Mundo de ficçãoIniciar sessãoA noite chegou cedo, como chegam as noites de outono — sem avisar, escorregando pela janela da cozinha enquanto Liv ainda achava que era tarde da tarde. Ela percebeu pela luz que mudou de tom, passou de amarelo para cinza e depois sumiu quase de vez, deixando só o reflexo da lâmpada no vidro da janela. Lá fora, a rua estava quieta.
Liv abriu a geladeira e ficou olhando para ela por alguns segundos sem realmente ver o que havia dentro. Depois fechou, abriu o armário, fechou também. Repetiu o movimento uma vez mais, como se a resposta fosse aparecer na segunda tentativa. Terminou tirando a tábua de corte, a panela grande e os legumes que havia comprado dois dias antes e que já estavam começando a murchar nas pontas — uma cenoura, dois talos de aipo, meia cabeça de repolho, uma cebola. Sopa. Era o que havia e era o que bastava. Da sala chegava o som da televisão. Uma voz de locutor que subia e descia sem que Liv conseguisse entender as palavras, só o ritmo, e por cima disso a risada de Miguel — curta, aguda, a risada de menino de dez anos que ainda ri com o corpo inteiro. Depois a voz de Dona Carmem dizendo alguma coisa, baixinha demais para atravessar a parede, e Miguel rindo de novo. Liv sorriu sem perceber. Depois voltou para a cebola. Ela começou a cortar devagar, com cuidado, do jeito que o pai havia ensinado: a faca na diagonal, os dedos dobrados, nunca a ponta do dedo para fora. *Assim, Olivia. Você vai cortar a vida toda, aprende a fazer direito.* A voz dele na memória tinha aquele tom de quem está ensinando uma coisa pequena mas tratando como se fosse grande, porque no fundo toda coisa pequena é grande quando alguém te ensina com atenção. O celular estava pousado na borda da pia. Ela havia colocado ali por hábito, para ouvir música enquanto cozinhava, mas não havia colocado música nenhuma. A tela acendeu sozinha com uma notificação e Liv limpou a mão no pano de prato e pegou o aparelho sem pensar. Não era a notificação que a parou. Era o papel de parede. Ela havia esquecido que ainda era aquela foto. As duas sorrindo na frente de um muro grafitado em alguma rua que Liv já não conseguia lembrar o nome, num dia de sol de dois anos atrás. Ela estava com o cabelo solto nessa foto, a franja voando um pouco por causa do vento, e a outra segurava um sorvete que já estava derretendo pela mão. As duas rindo daquilo, rindo de nada, do jeito que se ri quando se está completamente dentro de um momento sem saber que ele vai acabar. A lágrima veio antes que Liv decidisse chorar. Escorregou pelo rosto e caiu no canto da boca, e ela ficou parada com o celular na mão e o gosto de sal nos lábios. Não limpou imediatamente. Ficou um segundo ali com a foto, com o sorvete derretendo para sempre naquele dia de sol que não voltava mais. Depois pousou o celular com a tela para baixo e voltou para os legumes. A cenoura ela cortou em rodelas, um pouco irregulares porque as mãos não estavam firmes. O repolho em tiras largas. O aipo em pedaços pequenos. Cada coisa na tábua, cada coisa no lugar, um movimento atrás do outro porque era isso que se fazia quando não se sabia mais o que fazer — continuava. Colocava a panela no fogo, botava um fio de azeite, jogava a cebola para refogar e esperava o cheiro mudar. Foi nesse momento, enquanto a cebola começava a crepitar, que a memória veio. Não pediu licença. Simplesmente apareceu, como as memórias ruins sempre aparecem, nos momentos em que as mãos estão ocupadas e a cabeça não tem como fugir. O dia do casamento tinha sido uma manhã de céu limpo. Ela lembrava do céu porque havia ficado olhando para ele pela janela do carro enquanto iam para a igreja, pensando que era um bom sinal, que dias assim eram dias de começo. O vestido era simples, como ela havia querido, sem cauda, sem muito bordado. Ela havia achado bonito até o momento em que parou de ser relevante. Ele não veio. Não houve explicação naquele dia. Veio depois, por mensagem, três dias depois, e Liv não a releu nenhuma vez porque relembrar a frase inteira era mais do que conseguia carregar. Ficou só o essencial, a substância bruta do que havia acontecido: foi deixada. No altar, na frente de cada pessoa que ela conhecia, com o buquê na mão e o céu limpo lá fora. Dois meses depois o pai teve o infarto. Ela estava na casa dele quando aconteceu. Tinham jantado juntos — ele havia feito aquela sopa de legumes que fazia desde que ela era criança, a mesma receita de sempre — e depois ele sentou na poltrona e disse que estava cansado. Liv foi lavar a louça. Quando voltou, ele estava quieto demais. O hospital. Os corredores. A espera que é o pior tipo de espera porque você já sabe a resposta antes de ela chegar. O médico que veio com passos lentos e expressão preparada. Seis meses. Seis meses haviam separado a Liv que havia planejado um casamento da Liv que estava agora cortando cenoura para sopa numa cozinha pequena com o irmão na sala e a avó no sofá e o celular com a tela virada para baixo porque a foto doía demais para continuar olhando. A sopa ficou pronta em silêncio. Liv serviu três tigelas, chamou Miguel e Dona Carmem e os três se sentaram à mesa pequena da cozinha que mal cabia os três. Miguel falou sobre um desenho que tinha visto, uma coisa de robôs, e Dona Carmem fez perguntas com interesse genuíno, aquele interesse que as pessoas mais velhas às vezes têm pelas histórias dos mais novos, como se soubessem que elas valem mais do que parecem. Liv comeu devagar e respondeu quando perguntaram e deixou o barulho dos outros dois preencher o que ela não tinha como preencher sozinha. Depois do jantar levou Miguel para o quarto. Ele pediu água, pediu que ela deixasse a porta entreaberta, pediu mais uma coisa que ela já não lembrava quando ele adormeceu. Ela ficou parada na soleira por um momento, olhando a respiração dele subir e descer no escuro, aquele ritmo manso e regular que é o contrário de tudo que é difícil. No próprio quarto, Liv se deitou sem trocar de roupa. Ficou de lado, olhando para a parede. A franja caiu sobre o rosto e ela não a afastou. Lá fora a rua continuava quieta. E a noite, como todas as noites, não perguntou se ela estava pronta antes de chegar.






