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Capítulo Três — O envelope pardo

O ônibus chegou lotado, como sempre chegam os ônibus nas manhãs de quarta-feira. Liv entrou pela porta traseira espremendo-se entre um senhor de terno surrado e uma mulher que segurava duas sacolas de mercado e um guarda-chuva fechado como se fosse uma lança. Ela abraçou o envelope pardo contra o peito, protegendo-o do amontoado de corpos e do calor úmido que se formava ali dentro.

Eram quarenta minutos de viagem. Liv ficou de pé a maior parte do tempo, segurando a alça de metal com uma das mãos e com a outra pressionando o envelope contra si. Ela havia dobrado o currículo com cuidado na noite anterior — três vezes, de modo que coubesse, mas depois decidiu que não deveria dobrar, que dobrar transmitia desleixo, e então passou a ferro uma folha A4 sem querer e teve que reimprimir tudo. Eram onze horas da noite quando por fim colocou o documento intacto dentro do envelope. Na mesma hora havia pensado em mandar mensagem para Ofélia, sua vizinha, contar que estava pronto. Mas era tarde e Ofélia acordava cedo.

Ofélia havia sido clara na tarde de domingo, ali na porta do apartamento dela, com o cheiro de almoço ainda no corredor: *deixa comigo, Liv, na segunda-feira eu já entrego pro pessoal do RH, conheço todo mundo lá*. Tinha dito isso com a segurança tranquila de quem passa vinte e três anos no mesmo emprego e sabe exatamente como as coisas funcionam. Telefonista da empresa há mais tempo do que a maioria dos funcionários de lá existia. Conhecia os nomes das secretárias, os aniversários dos seguranças, os apelidos que o pessoal do café usava entre si.

Mas segunda-feira havia passado, e terça também, e Liv não conseguia dormir direito. Ficava calculando: *quantos currículos já chegaram? Quantas pessoas já agendaram entrevista? E se já tiverem escolhido alguém?* Na quarta de manhã ela acordou antes do alarme, olhou para o envelope em cima da escrivaninha e tomou uma decisão que, no fundo, sabia que não era bem uma decisão — era ansiedade com roupa de iniciativa.

Não avisou Ofélia. Pegou o envelope e saiu.

O ônibus a deixou num ponto no meio de uma avenida larga, de asfalto reluzente. Dos dois lados, arranha-céus comerciais se erguiam em fileiras, todos com fachadas de vidro espelhado que devolviam o céu cinza da manhã em tonalidades de prata e azul escuro. As calçadas eram largas e havia árvores plantadas em intervalos regulares, mas as árvores pareciam decorativas, como se alguém tivesse decidido que uma avenida assim precisava de verde sem realmente acreditar nisso.

Liv andou dois quarteirões consultando o endereço que havia anotado num papel dobrado no bolso da calça. Achou o número certo numa torre com um saguão visível do lado de fora através de uma parede inteira de vidro — poltronas estofadas em cinza, um jardim vertical artificial na parede do fundo e, ao centro, um balcão comprido de mármore branco onde uma moça jovem digitava com expressão concentrada.

A porta giratória a engoliu e a cuspiu do outro lado em silêncio climatizado.

A moça no balcão tinha vinte e poucos anos, unhas compridas pintadas de nude e um headset pousado sobre o cabelo como uma coroa. Ela olhou para Liv com a polidez treinada de quem atende centenas de pessoas por dia sem se lembrar de nenhuma.

— Bom dia, em que posso ajudar?

— Bom dia — disse Liv, e percebeu que a voz saiu mais baixa do que pretendia. Ela pigarreou. — Eu vim entregar um currículo. Vi que vocês estão com uma vaga aberta para assistente administrativa.

A moça inclinou levemente a cabeça.

— A senhora tem horário agendado?

— Não, eu... não sabia que precisava agendar. Pensei que pudesse entregar diretamente.

— Infelizmente, sem agendamento prévio, não consigo encaminhar para o setor responsável. O sistema não permite. A senhora pode acessar o site e agendar para a semana que vem, a partir de terça.

Liv apertou o envelope. A semana que vem parecia um país estrangeiro.

— Entendo. Mas não teria como eu deixar aqui, só o envelope, e alguém do RH —

— Senhora, sem agendamento o envelope não pode ser recebido oficialmente. Lamento.

Liv ficou parada um momento. Não era raiva o que sentia — era algo mais antigo, aquela sensação de ter chegado tarde para uma festa que não sabia que havia começado. Ela estava prestes a agradecer e ir embora quando ouviu o som do elevador se abrindo do lado esquerdo do saguão.

