A cidade que recebeu Júlia tinha cheiro de começo. Não o tipo romântico, cinematográfico, mas aquele início real, áspero, que exige atenção. O hotel era funcional, impessoal, e o quarto parecia grande demais para alguém acostumada a dividir o espaço com outra respiração. Ainda assim, ela abriu a janela, deixou o ar entrar e se permitiu ficar ali, presente, sem tentar transformar tudo em casa no primeiro dia.Desfez a mala com calma. Colocou o caderno na mesa. Pendiu a camisa de Daniel no encosto da cadeira, não como ritual, mas como lembrança concreta de que aquele afastamento não era ruptura. Era trânsito.A primeira reunião do projeto foi intensa. Pessoas novas, ideias rápidas, cobranças diretas. Júlia sentiu o corpo reagir com aquele nervosismo bom, produtivo. Falou quando precisou falar. Escutou quando precisava aprender. No fim da tarde, saiu exausta e viva, como há muito tempo não se sentia.Quando voltou ao quarto, a saudade veio inteira. Não como lamento. Como calor no peito.
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