Os dias na casa de Dona Lúcia passaram como um remédio amargo, mas necessário. A rotina era simples, pacífica. Acordar com o cheiro do café que a vizinha já tinha feito. Observar a vó, um pouco mais forte a cada dia, tomando seus remédios com uma careta que me fazia rir. A enfermeira do plano (pago por quem, eu nem queria pensar) vinha todos os dias, pontual como um relógio suíço. Ela verificava os pontos da vó, media sua pressão, anotava tudo com uma eficiência silenciosa.E, inevitavelmente, seus olhos se voltavam para mim.— E o pé, Elara? A dor melhorou? — ela perguntava, enquanto ajustava o esfigmomanômetro no braço frágil da vó.— Está ótimo — mentia, ou talvez não. Já no terceiro dia, a dor aguda tinha dado lugar a um incômodo surdo. A verdadeira tortura era a bota de gesso, pesada, quente, um alienígena grudado na minha perna.— Não force. O repouso é crucial. — Ela dizia, e eu acenava, sentindo o olhar dela pesar sobre mim, como se visse além do gesso, além da mentira. Será q
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