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Capítulo Cinco — A roupa que ela tinha

Uma semana é pouco tempo para muita coisa e tempo demais para ficar esperando. Liv havia aprendido isso naqueles sete dias que passaram com a lentidão específica das esperas que não têm data certa para terminar. Ela havia lavado a louça com mais cuidado do que o necessário, havia reorganizado a gaveta de roupas de Miguel duas vezes, havia relido a mesma página de um livro que estava na mesinha de cabeceira sem conseguir lembrar de uma linha quando chegava ao fim.

Toda vez que o celular tocava ela olhava para a tela com o estômago um passo à frente do resto do corpo.

Na manhã da quinta-feira ele tocou de novo, e dessa vez era um número que ela não tinha salvo. Liv ficou um segundo olhando para a tela, para aquela sequência estranha de dígitos que não dizia nada e ao mesmo tempo podia dizer tudo. Atendeu antes do terceiro toque.

— Alô?

— Boa tarde. Posso falar com Olivia? — A voz do outro lado era bonita de um jeito que Liv notou antes mesmo de processar o que estava sendo dito. Uma voz baixa e bem articulada, do tipo que parece ter sido feita para dar boas notícias e más com a mesma elegância.

— É ela — disse Liv. Ela própria. Corrigiu mentalmente: *sou eu*. Mas não disse em voz alta.

— Aqui é Laura, do departamento de recursos humanos. Estou ligando para informar que o seu currículo foi selecionado para uma entrevista presencial. Você teria disponibilidade para comparecer amanhã às nove horas da manhã em nossa unidade?

Liv abriu a boca. Fechou. Abriu de novo.

— Sim — disse ela. — Tenho, sim. Com certeza.

— Ótimo. — Liv conseguia ouvir o sorriso na voz de Laura sem precisar vê-la. — Só para te informar que você estará concorrendo com mais quatro candidatas. A entrevista vai ser conduzida pela nossa gerente de RH e deve durar em torno de quarenta minutos. Qualquer dúvida pode entrar em contato por esse mesmo número.

— Entendido. Muito obrigada, Laura.

— Até amanhã, Olivia. Boa tarde.

A ligação caiu e Liv ficou parada no corredor com o celular pressionado contra o peito, como se precisasse segurar a notícia para ela não escapar antes que tivesse tempo de acreditar nela. O coração batia num ritmo apressado e descoordenado que ela não tentou controlar.

— Vovó! — A voz saiu mais alta do que pretendia. Ela foi até a sala quase correndo, encontrou Dona Carmem na poltrona com o tricô no colo e os óculos escorregados para a ponta do nariz, como sempre. — Vovó, selecionaram meu currículo. Amanhã de manhã eu tenho entrevista, às nove horas, no prédio.

Dona Carmem baixou o tricô devagar e olhou para Liv por cima dos óculos com aquela expressão que usava quando estava avaliando se uma coisa era boa o suficiente para ela se levantar. Decidiu que era. Colocou o tricô na almofada do lado, tirou os óculos, dobrou com cuidado e os deixou sobre a mesinha.

— Vem cá — disse ela.

Liv foi. A avó segurou as duas mãos dela e as apertou com uma força que surpreendia sempre, aquela força de mão velha que carregou muita coisa pela vida e não esqueceu como se faz.

— Você vai muito bem — disse Dona Carmem. Não era encorajamento. Era afirmação, do jeito que ela costumava fazer, como se o futuro fosse uma coisa que ela já tinha visto e estava só contando o que havia lá.

Liv apertou as mãos dela de volta e foi para o quarto.

O guarda-roupa era pequeno, de duas portas, uma delas que não fechava direito desde que ela havia se mudado e que ela havia aprendido a deixar entreaberta para não brigar com ela toda vez. Liv abriu os dois lados e ficou parada na frente como havia ficado parada na frente da geladeira na semana anterior — esperando que a resposta aparecesse sozinha.

O guarda-roupa não era exatamente generoso em opções para entrevista de emprego. Havia uma blusa florida que era bonita mas parecia festa, dois moletons, camisas de malha, um vestido de verão que não combinava com a estação. E então, pendurada num canto mais ao fundo, um pouco espremida entre um casaco de inverno e um cardigan bege, ela encontrou a camisa branca.

Era uma camisa social de algodão, de manga comprida, que havia comprado há uns três anos para uma formatura. Ela tirou do cabide e examinou. Branca, sim, limpa, passável — mas faltava um botão. O segundo de cima, bem no lugar onde uma gola aberta ficaria elegante ou uma gola aberta demais ficaria desleixada, dependendo de como a pessoa olhasse. Liv passou o dedo pelo buraquinho onde o botão havia estado e fez um cálculo rápido sobre o que tinha e o que não tinha.

A calça social preta estava dobrada na prateleira de baixo. Ela a desenrolou e a esticou com as duas mãos, examinando. Preta, sim. Social, tecnicamente. Mas o tecido estava gasto na altura dos joelhos de um jeito que o olho treinado notaria, aquele brilho opaco que o tecido adquire quando foi lavado muitas vezes e passado muitas vezes e dobrado muitas vezes e nunca substituído porque nunca havia dinheiro para substituir.

O blazer estava no último cabide. Preto também, de um preto um pouco diferente do preto da calça, o que era um problema pequeno mas era um problema. O forro estava levemente puído no punho direito e havia uma marca quase invisível na lapela, do tipo que só some com lavagem a seco. Liv não se lembrava da última vez que havia levado roupa para lavagem a seco.

Ela colocou tudo na cama e ficou olhando para o conjunto.

Camisa branca sem botão. Calça preta gasta. Blazer preto velho com forro puído.

Era aquilo. Era o que havia. Era o que ela iria usar.

Liv ficou mais um momento parada e então tomou uma decisão prática do tipo que se toma quando se sabe que lamentar não adianta: foi até a caixinha de costura que a avó guardava na gaveta do corredor — uma lata de biscoito reconvertida, cheia de linhas enroladas em carretéis pequenos de cores variadas — e procurou um botão branco. Havia três parecidos, nenhum igual, e ela escolheu o que mais se aproximava e costurou ali mesmo, sentada na beirada da cama, com a linha passando pelo tecido num movimento que o pai havia ensinado junto com o corte da cebola, junto com tudo que ensinou antes de partir.

O botão ficou um pouco torto mas ficou.

Depois ela pendurou a roupa toda na porta do guarda-roupa para não amassar, foi ao banheiro, lavou o rosto e olhou para si mesma no espelho por um tempo que não era vaidade — era só tentativa de se reconhecer, de encontrar no rosto que olhava de volta alguma coisa que parecesse firme.

A franja havia crescido um pouco e cobria quase inteira a sobrancelha. Ela a afastou com dois dedos, olhou para os próprios olhos castanhos, e depois a deixou cair de volta no lugar.

Apagou a luz e foi dormir cedo, porque às nove da manhã o mundo não esperaria e ela precisava estar de pé antes dele.

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