CAPÍTULO 6 — O DOSSIÊ

Quando voltei para dentro, a casa parecia mais silenciosa do que antes. Não era descanso depois do almoço. Era espera.

Marta apareceu no corredor com uma bandeja vazia nas mãos.

— Lily foi para o quarto de descanso. O Sr. Gray pediu que a senhorita aguarde no escritório dele.

Parei.

— No escritório?

— Sim, senhorita.

Claro.

Na casa de Sebastian Gray, até uma conversa parecia precisar de convocação.

Segui pelo corredor tentando ignorar a sensação de julgamento. O escritório ficava no primeiro andar, atrás de uma porta escura, afastado da parte íntima da casa. Quando entrei, encontrei uma mesa ampla diante das janelas, poltronas de couro, uma parede de livros e telas discretas exibindo imagens do portão, da garagem, do jardim, da cozinha e de parte da sala principal.

Meu estômago apertou.

O jardim aparecia em uma delas.

A área de pedra.

A grama.

A flor branca que Lily tinha escolhido sem tocar.

Sebastian estava diante da mesa, com uma pasta aberta à frente e o celular ao lado. Não parecia um homem trabalhando em casa. Parecia a casa inteira trabalhando para ele.

— Feche a porta — disse.

Fechei.

— Câmeras na cozinha também?

— Áreas comuns.

— Como se isso tornasse menos invasivo.

— Torna necessário.

— Para quem?

— Para todos que vivem sob meu teto.

A frase veio limpa. Final. Como se privacidade ali fosse apenas outra coisa que ele podia permitir ou negar.

Meu olhar voltou para a mesa.

Então vi meu nome na pasta.

Elena Duarte.

O ar mudou dentro de mim.

— O que é isso?

— Seu dossiê.

A palavra saiu tranquila demais.

Aproximei-me antes que conseguisse impedir. Havia cópias de documentos, referências, endereço no Brasil, histórico de trabalho, anotações sobre minha família, sobre meu pai, sobre o acidente. Até a empresa que tinha prometido ajudar e desaparecido estava ali, resumida em poucas linhas frias.

Minha vida inteira reduzida a papel.

— O senhor acha normal ter uma pasta sobre mim?

— Acho necessário.

— Isso é invasão.

— É segurança.

— Segurança para quem?

— Para minha filha.

Sempre Lily.

Sempre a justificativa perfeita.

Toquei uma das folhas com a ponta dos dedos, mas recolhi a mão no mesmo instante. Aquilo parecia sujo. Íntimo demais.

— O senhor não sabe nada sobre mim.

— Sei o suficiente para entender por que você aceitou vir.

A frase acertou.

Porque era verdade.

Eu tinha atravessado um oceano porque meu pai quase morreu trabalhando sem carteira, porque as contas não esperavam, porque a empresa que prometeu ajuda sumiu assim que percebeu que responsabilidade custava caro. Eu tinha vindo porque nenhum bico de babá ou turno de supermercado no Brasil pagaria o tratamento dele.

Mas Sebastian não tinha o direito de usar isso como se fosse uma chave.

— Saber por que eu vim não significa me conhecer.

Ele ficou imóvel do outro lado da mesa.

— Pessoas mentem quando precisam.

— Eu não menti.

— Ainda não.

Olhei para ele.

— O senhor usa a necessidade das pessoas como coleira?

O silêncio ficou pesado.

Sebastian apoiou as mãos na mesa.

— Eu uso informações para impedir surpresas.

— E eu sou uma surpresa?

— Você é uma variável.

Soltei um riso seco.

— Que bonito. Virei um risco calculado.

— Você entrou na minha casa ontem e, em menos de vinte e quatro horas, fez Lily escolher uma cor, desenhar uma linha, pisar fora da área permitida e perguntar coisas que ela não pergunta.

— Talvez o problema não seja eu.

— Cuidado.

— Talvez o problema seja essa casa ter ensinado uma criança a pedir permissão até para existir.

O maxilar dele travou.

Eu deveria ter parado.

Não parei.

— Olha lá fora, Sebastian. — Apontei para uma das telas, onde o jardim aparecia perfeito demais, verde demais, vazio demais. — Não tem um brinquedo naquele jardim gigante. Nenhum balanço, nenhuma bola, nenhuma marca de criança. Só pedra, grama aparada e câmera.

Ele olhou para a tela.

Pela primeira vez desde que entrei naquele escritório, Sebastian ficou em silêncio de um jeito diferente.

— Lily tem tudo de que precisa — disse.

— Não. Ela tem tudo que o senhor consegue controlar.

O olhar dele voltou para mim.

Frio.

Duro.

Mas, por baixo daquela frieza, alguma coisa tinha sido atingida.

— Você está aqui há um dia — ele disse.

— E já deu para perceber.

Os olhos dele escureceram.

— Minha filha está viva porque eu não permito descuido.

A frase veio baixa. Dura. Antiga.

Não era só resposta.

Era cicatriz.

— Ela está viva — respondi, mais baixo. — Mas talvez não esteja vivendo muito.

Sebastian fechou a pasta.

O som seco cortou o ar.

Ele deu a volta na mesa devagar. Cada passo parecia calculado para me lembrar que o escritório, a casa e talvez até meu contrato pertenciam a ele.

