Mundo ficciónIniciar sesiónCapítulo 3
Amanda Salles Tudo aconteceu rápido demais. Rápido a ponto de parecer um sonho ruim do qual eu ainda não tinha acordado. Na manhã seguinte à leitura do testamento, eu estava diante de um juiz. Casando. Com André Luís Albuquerque. O mesmo homem que passou boa parte da minha vida me lembrando que eu não pertencia àquele lugar, que eu era menos que nada. Agora… eu me tornaria oficialmente parte da família dele, pior ainda esposa dele. O vestido que eu usava era simples. Branco. Nada parecido com um vestido de noiva de verdade. Parecia mais um vestido que alguém pegou às pressas em alguma loja cara da cidade. Talvez tivesse sido exatamente isso. Minha avó estava ao meu lado, segurando minhas mãos com força. Os olhos dela estavam marejados. — Você não precisa fazer isso, minha menina — ela sussurrou, eu posso ir embora. Meu coração apertou. Mas eu sorri para ela. Um sorriso fraco. — Está tudo bem, vó. Eu não queria que ela soubesse a verdade. Que eu estava com medo. Muito medo. Do outro lado da pequena sala do cartório, André estava impecável em um terno preto. Os cabelos escuros perfeitamente alinhados. O olhar frio. Como se aquilo tudo fosse apenas mais uma reunião de negócios. E talvez fosse exatamente isso para ele. O juiz começou a falar. As palavras ecoavam pela sala, mas minha mente estava distante demais para realmente absorver cada uma delas. Casamento civil. Contrato. União perante a lei. Tudo parecia absurdo. Então chegou a hora das assinaturas. Primeiro André. Ele caminhou até a mesa sem hesitar. Pegou a caneta. Assinou os papéis com uma calma quase irritante. Como se estivesse assinando qualquer documento comum da empresa. Depois foi minha vez. Minhas mãos tremiam quando segurei a caneta. Olhei para o papel. Amanda Salles Albuquerque. Por um momento pensei em parar ali. Em simplesmente dizer que não. Que aquilo era loucura. Mas então lembrei da casa da minha avó. Da vida inteira dela naquele lugar. Do sorriso cansado dela no jardim todas as tardes. Respirei fundo. E assinei. Quando levantei o olhar novamente… Eu já era outra pessoa. Amanda Salles Albuquerque. O juiz sorriu educadamente. — Declaro oficialmente concluída a união civil. O som daquelas palavras fez algo dentro de mim estremecer. André estendeu a mão para mim. Por reflexo, coloquei a minha sobre a dele. A mão dele era quente. Firme. Dominante. Ele se inclinou um pouco. A voz saiu baixa, só para mim. — Parabéns, esposa conseguiu o que tanto queria. Não consegui responder... A recepção aconteceu na própria mansão Albuquerque. Nada grande. Nada público. Apenas alguns homens importantes do meio dele. Homens que claramente não eram apenas empresários. Eu sentia os olhares deles sobre mim. Pesando. Analisando. Como se estivessem tentando descobrir que tipo de mulher eu era. Ou se eu realmente merecia estar ali. André estava cercado por alguns deles perto do bar. Conversando em voz baixa. Falando de negócios. De territórios. De coisas que eu sabia que não deveria ouvir. Eu estava perto da janela do salão principal. Tentando parecer invisível. Tentando não chamar atenção. Mas aquilo era impossível. Porque agora eu era a esposa do Don Albuquerque. E todos sabiam disso. Foi quando uma mulher entrou no salão. Ela era linda. Alta. Cabelos loiros longos. Vestido vermelho colado ao corpo. E o olhar dela foi direto para André. Meu estômago se apertou. Ela caminhou até ele sem hesitar. Como se tivesse todo o direito do mundo. Eu vi quando ela colocou a mão no peito dele. Deslizando lentamente. Perto demais. Meu coração apertou. André não a afastou. Pelo contrário. Ele parecia… divertido. Meu rosto esquentou. Virei o olhar para outro lado. Eu não deveria me importar. Aquilo não era um casamento de verdade. Era apenas um contrato. Mas mesmo assim… Doía, era vergonhoso. Alguns minutos