Mundo ficciónIniciar sesiónCapítulo 7
Amanda Salles Albuquerque Alguma coisa me acordou. Não foi um barulho alto. Foi mais uma sensação. Aquela estranha sensação de que eu não estava mais sozinha no quarto. Meus olhos se abriram devagar no escuro, ainda pesados de sono. Por alguns segundos fiquei imóvel, tentando entender onde eu estava. Então lembrei. A mansão. O contrato. O casamento. E ele. Meu coração acelerou quando percebi uma silhueta perto da janela. André. Ele estava ali. Parado, olhando para fora, como se a noite inteira estivesse acontecendo do outro lado do vidro. A luz fraca da varanda desenhava o contorno largo dos ombros dele. A camisa ainda estava no corpo, mas os primeiros botões estavam abertos e as mangas dobradas até os antebraços. Ele parecia cansado. Mas ainda assim… perigoso. Eu me mexi um pouco na cama sem pensar. O colchão fez um leve som. E ele percebeu. — Acordei você? A voz dele saiu baixa, rouca, quebrando o silêncio do quarto. Engoli em seco antes de responder. — Não… eu já estava acordando. Não era totalmente verdade. Eu me levantei um pouco na cama, puxando o cobertor mais para perto do corpo. Foi então que percebi que a camiseta tinha subido enquanto eu dormia. Meu rosto esquentou na mesma hora. André se virou lentamente para mim. Os olhos dele percorreram meu corpo por um segundo rápido demais… e ao mesmo tempo lento demais. Como se ele estivesse lutando contra algo dentro dele. — Suas roupas não estavam aqui — falei, tentando quebrar aquele silêncio estranho. — Eu sei. A resposta dele veio simples. Ele já sabia. Claro que sabia. Nada naquela casa acontecia sem que ele soubesse. — Foi você que tirou? Perguntei, antes mesmo de pensar se devia. Ele deu alguns passos pelo quarto, se aproximando da cama. Cada passo fazia meu coração bater mais rápido. — Foi. Ele parou a poucos metros de mim. — Por quê? Perguntei, tentando parecer firme. Ele inclinou um pouco a cabeça, me observando. — Porque eu queria. A resposta me deixou sem reação. — Isso não é motivo. — Aqui dentro… — ele falou calmamente — geralmente é. Meu coração martelava no peito. — Você gosta de me lembrar que eu não tenho controle de nada aqui, não é? André ficou em silêncio por alguns segundos. Então se aproximou mais um passo. Agora ele estava perto o suficiente para que eu pudesse sentir o calor do corpo dele. — Não. A voz dele saiu mais baixa. — Eu gosto de lembrar que você escolheu estar aqui. Aquelas palavras me atingiram. Porque ele estava certo. Eu escolhi. Mesmo que tivesse sido por necessidade. Mesmo que fosse um erro. Meu olhar caiu por um segundo… e então voltou para ele. — Você disse que não ia me obrigar a nada. Os olhos dele escureceram um pouco. — E eu não vou. Ele se inclinou levemente, apoiando uma mão na cama. O gesto fez o colchão afundar perto de mim. Meu corpo inteiro ficou tenso. — Mas isso não significa que eu não vá querer. A forma como ele falou aquilo fez um arrepio percorrer minha coluna. Meu coração estava acelerado demais. — Você gosta de me assustar. — Não. Ele me olhou de um jeito diferente. Mais intenso. Mais verdadeiro. — Eu gosto de ver até onde você aguenta. Aquela resposta deveria me irritar. Mas algo dentro de mim reagiu de outra forma. E isso me assustava muito mais. André então se afastou da cama. Como se tivesse percebido que tinha chegado perto demais. — Dorme, Amanda. Ele caminhou até uma poltrona do outro lado do quarto. — E você? Perguntei, antes que ele se sentasse. Ele soltou um pequeno suspiro. — Eu tenho coisas para pensar. Ele se sentou, apoiando os cotovelos nos joelhos, olhando para o chão por um momento. — Sobre mim? A pergunta saiu antes que eu conseguisse segurar. Ele levantou os olhos. E por um segundo… apenas por um segundo… algo no olhar dele parecia muito menos frio. — Talvez. O silêncio voltou a preencher o quarto. Mas agora era um silêncio diferente. Mais pesado. Mais cheio de coisas que nenhum dos dois estava pronto para dizer. Eu me deitei novamente, puxando o cobertor até o queixo. Mas demorou muito para que o sono voltasse. Porque mesmo de olhos fechados… eu sentia o olhar de André Luiz Albuquerque sobre mim. E, pela primeira vez desde que aceitei esse contrato… Eu não tinha certeza se o perigo vinha dele. Ou de mim.






