O calor me acordou antes do sol bater na fresta da janela de grade. Não era o bafo abafado do cedro. Não era o mormaço sujo da selva. Era uma brasa viva acesa bem no meio do meu peito, um palmo abaixo do osso da garganta. Sentei no colchão num solavanco, puxando o ar pela boca. A blusa de algodão tava colada nas costas. Esfreguei a mão no peito, apertando a carne com força, tentando achar o foco da febre. A pele por fora tava normal. O fogo queimava por dentro, sugando a umidade do meu corpo. Fiquei um instante parada. O gosto na boca era de ferrugem velha, como se eu tivesse dormido com um prego na língua. Joguei a fronha pro lado e tentei ficar de pé. A perna bambou. — Ótimo — murmurei, mais pra mim do que pra qualquer coisa viva naquele quarto. Fui arrastando o tênis pelo assoalho até a bacia de alumínio no canto. A água parada tinha gosto de lata e poeira só de olhar. Mergulhei as duas mãos ali dentro, levei pro rosto e pra nuca, jogando o frio de qualquer jeito, como
Leer más