Nos dias que se seguiram à partida dele, minha vida entrou num ritmo estranho, quase feliz, quase normal. Era como se eu tivesse encontrado um ponto de equilíbrio provisório, frágil, mas suficiente para me manter de pé. As horas passavam com uma cadência previsível, e isso, por si só, já me trazia algum alívio. As noites tinham sempre a voz dele. O telefone tocava no mesmo horário, com a precisão de um ritual silencioso, como se o mundo obedecesse àquela pequena regra que criamos juntos sem nunca nomeá-la. Eu esperava. Ele ligava. E, por alguns minutos, tudo parecia possível. A distância deixava de existir enquanto eu ouvia sua respiração do outro lado da linha. Às vezes ele falava pouco, outras vezes deixava que eu falasse quase sozinha, apenas ouvindo, interrompendo aqui e ali com um comentário breve, um riso baixo, uma frase que ficava comigo depois que a ligação terminava. Não eram conversas grandiosas. Falávamos do dia, do clima, de pequenas coisas que, vistas de fora, par
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