A noite em São Paulo caiu com uma densidade incomum, como se o próprio ar estivesse saturado de eletricidade e presságios. Na mansão, o silêncio não era de paz, mas de contenção. Mariana estava em seu quarto, sentada diante da penteadeira, observando o próprio reflexo enquanto escovava os cabelos com movimentos lentos e mecânicos. No visor do relógio digital, os números brilhavam em um verde neon: faltavam exatamente quatro dias para o fim do prazo. O tempo, que antes parecia um rio caudaloso, agora era um conta-gotas torturante.Lá embaixo, o som abafado de música clássica vinha do escritório — uma escolha atípica de Enzo, que geralmente preferia o silêncio absoluto ou o som das notícias globais. Mariana sabia o que aquilo significava. Ele estava bebendo. Novamente. A paranoia que o consumira desde o retorno dela de Paris havia se transformado em um isolamento agressivo e perigoso. Ele não confiava mais nos próprios generais, não confiava nos relatórios e, acima de tudo, não confiava
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