Thales!

Ele se ajeitou na cadeira e virou o corpo até ficar de frente pra mim. O olhar percorreu meu corpo de cima a baixo, e a expressão era impassível.

Ele era ridiculamente lindo.

Cabelos castanhos cacheados. Olhos escuros. Maxilar definido. Ombros largos marcados no terno.

E o perfume dele? Senti minha pele arrepiar. Amadeirado. Com certeza 10ml custavam o meu aluguel.

Eu não sou de sentir atração por ninguém. Nunca vi sentido nisso quando ninguém iria me querer de volta.

Mas puta merda.

— Márcio, vou ter que desligar. Falo com você depois.

Doutor Vinícius se levantou da cadeira e se aproximou, como se quisesse ver de perto pra ter certeza de que era isso mesmo.

Droga.

Eu nunca ia conseguir um emprego.

— Quem te deixou entrar? — ele perguntou, quase ofendido. — Vaga pro pessoal da limpeza é com o Gutierrez, no térreo.

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