— Cuidado, Lizy...
Minha voz sai baixa, rouca, perigosamente próxima da boca dela.
Tão perto que eu sinto sua respiração misturar com a minha.
Por um segundo… só um segundo… eu quase esqueço quem eu sou.
O rosto dela.
Porra.
Esse rosto de anjo me desarma de um jeito que ninguém nunca conseguiu.
Talvez seja isso.
Talvez seja exatamente isso que me prende.
Um anjo… no meio da minha escuridão.
Mas então eu vejo.
Raiva.
Ela está com raiva de mim.
E aquilo… aquilo acende algo ainda pior dentro de mim.
Eu não digo mais nada.
Se eu ficar mais um segundo, eu faço algo que não posso desfazer.
Viro as costas.
Deixo ela ali… lidando com tudo o que está sentindo.
E comigo tentando não voltar.
Entro no carro com mais força do que o necessário.
— Porra, garota… maldita hora que você foi entrar na minha vida.
Passo a mão no rosto, tentando afastar a imagem dela da minha cabeça.
Não funciona.
Claro que não funciona.
Nunca funciona.
O celular toca.
Salvação.
Ou problema.
Atendo.
— Chefe, estamos com problemas...
Minha postura muda na mesma hora.
Frio. Direto. Letal.
— Onde?
— No carregamento.
Já giro a chave.
— Estou indo.
O galpão está um caos.
Luzes fortes, homens correndo, vozes sobrepostas, o som metálico dos contêineres sendo movimentados.
Assim que entro, sinto os olhares.
Respeito.
Medo.
Os dois.
— Dante chegou!
O burburinho diminui.
Meus homens se aproximam rapidamente.
— Qual a porra do problema que vocês não estão conseguindo resolver?
O silêncio pesa por meio segundo.
Filippo aparece.
Meu underboss.
Fiel.
E esperto o suficiente pra ainda estar vivo.
— O governador não está liberando as rotas.
Meu maxilar trava.
— Chama o consigliere. Agora.
A sala fecha.
Só nós três.
Filippo.
O consigliere.
E eu.
Pego o celular e ligo.
Ele atende rápido demais.
Já estava esperando.
— Você quer foder com o meu negócio? Qual o problema?
Do outro lado, um suspiro irritado.
— Dante… você quer me foder com a polícia investigativa. Não posso dar esse furo.
Dou um sorriso frio.
— Desembucha. Quanto?
Silêncio.
Ele sabe que não tem escolha.
— Dante, se for armas, eles não vão deixar passar.
— Não são armas, porra. São cigarros e whisky. Agora fala logo a quantia… e sem loucura.
Minha voz baixa.
Perigosa.
— Porque se não… eu ferro com você.
Mais um silêncio.
— Quinhentos mil.
Tampo o áudio.
Olho pro consigliere.
— Quanto vamos ganhar com essa exportação?
— Se tudo correr bem… quase dois milhões, chefe.
Faço um cálculo rápido.
Lucro alto.
Mas não vou ser feito de idiota.
Volto pro telefone.
— Trezentos mil.
Pausa.
— Te envio agora. E não me enrola.
Respiração pesada do outro lado.
— Ok… dou um jeito.
Desligo.
Problema resolvido.
Por enquanto.
Sempre tem outro.
Sempre.
Pego as chaves do carro, pronto pra sair.
Mas paro.
— Filippo.
Ele vira.
— Preciso falar com você.
Ele se aproxima.
— O que precisa, chefe?
Tiro o celular do bolso.
Abro a foto.
Lizy.
Mesmo em uma tela… ela me prende.
Entrego o telefone pra ele.
— Preciso que alguém fique de olho nessa garota.
Ele observa a imagem.
Levanta o olhar pra mim.
Mas não questiona.
Ele nunca questiona.
Passo o endereço.
Casa.
Trabalho.
Rotina.
— Quero tudo.
Minha voz sai baixa.
— Informações… contatos… hábitos.
