Capítulo 2: Uma dor profunda

Aguardar. Uma palavra que Hunter não conhecia. Ele era um homem de ação, de resultados. Pela primeira vez na vida, ele sentiu o que era o verdadeiro medo. Sem rumo, ele começou a caminhar pelos corredores estéreis e frios do hospital. O cheiro de antisséptico o sufocava. Ele, que sempre tivera o controle de cada jogada, de cada negócio em sua rede de academias, estava agora encurralado pela impotência.

Ele parou no meio de um corredor vazio, sentindo que o ar não chegava mais aos seus pulmões. Suas pernas fraquejaram e ele foi descendo pela parede até chegar ao chão. Ali, o grande Hunter Blackwood, o quarterback indestrutível, quebrou. Ele escondeu o rosto nas mãos e chorou.

Era uma dor profunda, um rasgar no peito que parecia físico. Ele fechou os olhos e começou a repetir, em um sussurro desesperado, uma prece que não fazia há anos:

— Por favor, Deus... por favor, Deus... salva minhas meninas. Eu dou qualquer coisa. Só salva elas.

Quase uma hora se passou. O tempo no hospital parecia ter uma elasticidade cruel. Finalmente, ele reuniu forças para se levantar. Seus olhos estavam vermelhos, sua pele pálida sob as tatuagens. Ele precisava de notícias.

Ao caminhar alguns metros, viu uma figura familiar vindo em sua direção. Era Alistair, seu irmão mais novo. Alistair estava com o jaleco branco, mas sua postura não era a de um médico vitorioso. Seus ombros estavam caídos e o olhar que ele dirigiu a Hunter carregava o peso de mil tragédias.

— Irmão... — Alistair começou, a voz falhando.

Hunter não o deixou terminar. Ele não queria ouvir palavras. Em um surto de adrenalina e negação, ele saiu correndo em direção à área cirúrgica. Dois enfermeiros tentaram detê-lo, mas Hunter os empurrou com a força de um homem enlouquecido.

— Deixem-no passar! — Alistair gritou, sua voz autoritária cortando o caos. — Ele é meu irmão. Eu o conduzo.

Alistair guiou Hunter para dentro de uma sala onde o silêncio era absoluto. No centro, sob as luzes frias, havia uma maca. Hunter parou abruptamente. O mundo parou com ele.

Clara estava lá. Mas não era a Clara que sorria na vídeo chamada. Ela estava inerte, pálida, e um lençol branco cobria seu corpo até a cabeça. Hunter aproximou-se lentamente, cada passo parecendo pesar uma tonelada. Ele puxou o lençol e viu o rosto da mulher que amava.

Ele se deitou sobre o corpo dela, soltando um grito lancinante que pareceu ecoar por todo o hospital. Ele chorou sobre o peito dela, amaldiçoando o destino, a chuva, o motorista e até a Deus. Ele beijou seu rosto várias vezes, mas a pele de Clara estava fria. O calor que ele tanto amava, o cheiro de flores que ela exalava, tudo havia sido roubado.

— Irmão, eu sinto muito — Alistair disse, colocando a mão no ombro de Hunter, com lágrimas nos próprios olhos. — Fizemos tudo o que podíamos. As lesões internas eram graves demais. Tentamos de tudo para salvar a Clara...

Hunter continuou em silêncio, apenas fazendo carinho nos cabelos dela. Ele sussurrou promessas de amor eterno, falou o quanto ela era a luz de sua vida, enquanto uma dor dilacerante quebrava sua alma em mil pedaços. Era como se uma faca estivesse rasgando sua pele de dentro para fora. Todos na sala observavam a cena, emocionados com a ruína daquele homem que parecia um gigante ferido.

Após o que pareceu uma eternidade, ele levantou a cabeça.

— Minha filha... onde está a Lily?

Alistair suspirou, um misto de tristeza e alívio cruzando seu rosto.

— Hunter, a Lily está em outra ala, na pediatria. Ela sobreviveu. Ela está machucada, tem algumas fraturas e escoriações, mas vai se recuperar. Ela é uma guerreira, irmão.

Um suspiro de alívio escapou dos lábios de Hunter, mas foi um alívio amargo. O ódio pela vida e pela injustiça de perder Clara era tão grande que ele mal conseguia processar a sobrevivência da filha. Sem dizer mais nada, ele saiu do quarto.

Ele caminhou em transe até o estacionamento. Ao chegar perto do seu carro, a raiva explodiu. Ele deu um soco com toda a sua força na pilastra de concreto do estacionamento. O som do impacto foi seco. Seus dedos se machucaram instantaneamente, o sangue começando a escorrer, mas aquela dor física não era nada comparada à agonia em seu peito.

Ele entrou no carro e dirigiu de volta para casa, alucinado. Ao abrir a porta da mansão que ele e Clara haviam construído com tanto amor, o ódio assumiu o controle. Hunter começou a atirar tudo o que via pela frente contra as paredes. Vasos caros, decorações, cadeiras. Ele gritava feito um louco, o som de sua voz carregado de uma fúria primitiva.

Depois de destruir metade da sala, ele parou, exausto. Seus olhos caíram sobre um porta-retrato de prata sobre uma mesa lateral que ainda estava de pé. Era uma foto dos três, em um dia ensolarado no parque. Clara ria, e Lily estava em seus ombros.

Ele pegou a foto com as mãos trêmulas e ensanguentadas.

— Eu não consigo, Clara — ele soluçou, caindo de joelhos. — Eu não consigo cuidar sozinho da nossa filha. Eu não sei como fazer isso sem você. Eu não consigo...

Ele deitou-se no chão frio da sala, abraçado ao porta-retrato, e chorou até que não houvesse mais lágrimas. Ali, em meio aos destroços de sua casa e de sua vida, Hunter Blackwood sentiu que sua alma havia morrido junto com Clara. Ele mal conseguia respirar, e a escuridão do luto começou a se transformar em algo mais perigoso: uma obsessão pelo que havia perdido e um fechamento total para o resto do mundo.

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