— Você atravessou o mundo porque não tinha opção — disse. — Não confunda minha tolerância com fraqueza.

— E o senhor não confunda minha necessidade com submissão.

Ele parou diante de mim.

Perto demais.

— Você fala como se tivesse escolha.

Meu coração bateu forte.

— Todo mundo tem alguma.

— Não quando depende de mim.

A frase veio fria. Cruel. Precisa.

Por um segundo, senti a distância entre Nova York e o Brasil inteira dentro do peito. Meu pai acordando por minutos, perguntando por mim. Minha mãe perdida entre documentos. Minha irmã tentando ser forte antes da hora. E eu ali, na frente de um homem que sabia tudo isso.

— Isso era para me assustar?

— Era para fazê-la lembrar.

— Do quê?

O olhar dele ficou preso no meu.

— Que sair desta casa não é tão simples quanto fingir coragem.

A raiva veio quente.

— Eu não finjo coragem. Eu continuo andando com medo mesmo.

Algo passou pelo rosto dele. Pequeno. Rápido. Quase humano.

Antes que ele respondesse, o celular vibrou sobre a mesa.

Sebastian olhou para a tela.

Verônica.

Atendeu no viva-voz.

— Diga.

A voz dela entrou pelo escritório, polida e tensa.

— Revisei os documentos da nova contratação. Há pontos que me preocupam.

Meu corpo gelou.

Sebastian não desviou os olhos de mim.

— Quais pontos?

— Dívidas familiares no Brasil. Pai hospitalizado. Uma possível disputa trabalhista. Documentação dependente do vínculo com você. É muita vulnerabilidade para alguém dentro da residência.

Ela falava como se eu não estivesse ali.

Como se eu fosse uma planilha com pernas.

— Continue — Sebastian disse.

Meu olhar queimou nele.

Verônica respirou.

— Uma pessoa nessa posição pode ser manipulada. Pode aceitar dinheiro. Pode se aproximar de Lily por interesse. Eu recomendaria substituição antes que isso vire problema.

O silêncio depois disso foi afiado.

Sebastian apoiou os dedos na mesa.

— Você está sugerindo que eu demita Elena?

Ela hesitou.

— Estou sugerindo cautela.

— Responda.

— Sim.

Eu não respirei.

Sebastian ficou em silêncio por dois segundos.

— Elena continua.

Meu coração deu um salto idiota.

— Sebastian…

— Apague qualquer cópia desse relatório que tenha feito fora dos arquivos autorizados.

— Eu só estou protegendo você.

— Não. Está ultrapassando.

A voz dele endureceu.

— Minha casa não é extensão da empresa. Minha filha não é pauta de reunião. E Elena não é uma decisão sua.

Verônica ficou muda.

— Entendi.

— Espero que sim.

Ele desligou.

O silêncio ficou pior.

Olhei para ele.

— Obrigada.

Sebastian me encarou como se eu tivesse errado de novo.

— Não agradeça.

— O senhor acabou de me defender.

— Eu defendi uma decisão minha.

Aquilo me irritou.

E também explicou tudo.

Sebastian não me protegeria por gentileza.

Protegeria porque, no momento em que decidiu que eu ficava, qualquer tentativa de me tirar dali virava afronta ao controle dele.

— Então o senhor pode investigar minha vida, mas ela não?

— Exatamente.

— Hipócrita.

Ele se aproximou mais um passo.

— Proprietário.

A palavra atravessou o espaço entre nós.

— Eu não sou propriedade sua.

Sebastian sustentou meu olhar, frio, absoluto.

— Nesta casa, o que eu permito ficar não é removido por outra pessoa.

Não era romance.

Não era carinho.

Era posse vestida de voz baixa.

— Talvez devesse me tirar daqui antes que eu piore — falei.

Ele não hesitou.

— Não.

Uma única palavra.

Sem pressa.

Sem dúvida.

— Agora eu quero ver até onde você vai.

Duas batidas discretas interromperam a sala.

Marta apareceu na porta.

— Senhor Gray, Lily terminou o descanso. Perguntou se a senhorita Elena ainda iria vê-la antes da atividade da tarde.

Sebastian continuou olhando para mim por alguns segundos.

Depois se afastou.

— Vá.

Passei por ele em direção à porta.

Antes que eu saísse, sua voz me prendeu.

— Elena.

Parei.

— Sim?

— Verônica não vai se aproximar de você sem que eu saiba.

Olhei para ele por cima do ombro.

— Isso deveria me tranquilizar?

O olhar dele ficou fixo no meu.

— Deveria fazê-la entender que qualquer problema seu dentro desta casa passa por mim primeiro.

Engoli em seco.

— E fora dela?

Sebastian não hesitou.

— Também.

Saí do escritório com o coração batendo forte demais.

Verônica tinha tentado me tirar daquela casa.

E, sem querer, tinha feito algo pior.

Tinha dado a Sebastian Gray uma justificativa perfeita para me vigiar mais de perto.

Só que, enquanto eu caminhava de volta para Lily, uma coisa me assustou mais do que isso.

Eu não sabia se queria fugir daquele cerco.

Ou descobrir até onde ele iria para me manter ali.

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