** POV da Paige **
— Eu sei o que você andou fazendo, Greg — digo, quando desço na manhã seguinte e o encontro comendo uma tigela de cereal na mesa de jantar.
As palavras mal saíram da minha boca e seu rosto já se contorce em uma carranca amarga. Ele olha para mim, com a colher suspensa no ar.
— Ah, e o que você acha que eu andei fazendo? — diz, com tom de deboche.
Larguei o celular na mesa na frente dele. A tela se ilumina com ainda mais mensagens. O nome dela. O rosto dela. As mensagens.
Leanne: Bom dia, gato.
Leanne: Sinto falta do seu toque.
Leanne: Hoje à noite, depois que ela dormir?
Leanne: Você me faz sentir viva de novo.
Viva!
Eu estava aqui morrendo aos poucos enquanto ele estava nos braços de outra, fazendo-a se sentir viva.
— Você a ama? — Minha voz falha um pouco. Odeio isso. Odeio como pareço pequena e fraca.
Greg olha para o celular como se fosse uma arma, e talvez seja, porque finalmente cansei de bancar a boba de coração mole que limpava a bagunça e sorria diante da negligência.
— Ela não significa nada — ele suspira. — É complicado.
— Não — dou um passo para trás, cruzando os braços, para não ficar tentada a jogar a tigela na cabeça dele.
— Na verdade, é bem simples. Você mentiu. Você transou com ela enquanto eu estava aqui com o Jaxon, enquanto eu trabalhava duro para pagar esta casa, enquanto eu tentava acreditar que ainda podíamos salvar nosso casamento.
Um silêncio pesado preenche o ambiente.
— Eu precisava de algo para mim, Paige — ele diz. — Você tem estado... Deus, você está distante desde o momento em que te conheci. Você nunca me deixou entrar porque estava sempre se agarrando a fantasmas, sempre esperando seu precioso Ryder voltar.
Abro a boca para falar, depois fecho de novo. Será que ele está certo? A culpa é minha?
— Você está certo — respiro. — Talvez eu tenha ficado presa à garota que eu costumava ser. Aos pedaços que tentei colar. À esperança de que você pudesse aprender a me amar do jeito que eu sou. Nunca vou ser a pessoa que você está tentando me moldar, e nem meu filho.
— Mamãe — a voz de Jaxon chama fracamente lá de cima, e me viro para sair.
— Aonde você vai? — Greg pergunta, sua cadeira arranhando o chão quando ele se levanta.
— Para algum lugar onde possamos respirar. Para algum lugar longe de você e dessa mentira. Eu quero o divórcio.
Então subo as escadas e faço duas malas de viagem para mim e para o Jax. Greg não se dá ao trabalho de dizer uma palavra para nos impedir ou sequer tentar se desculpar antes de eu sair pela porta e deixar para trás a vida que pensei ter construído aqui.
Jax fica quieto enquanto nos afastamos da casa, e olho para ele pelo retrovisor. Seus olhos parecem preocupados enquanto aperta seu ursinho de lobo cinza contra o peito. Ele sente que algo está errado e odeio que ele terá que sofrer pelas ações do Greg também.
— Que tal pararmos no café para comer panquecas no café da manhã? — pergunto.
— O Greg vem?
— Não, meu amor. Agora somos só nós. Vamos partir em uma aventura — digo, tentando ao máximo parecer animada.
— Para onde vamos?
— Morar perto da tia Poppy — sorrio, mas os olhos de Jaxon se enchem de lágrimas. — Vai ficar tudo bem, amigão, eu prometo — digo, tentando tranquilizá-lo.
— Mas e os meus amigos, e a vovó e o vovô? — ele pergunta em tom baixo.
— Você vai fazer muitos amigos novos, e a vovó e o vovô vão estar conosco em espírito; eles estão sempre olhando por você.
Enquanto Jaxon come suas panquecas, faço algumas ligações. O proprietário da casa que Poppy tinha me enviado é muito compreensivo com a nossa situação e, depois de fazer algumas verificações sobre mim, ele concorda em nos deixar mudar hoje.
Poppy tinha razão. A casa era encantadora. Eu só tinha visto as fotos online pelo link que ela me enviou, mas confiava em Poppy quando ela disse que era exatamente como as fotos mostravam.
Era menor que nossa casa atual, mas era perfeita para mim e para o Jax. Não consegui encontrar muita informação sobre a cidade, mas a escola local parece maravilhosa, e depois de uma conversa por telefone com o diretor, acho que Jaxon vai prosperar lá. Marco uma visita à escola para amanhã à tarde.
Depois do café da manhã, passamos na floricultura ao lado, e deixo o Jax escolher todas as suas flores favoritas enquanto escolho algumas lavandas e rosas azuis e adiciono ao buquê para deixar no túmulo dos meus pais.