depois, senti alguém se aproximando de mim. Levantei o olhar. Era André. A mulher loira ainda estava atrás dele. Quase colada ao corpo dele. O sorriso dela era provocador. André parou diante de mim. Os olhos escuros analisando cada detalhe da minha expressão. Então ele perguntou calmamente: — Você vai permitir isso? Pisquei, confusa, o que ele estava esperando que eu fizesse? — O quê? Ele inclinou levemente a cabeça na direção da mulher. — Isso. Meu coração bateu mais forte. — Isso não é da minha conta. O sorriso dele cresceu. Um sorriso provocador. — Não é? A mulher passou os braços em volta do pescoço dele. — André… você sumiu ontem à noite. A voz dela era doce demais. — Senti sua falta. Meu estômago virou. André não a afastou imediatamente. Em vez disso… Ele continuou olhando para mim. — Então? — ele perguntou. Meu peito subia e descia rápido. — Faça o que quiser — respondi. Minha voz saiu mais dura do que eu esperava. — Nosso casamento é apenas um contrato. Algo brilhou no olhar dele. Algo estranho. Mas eu não quis descobrir o que era. Virei as costas. E saí apressada do salão Corri pelos corredores da mansão, como o próprio diabo fugindo da cruz. Meu coração batia rápido demais. Meu peito estava apertado. Humilhada. Era assim que eu me sentia. Humilhada. Como se eu fosse apenas um detalhe na vida dele. Uma obrigação. Quando cheguei ao quarto que agora era… nosso quarto… Fechei a porta atrás de mim. Encostei as costas nela. Respirei fundo. Mas não adiantou. A sensação de vergonha continuava ali. Alguns minutos depois… A porta se abriu. Levantei o olhar. André entrou no quarto. Sozinho. Ele fechou a porta com calma. — Fugindo da própria festa de casamento? Não respondi. Ele caminhou até o centro do quarto. Os olhos escuros analisando meu rosto. — Você saiu rápido. — Não estava me sentindo bem — respondi. Ele soltou uma risada baixa. — Não parecia isso. Silêncio. Eu finalmente falei: — Você não precisava fazer aquilo. Ele ergueu uma sobrancelha. — Aquilo o quê? — Me provocar daquele jeito. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Então disse: — Eu não estava provocando você. Cruzei os braços. — Aquela mulher praticamente estava em cima de você. — E você fez exatamente o que eu imaginei que faria. Meu coração apertou. — O que quer dizer? Ele deu mais alguns passos na minha direção. Até parar bem na minha frente. — Você fugiu. As palavras dele eram frias. — Você baixou a cabeça. — Você agiu como se não tivesse direito de estar ali. Meu estômago se apertou. — Talvez porque eu não tenha. O silêncio caiu entre nós. Então ele disse algo que eu não esperava. — Agora você tem. Levantei o olhar. Confusa. Ele continuou: — Você é uma Albuquerque agora. A voz dele era firme. Autoritária. — E enquanto tiver esse sobrenome… Ele se inclinou um pouco na minha direção. — Você vai agir como uma. Meu coração acelerou. — Eu não pertenço a esse mundo. — Pertence sim — ele respondeu. — Pelo menos pelos próximos 365 dias. Silêncio. Ele continuou olhando para mim. — No meu mundo, Amanda… fraqueza é perigosa. — Pessoas fracas são destruídas. Meu peito subia e descia rápido. — Então aprenda uma coisa. A voz dele ficou mais baixa. Mais intensa. — Você não pode ser fraca. Ele apontou na direção da porta. — Se alguma mulher chegar perto de mim daquele jeito de novo… Os olhos dele se prenderam nos meus. — Você não vai fugir. Meu coração disparou. — Você vai lembrar a todos quem você é. Silêncio. Pesado. Ele deu mais um passo para trás. — Porque goste ou não… Ele abriu a porta. — Você é minha esposa agora. E desapareceu pelo corredor. Me deixando sozinha. Com o coração batendo descontrolado. E com uma sensação estranha crescendo dentro de mim. Porque pela primeira vez André Luís Albuquerque parecia determinado a me ensinar a sobreviver no mundo dele. Resta saber se eu consigo...






