Capítulo 8

Capítulo 8

André Luiz Albuquerque

O silêncio da madrugada sempre foi meu aliado.

Na escuridão, as pessoas mostram quem realmente são. Nos negócios, nos acordos… e nas guerras.

E eu vivi a maior parte da minha vida em guerra.

A mansão estava quieta, mas minha cabeça não.

Eu continuava sentado na poltrona, olhando para a penumbra do quarto enquanto o relógio avançava lentamente na parede.

Amanda estava na minha cama.

Dormindo.

Ou pelo menos fingindo dormir.

Eu conhecia aquele tipo de silêncio. Aquela respiração controlada demais. Aquela tensão no corpo.

Ela estava acordada por muito tempo antes de finalmente ceder ao cansaço.

Minha esposa.

A palavra ainda soava estranha até para mim.

Passei a mão pelo rosto devagar, sentindo o peso da noite que ainda não tinha terminado.

A cidade inteira podia dormir tranquila… porque eu não dormia.

Era assim que funcionava.

Era assim desde que meu avô passou tudo pra mim.

Orlando Albuquerque.

O homem que construiu tudo isso.

Império, respeito, medo.

Quando ele morreu, tenho certeza que metade dos homens que apertaram minha mão no velório estavam esperando que eu fracassasse.

Esperando que eu não tivesse estômago para continuar o trabalho dele.

Que eu fosse apenas um herdeiro mimado de terno caro.

Eles estão aprendendo rápido.

Muito rápido.

E metade de quem duvidou… não está mais aqui para contar.

Me levantei da poltrona devagar e caminhei até o bar pequeno no canto do quarto. Servi um pouco de uísque no copo e bebi sem pressa.

O líquido queimou na garganta.

Mas não o suficiente para apagar meus pensamentos.

Meu olhar voltou para a cama.

Para ela.

Amanda estava de lado agora, o rosto parcialmente escondido no travesseiro. O cobertor tinha escorregado um pouco outra vez, deixando parte da coxa descoberta.

Suspirei baixo.

Isso não era para estar acontecendo.

Eu conhecia Amanda desde que ela era uma menina correndo pelos corredores da mansão.

A neta da governanta.

A garota que minha mãe tratava com gentileza… e que minha família sempre manteve perto, mas nunca realmente dentro da família.

Mas eu via.

Sempre vi.

Mesmo quando ela achava que ninguém estava olhando.

Mesmo quando era apenas uma adolescente tentando provar para o mundo que não era invisível.

Eu me lembrava das vezes em que ela me enfrentava com aquele olhar cheio de coragem que ela nem sabia que tinha.

Amanda nunca foi fraca.

Ela só não sabia disso ainda, e agora um dos meus papéis é fazer ela entender isso, já que meu avô quis que ela caísse nesse mundo de paraquedas.

Aproximei-me da cama novamente, apoiando o copo na mesa de cabeceira.

Fiquei olhando para ela por alguns segundos.

Ela estava usando minha camiseta.

Grande demais para o corpo dela.

O tecido escuro contrastava com a pele clara das pernas.

Merda.

Passei a mão pela nuca, tentando afastar os pensamentos.

Eu não precisava de mais complicações.

Meu mundo já era cheio delas.

Nos últimos meses, três famílias estavam tentando testar meus limites.

Italianos, russos e um grupo novo que estava crescendo rápido demais para o meu gosto.

Traição sempre vinha disfarçada de oportunidade.

E eu sabia reconhecer o cheiro dela de longe.

Era por isso que esse casamento tinha sido necessário.

Um movimento estratégico.

Mas ninguém precisava saber que parte da decisão… não foi apenas estratégica, ou obrigação pelo pedido do meu avô.

Olhei novamente para Amanda.

Ela se mexeu um pouco no sono, o rosto franzindo levemente como se estivesse sonhando.

Ou lutando contra algo dentro da própria cabeça.

Eu sabia que ela me odiava.

Ou pelo menos queria odiar.

E também era isso que eu sempre demonstrei sentir por ela.

Talvez fosse mais fácil para ela assim.

A verdade era que Amanda sempre teve algo que me tirava do eixo.

Mesmo quando não devia.

Mesmo quando era errado.

Agora ela estava ali.

Era minha esposa.

Dentro da minha casa.

Na minha cama.

E o mais perigoso de tudo…

Sem ter a menor ideia do que estava acontecendo dentro da minha cabeça.

Estendi a mão e puxei o cobertor novamente, cobrindo suas pernas.

Dessa vez ela se mexeu um pouco mais forte.

Os olhos dela abriram devagar.

Por um segundo nossos olhares se encontraram no escuro.

Ela ficou imóvel.

— Você está me observando? — a voz dela saiu rouca de sono.

Cruzei os braços.

— Estou verificando se minha esposa está confortável na minha cama.

Ela franziu o cenho.

— Isso não foi o que parecia.

— Então o que parecia?

Ela hesitou.

Amanda pareceu um pouco insegura.

Isso deveria me dar vantagem.

Mas não deu.

Porque havia outra coisa ali também.

Coragem.

Ela se sentou um pouco na cama, puxando o cobertor contra o corpo.

— Você faz isso com todas?

Perguntou.

Arqueei uma sobrancelha.

— Fazer o quê?

— O casar sabemos que foi por obrigação… mas tirar as roupas delas… e depois ficar observando enquanto dormem.

Um pequeno sorriso apareceu no canto da minha boca.

— Não.

A resposta saiu simples.

— Só com você.

Ela abriu a boca para responder… mas não disse nada.

Eu podia ver as perguntas rodando na cabeça dela.

Podia ver o conflito.

O medo.

E algo mais que ela ainda não estava pronta para admitir.

Me aproximei um pouco mais da cama.

Não o suficiente para tocar.

Mas o suficiente para que ela sentisse minha presença.

— Dorme, Amanda.

Falei baixo.

— Porque amanhã…

Meu olhar ficou mais sério.

— Amanhã você começa a entender de verdade em que tipo de mundo decidiu entrar.

Ela me encarou em silêncio.

E naquele momento eu tive certeza de uma coisa.

Amanda Salles Albuquerque ainda não fazia ideia do que significava ser a esposa de um Don da máfia.

Mas muito em breve…

Ela iria descobrir.

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