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CAPÍTULO 7 — UMA ESCOLHA PEQUENA

O jeito como ele deixou claro que qualquer problema meu passava por ele, dentro daquela casa e fora dela também, não deveria soar como proteção. Deveria me assustar. Mas não foi só isso que fez.

Quando saí do escritório, o silêncio do corredor parecia mais pesado, como se a casa inteira tivesse escutado aquela conversa e agora esperasse para ver o que eu faria com ela. Eu já sabia que Lily tinha terminado o descanso. Marta tinha dito. Mesmo assim, meus passos desaceleraram antes de chegar à porta da sala de atividades. Respirei fundo e entrei.

Lily estava perto da janela, sentada com o caderno aberto e o lápis verde entre os dedos. A luz da tarde tocava o rosto dela, mas não aquecia nada. Continuava sendo uma criança pequena demais para carregar tanto cuidado.

— Oi.

Ela levantou os olhos, rápido, como se conferisse se eu ainda estava ali, depois voltou para o caderno.

— Como foi o descanso?

— Fiquei quieta.

Assenti, puxando a cadeira devagar.

— Às vezes ajuda.

Ela girou o lápis entre os dedos.

— Papai ficou bravo?

— Com você?

Silêncio.

— Não — falei com cuidado. — Ele ficou daquele jeito.

Ela entendeu.

— Quando ele fica assim… ninguém fala alto.

Meu peito apertou, mas mantive a voz estável.

— Eu percebi.

Ela levantou os olhos de novo.

— Você não foi embora.

A frase veio simples, mas me pegou sem defesa.

— Eu disse que não costumo desistir fácil.

Lily olhou para o lápis.

— As outras também falaram.

O silêncio ficou pesado. Cheio de gente que tinha passado por ali e ido embora.

Eu não ia prometer.

— Eu não posso falar pelas outras — disse, mais baixo. — Mas hoje eu fico.

Ela franziu a testa.

— Só hoje?

— Hoje é o que eu sei.

Ela pensou, como se aquilo precisasse caber dentro de alguma regra.

— Amanhã pode mudar?

— Pode. Mas quando chegar amanhã, eu te conto.

Ela assentiu devagar.

— Papai gosta quando não muda.

— Eu notei.

— Ele não gosta quando as coisas saem do lugar.

Olhei para ela.

— E você?

O lápis travou entre os dedos.

— Não sei.

Não puxei mais.

Peguei uma folha em branco e coloquei entre nós.

— Então vamos fazer uma coisa pequena.

Ela ficou alerta.

— Pequena como?

— Uma palavra. Você escolhe uma. Eu escolho outra.

Ela olhou para a porta.

— Papai mandou caligrafia.

— E vai ser. Só muda a palavra.

Ela demorou.

Mas escreveu.

Devagar.

jardim

Eu não elogiei. Não transformei aquilo em evento. Só escrevi ao lado:

casa.

Ela leu.

— Por que casa?

Pensei no Brasil, no meu pai, na casa que parecia cada vez mais distante… mas não falei.

— Porque casa pode ser mais de uma coisa.

Ela olhou para a palavra dela.

— Jardim também?

— Também.

Ela passou o dedo perto das letras, sem tocar.

— Aqui não tem brinquedo.

A frase saiu baixa.

Mas ficou grande.

— Você queria que tivesse?

Ela ficou imóvel. Olhou para a porta. Depois para mim.

— Não sei.

Mas o “não sei” tinha peso.

Ela voltou o lápis para o papel.

Ficou alguns segundos parada.

Como se estivesse escolhendo.

Então escreveu, devagar:

mamãe

O som do grafite riscando o papel pareceu alto demais.

Eu vi.

Mas não falei nada.

Não perguntei.

Não invadi.

Ela continuou.

Hesitou mais uma vez.

E então escreveu:

brincar

Dessa vez, a mão demorou um pouco mais.

Como se não tivesse certeza.

Meu peito apertou.

Mas eu mantive o silêncio.

Peguei o lápis e escrevi abaixo da minha:

longe.

Lily leu em silêncio.

— Longe é ruim?

— Às vezes.

Ela ficou quieta por alguns segundos.

— Eu não sei brincar direito — disse, sem me olhar.

A frase veio simples.

Sem drama.

E foi exatamente isso que fez doer mais.

— Dá pra aprender — respondi, baixo.

Ela assentiu, pequeno.

Como se aquilo fosse só uma informação.

Não uma esperança.

Meu olhar caiu para a folha entre nós.

Cinco palavras.

Pequenas.

Mas grandes demais para caberem ali daquele jeito.

jardim. casa. mamãe. brincar. longe.

Dobrei o papel com cuidado.

Sem dizer nada.

Como se aquilo não pudesse ficar ali.

Como se alguém fosse ver.

E entender mais do que deveria.

Não era só sobre cuidar.

Era sobre alguém estar ali de verdade.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a porta se abriu.

Sebastian.

O ar mudou antes da voz.

O olhar dele foi direto para a mesa.

Para a folha que eu já tinha dobrado.

Para Lily.

— Como foi a atividade?

— Eu escrevi — ela disse.

— Eu vi.

Ele se aproximou um pouco mais.

— Continue.

Sem cobrança.

Sem elogio.

Mas também sem interromper.

Lily voltou para o caderno.

Sebastian ficou ali por mais alguns segundos.

Observando.

Depois o olhar dele passou por mim.

Breve.

Direto.

E saiu.

Sem dizer mais nada.

A porta fechou.

O silêncio voltou.

Mas não era o mesmo.

Fiquei olhando para o papel dobrado nas minhas mãos por um segundo a mais do que deveria.

E, pela primeira vez desde que entrei naquela casa…

eu tive certeza de uma coisa.

Lily não precisava de uma babá.

Ela precisava de alguém que não fosse embora.

E isso…

era exatamente o tipo de coisa que complicava tudo.

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