Pausa.
— E alguém de olho nela vinte e quatro horas.
Filippo mantém a expressão neutra.
Mas eu vejo.
Ele entendeu.
— Ela é importante?
Olho direto pra ele.
— Ela é minha.
Silêncio.
Ele apenas assente.
Passo na casa dos meus pais antes de ir pra casa.
Erro.
Assim que entro, minha mãe aparece.
— Dante!
Ela me abraça forte.
E por um segundo…
Só por um segundo…
Eu não sou o homem que todos temem.
— Seu pai está te esperando no escritório.
Claro que está.
Sempre está.
Solto um suspiro pesado e sigo.
Abro a porta sem bater.
Ele está sentado.
Como sempre.
— Dante… marquei seu casamento. Daqui seis meses.
O mundo para.
Só por um segundo.
Depois explode.
Dou um murro na mesa.
— Você nunca mais toma uma decisão por mim. Está me ouvindo?
Minha voz sai fria.
Mas ele não recua.
— Você me respeita.
Ele levanta.
— Você só é o capo porque eu te passei o título.
Dou uma risada seca.
Sem humor.
— Você inventou uma doença, estava com a merda até o pescoço… e eu tive que resolver tudo.
Dou um passo à frente.
— Tudo, por isso me passou o título, porque ou você me dava ou acabava morto!
O ar pesa.
— Filho… esse casamento precisa acontecer. Um capo com trinta e seis anos sem família…
— Que se foda.
Corto ele.
Sem paciência.
— Você acha que o Capo dei Capi (chefe dos chefes) estava ligando pra isso?
Me aproximo mais.
— Você arranjou esse casamento porque quer território da família de Stella e você tem o rabo preso com o pai dela.
Afirmo.
E ele fica em silêncio.
— Você falou com o Capo dei Capi pelas minhas costas.
Minha voz abaixa.
— Você não aprende, não é?
Ele cruza os braços.
— Você saiu com ela ontem. Achei que tinha gostado. - ele me diz.
A imagem da mulher me vem à cabeça.
Bonita.
Elegante.
Sexy.
— Ela é linda, meu filho.
Ele diz.
— A mulher é arrogante… insuportável.
Respiro fundo.
— Escuta… eu vou casar com ela.
Vejo o alívio passar pelo rosto dele.
— Mas não é por você.
Minha voz endurece.
— Se essa merda estourar agora, você morre.
Silêncio absoluto.
— Eu faço isso pela minha mãe… e pela minha irmã, mamãe não aguentaria o luto.
Dou um passo pra trás.
— Mas se você se meter nos meus negócios de novo…
Inclino levemente a cabeça.
— Eu deixo tudo explodir bem na sua cara.
Fico um tempo com minha mãe.
Conversas leves.
Falsas.
Minha cabeça não está ali.
Está nela.
Lizy.
Sempre voltando pra ela.
— Porra…
Eu preciso dar um jeito de me livrar desse casamento.
Resmungo quando entro no carro.
Chego em casa já tarde.
Depois de resolver mais problemas.
Mais ligações.
Mais decisões.
Mais sangue… mesmo que invisível.
Tomo um banho longo.
Água quente.
Tentando limpar mais do que só o corpo.
Não adianta.
Nunca adianta.
Saio.
Pego uma toalha.
O celular toca.
Filippo.
Atendo na hora.
— Fala.
— Ninguém pode encostar na garota?
Minha mão trava.
O sangue ferve.
— Onde ela está?
— Em um bar.
Silêncio.
— Com um casal de amigos… e um cara.
A palavra pesa.
— Um cara que acho que está querendo ela.
Meu maxilar trava.
Outro homem… querendo ela.
Erro.
Grave erro.
— Me passa o endereço.
Minha voz sai baixa.
Perigosa.
— Já estou enviando.
Desligo antes mesmo de ele terminar.
Pego as chaves.
Saio.
O motor do carro ruge.
Eu nunca divido o que é meu...