Minha mente volta para Ryder. Ele costumava me presentear com uma única rosa, e então explicava o que cada cor representava. Noto algumas rosas pretas enquanto pago, e pego uma única para adicionar à minha compra.
— Quer que eu adicione esta ao buquê? — pergunta a florista.
— Não, obrigada. Deixe essa separada.
Chegamos ao cemitério, e Jax coloca as flores na lápide dos meus pais. Jaxon tinha apenas um dia de vida quando eles morreram, mas sempre me certifiquei de que ele soubesse sobre eles. Eles morreram em um acidente de carro horrível enquanto eu ainda estava no hospital após o parto.
Eu achava que perder Ryder era a pior coisa que poderia acontecer comigo até aquele dia. Meus pais eram os melhores. Eles me apoiaram durante toda a gravidez e enquanto eu sofria por Ryder. Meu coração ainda dói por eles e pelo meu filho. Eles teriam adorado Jaxon e odeio que ele nunca teve a chance de ter um relacionamento com eles. Eu realmente precisava do apoio da minha mãe agora. Sei que ela me ofereceria algumas palavras sábias sobre seguir em frente para coisas melhores.
Depois de algum tempo no cemitério, voltamos para o carro, prontos para deixar esta cidade e começar nossa nova vida. Só tenho mais uma parada para fazer.
Estaciono em frente ao bangalô isolado, a antiga casa de Ryder, e sou tomada por memórias. Não venho aqui há anos, não desde que conheci Greg. Visitar este lugar parecia uma traição a ele. Infelizmente, a devoção dele não chegava nem perto da minha.
O jardim que antes era lindamente cuidado agora está coberto de mato, e a tinta está descascando do pequeno portão de ferro. A casa ainda parece intocada.
— Quem mora aqui, mamãe? — Jax pergunta.
— É aqui que seu papai morava antes de desaparecer — explico.
Embora ele não tenha idade suficiente para entender completamente, nunca escondi a verdade de Jaxon. Não queria que ele crescesse pensando que seu pai não o quis.
— Você acha que ele ainda pode estar escondido aí dentro? A gente podia tentar encontrar ele. Talvez ele esteja debaixo da cama. Eu vou debaixo da minha cama quando estou com medo — diz Jax, e sorrio com sua inocência.
— Não, amigão, ele não está aí — suspiro e tiro o cinto de segurança.
— Posso ir? — Jaxon pergunta, enquanto saio do carro.
— Claro — digo, abrindo a porta dele e ajudando-o a sair da cadeirinha antes de pegar a única rosa preta do banco do passageiro.
O portão de ferro range quando luto para empurrá-lo com suas dobradiças enferrujadas. Mais um sinal de que ninguém esteve aqui por anos. Eu esperava que a casa já estivesse à venda a essa altura. Isso só aumenta o mistério de a casa permanecer vazia.
Caminho de mãos dadas com Jax até a porta da frente. Borboletas agitam meu estômago assim como fizeram na primeira vez que subi este caminho para bater nesta porta para nosso primeiro encontro.
Os pais de Ryder tinham saído, e ele me convidou para assistir a um filme. Lembro claramente como minha respiração ficou presa na garganta quando ele abriu a porta e seus olhos azuis penetrantes me cativaram.
No início, ficamos sentados desajeitadamente em pontas opostas do sofá, dividindo um saco de pipoca, e conforme o filme passava, nossas mãos foram lentamente se aproximando até nossos dedinhos se tocarem. Aquele contato mínimo fez meu coração disparar, e eu soube naquele momento que Ryder seria alguém especial para mim.
Nunca tive ninguém que me fizesse sentir do jeito que Ryder conseguia. Cada toque parecia um bálsamo reconfortante. Seus beijos pareciam eletricidade carregando minha alma e seus abraços eram um escudo impenetrável. Eu me sentia tão segura em seus braços.
Jaxon puxa sua mão da minha, me tirando da memória que estava se repetindo em minha mente. Ele sobe no degrau da porta e estende a mão, colocando a palma espalmada na porta e fechando os olhos.
— Ele não está aqui dentro — ele suspira e recua para pegar minha mão de novo.
Abaixo-me e coloco a rosa na soleira da porta.
— O que a preta significa? — Jax pergunta.
— Ela representa poder, força e esperança. Também pode significar solidariedade ou o fim de um relacionamento — explico, feliz por poder compartilhar um pouco das crenças do pai dele com ele.
Dou uma última olhada na casa e então me viro e vou embora. Estou encerrando o capítulo desta parte da minha vida. É hora de parar de viver no passado e deixar todos os fantasmas para trás. Agora podemos começar a viver para o futuro. Só posso esperar que ele seja mais gentil do que o passado.
Ao ultrapassarmos os limites da cidade, olho para trás pelo retrovisor. Fomos felizes aqui por um tempo, mas agora traição e tristeza mancham o lugar. É hora de criar novas memórias em um novo lugar.