Júlia Cavalcante O silêncio do nosso apartamento nunca foi tão ensurdecedor. Olhar para as paredes brancas é como olhar para um espelho da minha própria alma: vazia, estéril e friamente organizada. Lian cumpriu o que eu pedi, ou melhor, ele aproveitou a deixa que eu, na minha agonia e covardia, ofereci em uma bandeja de prata. Ele sumiu. Não houve uma mensagem, não houve um "você está bem?", não houve sequer o rastro do seu perfume amadeirado que costumava impregnar cada pensamento meu. A alta do hospital foi a experiência mais solitária da minha vida. Fui escoltada por seguranças que me tratavam com a cortesia mecânica de quem protege uma carga valiosa, mas indesejada. Sabrina não pode me buscar, precisavam dela no trabalho. Eles me trouxeram para o meu antigo endereço, não para a cobertura onde, por breves e ilusórias semanas, eu achei que tinha encontrado um lar. O envelope que deixaram sobre a mesa da cozinha, um pacote grosso, pesado, contendo uma quantia que me daria uma vida
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