Nos dias que se seguiram à partida dele, minha vida entrou numa espécie de ritmo estranho — quase feliz, quase normal. As noites tinham sempre a voz dele. O telefone tocava no mesmo horário, como se o mundo obedecesse àquela pequena regra que criamos juntos. Eu esperava. Ele ligava. E, por alguns minutos, tudo parecia possível. Eu acordava com menos peso no peito. Comia melhor. Dormia melhor. Sorria sozinha enquanto caminhava pela cidade, como se carregasse um segredo bom demais para ser dito em voz alta. As pessoas não sabiam, mas eu sabia: alguém pensava em mim todos os dias. Alguém cuidava de mim mesmo estando longe. Ainda assim, meu corpo começou a falar antes que minha mente estivesse pronta para escutar. No começo, foi só um cansaço diferente. Um tipo de exaustão que não passava com o sono. Depois vieram os enjoos leves, quase tímidos, sempre pela manhã. Nada dramático. Nada que gritasse perigo. Eu atribuí tudo ao estresse, à mudança de rotina, à ausência dele. Era mais fá
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