CAPÍTULO 2 - Seis meses antes…

O som do órgão soava como um réquiem, não uma marcha nupcial.

Olivia estava parada na entrada da igreja, as mãos envoltas em renda branca tremendo tanto que o buquê de orquídeas parecia pesar toneladas. Atrás dela, o murmúrio dos convidados era um ruído distante; à sua frente, o caminho até o altar se estendia como uma passarela para o cadafalso.

— Pronta? — seu pai sussurrou, apertando seu braço. A voz trazia aquele orgulho paterno que, ela mal sabia, seria a primeira coisa a ser estraçalhada naquele dia.

— Mais do que nunca — ela mentiu.

As portas de carvalho se abriram. A luz dourada da manhã atingiu o altar, revelando a poltrona vazia onde Ethan deveria estar. Onde ele tinha que estar.

O primeiro passo foi hesitante. O segundo, uma negação.

Ele está no banheiro, pensou. Esqueceu as alianças no carro. Está tendo um ataque de nervos.

Mas à medida que avançava pelo corredor, o silêncio da igreja começou a engolir a música. O padre consultava o relógio com uma sobrancelha arqueada. O organizador do casamento, antes impecável, sussurrava freneticamente no rádio com o rosto desprovido de cor.

E então o detalhe que estilhaçou tudo: Sophie, sua madrinha, sua confidente — a pessoa que deveria estar na primeira fila segurando seu lenço — não estava lá.

Um zumbido agudo começou a subir pelo ouvido de Olivia. O mundo ficou cinzento, as cores da decoração perdendo o brilho uma a uma. Quando o celular, escondido sob as dobras da saia, vibrou contra sua coxa, o tempo parou.

Ethan.

Ela abriu a mensagem com os dedos entorpecidos. Não havia introdução. Nenhuma desculpa polida.

"Não consigo. Eu amo outra pessoa. Sinto muito."

Abaixo, uma imagem carregou devagar — como se o próprio telefone hesitasse em mostrar.

Não foi a dor que a atingiu primeiro. Foi o vácuo. O estômago despencando no chão de pedra da igreja. Na tela: o aeroporto. Ethan sem o terno, com a mala na mão, beijando a testa de Sophie enquanto ela ria — o tipo de riso que Olivia achava que a amiga reservava só para ela.

Ela era o cenário de um filme que eles tinham acabado de cancelar.

Os murmúrios dos convidados se transformaram em estrondo. Um oceano de olhares — pena, choque, uma ou outra crueldade disfarçada de compaixão. Duzentas pessoas testemunhando a mulher mais ingênua da cidade, vestida de branco, sendo descartada como um rascunho mal feito.

Não houve grito. Não houve drama cinematográfico. Apenas a consciência gélida de que quatro anos de vida tinham sido apagados em uma conexão de internet.

Olivia virou-se. Caminhou de volta pelo corredor com os passos medidos que podia — nem rápidos demais, nem lentos demais. Não deu a ninguém o prazer de vê-la desmoronar. Empurrou as portas de carvalho com as duas mãos. Saiu para a luz do dia, que tinha a insolência de continuar bonita.

E ali, no degrau da igreja com o buquê ainda na mão e o vestido arrastando no cimento, jurou sobre as ruínas da própria dignidade que aquilo seria a última vez.

O último homem. A última traição. O último coração partido.

Fossos profundos. Muros altos. Ninguém mais entraria.

— Liv.

A voz chegou de longe, atravessando camadas.

— Liv.

Olivia piscou.

A cozinha voltou aos poucos — o cheiro de café, a luz cinzenta da janela, a toalha de mesa xadrez que Carmen se recusava a aposentar. Ofélia já havia ido embora. Miguel havia sumido provavelmente para o quarto. Só a avó estava ali, sentada do outro lado da mesa, observando-a com aqueles olhos que não precisavam perguntar para saber.

— Você foi embora de novo — disse Carmen.

Não era uma acusação. Era apenas uma constatação, dita com a calma de quem já viu a neta partir e voltar muitas vezes sem sair do lugar.

— Estava pensando — respondeu Olivia.

— Eu sei onde.

Olivia não negou. Olhou para o envelope com o currículo que ainda estava sobre a mesa — Ofélia havia esquecido de levar ou deixado de propósito, ela não tinha certeza. Passou o dedo pela borda do papel.

— Você acha que tenho alguma chance? — perguntou. — Numa empresa daquele tamanho.

Carmen ficou em silêncio por um momento. Girou a xícara entre os dedos, pensativa.

— Acho que você tem mais chance do que imagina e menos coragem do que precisa.

Olivia ergueu os olhos.

— Isso foi gentil, vovó.

— Nunca fui gentil. Fui honesta. — A velha a encarou sem piscar. — Você passou seis meses se convencendo de que não merecia mais nada bom. Como se o que o Ethan fez dissesse alguma coisa sobre quem você é.

— Não é isso.

— É exatamente isso.

O silêncio entre elas tinha peso.

— Ele era covarde — continuou Carmen, com aquela voz tranquila que não precisava se elevar para ocupar o espaço. — E ela era traidora. E os dois merecem um ao outro, cada centímetro. Mas você ficou carregando a culpa dos dois como se fosse sua. — Fez uma pausa. — E não é, Olivia.

Olivia olhou para a janela. A chuva havia parado. As árvores ainda pingavam, mas o céu começava a clarear em algum ponto distante, atrás das nuvens.

— Miguel precisa do tratamento — disse ela por fim. Não como resposta, mas como a coisa real que estava debaixo de tudo.

— Eu sei.

— O que eu ganho na padaria não cobre. Não vai cobrir nunca.

— Eu sei disso também.

— Então não é sobre mim — disse Olivia, e havia algo quase teimoso na voz. — É sobre ele.

Carmen pousou a xícara com cuidado.

— Pode ser sobre os dois ao mesmo tempo, minha filha.

Olivia ficou olhando para o envelope.

Grupo King. Alexander King. O CEO que ninguém aguentava por muito tempo. Uma vaga que provavelmente tinha outras cinquenta candidatas mais qualificadas esperando na fila. Um salto que ela não tinha nenhuma garantia de conseguir dar.

Levantou-se. Pegou o envelope.

— Vou levar pessoalmente — disse.

Carmen não sorriu. Apenas assentiu, com aquela sobriedade de quem sabe que algumas decisões merecem silêncio.

Olivia foi até o quarto. Trocou o moletom por uma blusa simples e a calça jeans menos desgastada que tinha. Escovou o cabelo. Olhou para o espelho por um segundo — não para se examinar, mas para se lembrar de que ainda estava ali. Inteira. Ou pelo menos suficientemente inteira.

Pegou a bolsa.

Passou pela porta do quarto de Miguel. Ele estava deitado de bruços na cama com um livro infantil em braille aberto na frente, os dedos percorrendo as linhas com uma concentração séria.

— Vou sair um pouco — disse ela na soleira.

Ele levantou a cabeça.

— Vai conseguir, Liv.

Ela piscou.

— Você nem sabe onde eu vou.

— Sei sim. — Ele voltou para o livro com a naturalidade de dez anos. — A Dona Ofélia falou antes de ir embora.

Olivia ficou parada um instante. Depois respirou fundo.

— Cuida da vovó.

— Sempre.

Ela desceu o corredor, abriu a porta da frente e saiu para a rua ainda molhada. O ar cheirava a terra úmida e a começo de coisa nova — ou talvez ela estivesse precisando demais que cheirasse a isso.

Não importava.

Ela estava indo.

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