Saiu de lá uma mulher de uns cinquenta anos, cabelo grisalho cortado curto e bem cuidado, jaleco bege pendurado no braço e uma bolsa grande de couro desbotado que Liv reconheceria em qualquer lugar. Ofélia. A mesma Ofélia que mora no apartamento 47, que b**e na parede às dez da noite quando a televisão de Liv está alta demais, que deixa goiabada na porta no dia do aniversário de todo mundo no corredor.

Ofélia estava conversando com uma funcionária enquanto saía do elevador, rindo de alguma coisa, mas quando seus olhos varreram o saguão e encontraram Liv parada diante do balcão com o envelope pardo nas mãos, ela parou no meio da frase.

Por um segundo as duas se olharam.

Ofélia se despediu da colega com um tapinha no braço e atravessou o saguão com aquela passada firme e um pouco cansada que Liv conhecia do corredor do prédio. Cumprimentou a atendente pelo nome — *obrigada, Fernanda* — e puxou Liv pelo cotovelo, afastando-a do balcão com a autoridade calma de quem não precisa levantar a voz para ser obedecida.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou Ofélia em voz baixa.

— Eu vim entregar o currículo — disse Liv. A resposta soou mais fraca do que pretendia.

— Eu sei que você veio entregar o currículo. — Ofélia olhou para o envelope, depois para o rosto de Liv, e fez aquela expressão que as pessoas fazem quando entendem uma coisa sem precisar que ninguém explique. — Liv.

— Eu fiquei ansiosa — disse Liv. — Precisava muito dessa vaga, Ofélia, e ficava pensando que talvez já tivessem escolhido alguém, que talvez o prazo tivesse encerrado, que —

— O prazo encerra sexta — disse Ofélia. — Eu te falei que entregaria.

— Eu sei.

— Na segunda eu já tinha falado com a Zara do RH.

Liv fechou os olhos por um segundo. — Você já tinha falado?

— Já tinha falado. — Ofélia suspirou, mas não era um suspiro de irritação. Era o suspiro de alguém que reconhece num outro uma angústia que já sentiu. Ela colocou a mão no ombro de Liv por um momento breve, quase imperceptível. — Vem, preciso de café. O daqui de cima é horroroso.

Do lado de fora, viraram à direita e andaram menos de cinquenta metros até uma cafeteria pequena espremida entre dois escritórios. Era quente lá dentro e cheirava a pão e a café coado, o tipo de cheiro que faz o corpo relaxar antes mesmo de a mente decidir se quer.

Ofélia acenou para duas mulheres sentadas numa mesa junto à janela. Uma delas, de cabelo vermelho cortado na altura do queixo, acenou de volta com entusiasmo. A outra, mais quieta, de óculos redondos e blusa listrada, levantou a mão num gesto contido.

— Zara e Belinda — disse Ofélia. — Zara, essa é a Liv, minha vizinha. A moça do currículo que te falei.

Zara sorriu e estendeu a mão já antes de Liv sentar. — Ah, então é você. A Ofélia ficou me enchendo o ouvido com você semana passada.

Liv olhou para Ofélia, que estava pedindo café no balcão fingindo não ter ouvido.

— Ela ficou? — disse Liv.

— Falou que você é esforçada e que a empresa ia se arrepender se não chamasse. — Zara apontou para o envelope. — Me dá isso aqui.

Liv entregou. Sentiu as mãos ficarem vazias de um jeito que era ao mesmo tempo aliviante e estranho.

— A seleção começa semana que vem — disse Zara, guardando o envelope na bolsa. — Seu currículo vai estar junto com os outros. Ninguém precisa saber que você não agendou pelo sistema.

Ofélia voltou com duas xícaras e se sentou ao lado de Liv com o ar satisfeito de quem resolveu um problema que ainda não havia se tornado um problema de verdade.

— Obrigada — disse Liv. A palavra saiu pequena demais para o que ela queria dizer.

— Para de agradecer e toma o café — disse Ofélia. Mas havia um sorriso no canto da boca, o tipo que ela usava quando não queria que ninguém visse. — Nessa vida, Liv, tudo se dá um jeito. Sempre.

Do lado de fora, a avenida continuava larga e espelhada e indiferente. Mas lá dentro a cafeteria cheirava a café coado, e o envelope pardo havia finalmente chegado onde precisava chegar — pelas mãos certas, do jeito certo, ainda que por um caminho torto.

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