Abandonada no altar, escolhida pelo CEO.
Abandonada no altar, escolhida pelo CEO.
Por: Layane P Santos
Capítulo Um - Recomeços

O cheiro de café recém-passado era uma das poucas coisas capazes de trazer conforto para Olivia Carter.

Naquela pequena casa de paredes claras, onde o reboco já começava a se soltar nos cantos e o telhado antigo cantava quando o vento batia forte, o aroma se espalhava pela cozinha como um abraço que ninguém mais lhe oferecia.

Olivia estava parada diante do fogão, mexendo distraidamente uma panela de aveia enquanto observava a chuva fina descer pelo vidro embaçado da janela. Monterrey costumava ser quente naquela época do ano. Mas naquela manhã o céu havia esquecido disso.

Cinza. Silencioso. Vazio.

Exatamente como ela.

Fazia seis meses desde o casamento.

Seis meses desde que Ethan fugira com Sophie — sua melhor amiga, sua dama de honra, a mulher que segurava o buquê enquanto destruía tudo. Seis meses desde que a vida de Olivia desmoronara diante de centenas de convidados com roupas bonitas e expressões horrororizadas.

Às vezes parecia ter acontecido ontem. Outras vezes parecia ter sido em outra vida. Em outra versão dela — aquela que ainda acreditava que as coisas boas não terminavam sem aviso.

— Liv?

A voz infantil cortou o silêncio.

Ela virou-se imediatamente.

Miguel apareceu na porta da cozinha com o pijama azul já gasto nos joelhos e os cabelos castanhos apontando para direções improváveis. Dez anos. Os olhos escuros percorriam o ambiente com aquela cautela nova que doía de ver — um movimento lento, calculado, como se ele precisasse mapear o espaço antes de se mover por ele.

Olivia sorriu. Um sorriso verdadeiro, desses que surgiam antes que ela tivesse tempo de decidir.

Porque Miguel era, talvez, a única coisa no mundo capaz de fazer isso.

— Bom dia, campeão.

— Está chovendo? — Ele inclinou a cabeça, ouvindo.

— Um pouquinho.

— Eu ouvi, mas queria ter certeza.

O coração de Olivia apertou sem avisar. Nos últimos meses, Miguel vinha se guiando cada vez mais pelos sons. Pelos cheiros. Pelas vozes. Porque a visão dele estava piorando — devagar, teimosamente, sem dar trégua.

Os médicos chamavam aquilo de retinite pigmentar. Um nome complicado para uma realidade cruel demais para caber em qualquer nome.

A cada consulta, Miguel enxergava um pouco menos. E ninguém sabia quando viria o fim daquele processo. Só sabiam que viria.

— Consegue ver a chuva? — perguntou ela com cuidado, medindo cada palavra.

Miguel hesitou. Apenas um segundo. Mas Olivia aprendera a ler nesses segundos.

— Mais ou menos.

Ela forçou o sorriso a continuar no lugar.

— Então eu descrevo.

Os olhos dele acenderam.

— Sério?

— Claro. Senta aqui.

Ele se acomodou na cadeira de sempre, encostando os cotovelos na mesa desgastada, e esperou — com aquela paciência que as crianças não deveriam precisar ter.

— O céu está cheio de nuvens grandes e cinzentas, daquelas bem fofas, sabe? As árvores estão balançando de leve. — Ela olhou pela janela. — E tem um passarinho tentando se esconder da chuva naquele galho torto do vizinho.

— Como ele é?

— Pequeno. Meio encolhidinho.

— Qual a cor?

Olivia engoliu em seco.

— Amarelo.

Miguel fechou os olhos. Os lábios se apertaram levemente, como se ele estivesse fazendo alguma coisa importante por dentro — guardando a imagem, talvez. Pintando-a na memória antes que a memória fosse tudo o que sobrava.

Olivia desviou o olhar para a panela.

Porque havia momentos em que a dor era grande demais para ter para onde ir.

— O café está pronto?

A voz da avó surgiu antes dos passos.

Dona Carmen entrou na cozinha apoiando-se na bengala com a autoridade de quem sabe que a casa só funciona porque ela ainda está de pé. Aos setenta e cinco anos, com o cabelo branco preso em um coque frouxo e os olhos que não perdiam nada, ela continuava sendo a fortaleza daquelas paredes.

Depois que os pais de Olivia morreram — um acidente numa estrada molhada, uma curva, um segundo — foi Carmen quem ficou. Quem criou os netos. Quem pagou as contas quando mal havia dinheiro para pagar. Quem nunca, em momento algum, deixou que a casa virasse uma ruína por dentro.

— Está sim, vovó.

— Graças a Deus. — Ela se sentou com o cuidado de quem sabe o valor dos ossos. — Porque sem café eu não sou responsável por mim.

— Nem eu — disse Miguel.

Carmen ergueu uma sobrancelha.

— Você tem dez anos.

— Mas gosto de café.

