Eu estava na terceira gaveta quando ouvi a porta.Tinha começado pela prateleira, depois fui para o baú no quarto menor, depois para a cozinha, vasculhando tudo com a sistemática de quem precisa muito de uma coisa específica e está disposta a aceitar qualquer aproximação razoável dela. Não havia papel em lugar nenhum daquela cabana, nem caneta, nem lápis, nem nada que se parecesse remotamente com instrumento de escrita, e a frustração disso havia crescido ao longo da manhã até virar uma obsessão pequena e teimosa."O que você está fazendo?"Gael estava no vão da porta com o cabelo ainda úmido do rio, a camisa colada nos ombros, olhando para a gaveta aberta na minha frente com uma expressão que misturava cautela e algo próximo de diversão contida."Procurando uma coisa," eu disse, sem parar de remexer."Isso eu vi. Procurando o quê?""Preciso de algo pra escrever.""Escrever o quê?""Isso não importa agora." Fechei a gaveta com mais força do que pretendia. "Você tem papel em algum luga
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