A noite chegou cedo, como chegam as noites de outono — sem avisar, escorregando pela janela da cozinha enquanto Liv ainda achava que era tarde da tarde. Ela percebeu pela luz que mudou de tom, passou de amarelo para cinza e depois sumiu quase de vez, deixando só o reflexo da lâmpada no vidro da janela. Lá fora, a rua estava quieta.Liv abriu a geladeira e ficou olhando para ela por alguns segundos sem realmente ver o que havia dentro. Depois fechou, abriu o armário, fechou também. Repetiu o movimento uma vez mais, como se a resposta fosse aparecer na segunda tentativa. Terminou tirando a tábua de corte, a panela grande e os legumes que havia comprado dois dias antes e que já estavam começando a murchar nas pontas — uma cenoura, dois talos de aipo, meia cabeça de repolho, uma cebola. Sopa. Era o que havia e era o que bastava.Da sala chegava o som da televisão. Uma voz de locutor que subia e descia sem que Liv conseguisse entender as palavras, só o ritmo, e por cima disso a risada de M
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