— Isso explica porque você não para quieto nem dormindo.

Os três riram.

E por alguns minutos — só alguns — parecia uma manhã comum. Uma família qualquer. Sem dívidas acumuladas na gaveta. Sem exames marcados para a semana seguinte. Sem corações que ainda doíam em lugares que pareciam ter cicatrizado.

Mas a realidade sempre encontrava o caminho de volta.

Olivia abriu a geladeira. Ficou parada na frente dela por um instante, como se esperasse que algo tivesse mudado desde a última vez.

Não havia mudado.

Leite. Três ovos. Um pedaço de queijo que estava chegando no fim. Nada mais.

Seu salário na padaria cobria o básico — às vezes. As consultas de Miguel consumiam o que sobrava. Os remédios vinham depois. Os exames depois dos remédios. E as contas atrasadas esperavam pacientemente na fila, crescendo a cada mês com juros que ela já havia parado de calcular porque calculá-los não ajudava em nada.

*Preciso encontrar algo melhor.* O pensamento era tão antigo que já tinha textura. *Preciso.*

Uma batida na porta.

— Eu atendo! — Miguel já estava de pé.

— Devagar nas cadeiras!

Mas ele já havia sumido pelo corredor com aquela agilidade que desafiava qualquer coisa que os médicos pudessem dizer.

Olivia o seguiu.

Na soleira estava Ofélia — cinquenta anos, cabelos entre o castanho e o grisalho, sorriso do tipo que não precisa de esforço. Morava na casa ao lado havia mais de vinte anos e conhecia cada pessoa da rua pelo nome, pelo problema e pelo prato favorito. Desde que os pais de Olivia morreram, tornara-se uma espécie de presença permanente — não por obrigação, mas porque era o tipo de pessoa que ficava.

— Bom dia, meus amores.

Miguel abriu os braços antes mesmo que ela terminasse a frase.

Ela trouxe pão doce. Carmen declarou que era um anjo. Ofélia concordou sem falsa modéstia.

Logo estavam os quatro à mesa, com o café fumegando e a chuva batendo baixinho lá fora, e por um tempo a conversa foi sobre assuntos que não pesavam. Até que Ofélia pousou a xícara e olhou para Olivia com aquela expressão de quem guarda uma coisa boa para o momento certo.

— Tem uma vaga aberta onde eu trabalho.

Olivia ergueu os olhos.

— Assistente executiva. — Ofélia falou devagar, como se estivesse servindo algo quente. — A anterior pediu demissão.

— Fugiu — corrigiu Carmen.

— Um pouco dos dois.

— O chefe é bravo? — quis saber Miguel.

— Segundo a lenda, sim.

— Que lenda?

— A de que ninguém dura muito tempo trabalhando diretamente para ele.

Olivia sentiu algo se mover dentro dela. Pequeno. Quase suspeito.

— Que empresa é essa?

— Grupo King.

O nome não precisava de explicação. Em Monterrey — em qualquer lugar do México — os King eram daquelas coisas que todo mundo conhecia sem ter escolhido conhecer. Família antiga, dinheiro mais antigo ainda. Empresas, hotéis, construtoras, investimentos. O tipo de sobrenome que aparecia em placas e em jornais e em conversas que as pessoas tinham sobre pessoas que nunca iriam conhecer.

— Você trabalha para os King?

— Sou telefonista lá há quinze anos. — Ofélia disse isso com uma dignidade tranquila. — A vaga é para trabalhar diretamente com o Sr. Alexander King. O CEO.

— Eu não tenho experiência como assistente executiva.

— Tem experiência administrativa.

— Pouca.

— E inteligência de sobra.

Olivia baixou os olhos. Fazia tempo — quanto tempo? — desde que alguém falara dela assim. Não com pena. Não com aquele cuidado excessivo que as pessoas usavam desde o casamento que não aconteceu. Mas como alguém *capaz*. Como alguém com futuro.

— Eu não sei, Ofélia.

— Tem currículo?

— Tenho.

— Então me entrega.

— Assim?

— Assim. Eu levo para o recrutamento hoje mesmo.

Olivia ficou em silêncio. Pensou nas chances. Pensou nas dezenas de candidatas com experiência de verdade, com MBA, com referências de outros CEOs difíceis. Pensou em como seria mais uma decepção chegar até ela.

Depois olhou para Miguel.

Ele estava tentando separar as passas do pão doce — uma tarefa séria, executada com concentração total, a língua levemente para fora. Dez anos. Ainda capaz de encontrar drama numa uva-passa.

Olivia pensou nos exames marcados. Nos que ainda viriam. No tratamento que o médico havia mencionado — caro, experimental, mas com resultados. Nos tratamentos que ela havia prometido para si mesma encontrar um jeito de pagar, sem saber ainda qual jeito seria esse.

O que ela tinha a perder?

— O currículo está no meu quarto.

Ofélia sorriu — devagar, como quem já sabia que seria assim.

— Então vai buscar.

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