Mundo de ficçãoIniciar sessão"Dante"
O silêncio que se instalou no meu escritório após a saída estrondosa de Valentina Torres deveria ser bem vindo, mas era irritante. Eu olhei para os batentes de gesso da porta, agora ostentando duas marcas feias onde as maçanetas haviam batido. Sorri de lado, sentindo uma pontada de divertimento que eu não experimentava há anos. Aquela mulher era uma força da natureza. Seria um último ano de vida bem divertido com certeza.
Fechei os olhos e respirei fundo, puxando o ar devagar para forçar meus batimentos cardíacos a desacelerarem. Foco, Dante. Sem esforço físico. Sem fortes emoções. A ironia era palpável: um tumor no cérebro ameaçava me matar lentamente, mas o furacão de jaqueta de couro e curvas perigosas quase fez o trabalho de uma vez só.
A porta foi empurrada novamente, mas desta vez com uma suavidade irritante. Eu ergui os olhos e vi o Murilo entrar na sala, a sua postura exalava um deboche descarado. Ele segurava uma pasta de couro preta sob o braço e trazia um sorriso de orelha a orelha que cobria todo o seu rosto. Ele caminhou até as duas cadeiras de couro diante da minha mesa, mas antes de se sentar, olhou para o gesso rachado na parede e assobiou.
- Rapaz… - O Murilo soltou uma risada abafada, jogando-se na cadeira com a informalidade de quem me conhecia desde a época do colégio. - Essa daí sabe ser marcante! Me deixa adivinhar: Srta. Valentina Torres?
- Em carne, osso, língua afiada e muitas curvas. - Eu respondi.
- Imaginei. Eu percebi que ela era intensa pelas notificações judiciais que mandava para o jurídico... e as extra judiciais nada delicadas que mandava para você... mas ver a fera de perto é outro nível. Que mulher é essa, Montenegro?
Apoiei os cotovelos na mesa, cruzando os dedos e arqueando uma sobrancelha.
- Você a viu no corredor?
- No corredor? Dante, meu caro, eu fiz mais do que isso. Fui eu quem deu o mapa do tesouro para ela subir.
Eu congelei por um segundo, encarando o homem à minha frente com pura incredulidade. Supostamente ele deveria cuidar dos meus interesses.
- O que você disse?
- Exatamente o que você ouviu. - O Murilo ajeitou os óculos, os olhos brilhando com o mais puro divertimento. - Eu estava voltando de um compromisso externo, estava entrando no elevador privativo. Quando as portas iam fechando, uma morena curvilínea, linda de morrer e soltando faíscas pelos olhos, simplesmente deu um drible de mestre em um segurança que parecia um armário e se jogou para dentro do cubículo comigo. Ela mostrou o dedo do meio para os guardas antes das portas se fecharem. Ali, eu já fiquei fã.
- E você ajudou uma invasora a chegar à minha sala presidencial, Murilo? - Eu perguntei, a voz carregada de uma falsa rigidez refinada, enquanto o Murilo se contorcia de rir na cadeira a minha frente.
- Dante, você me ligou mais cedo dizendo textualmente: “Eu preciso de uma esposa que seja o completo oposto do que eles aceitam. Alguém que choque o sistema puritano deles.” - O Murilo imitou o meu tom de voz gélido, limpando uma lágrima no canto do olho de tanto rir. - Quando ela me disse, possessa da vida, que você queria tirar o sustento dela, a minha mente deu um estalo. Eu percebi na hora: o universo acabou de entregar o furacão que o Dante pediu de bandeja. Eu dei o caminho exato da sua sala, saí dois andares antes e ainda fingi um tropeço desajeitado para segurar os seguranças no andar de baixo. De nada, Montenegro.
Bati os dedos levemente contra a madeira da mesa, absorvendo a informação. Uma peça perfeita do destino. Mais uma.
- É, parece que o universo está me entregando muitas coisas de bandeja hoje. - Eu suspirei. - O plano seria perfeito, Murilo. Se ela não tivesse acabado de recusar a minha proposta, - Eu confessei, afrouxando ligeiramente o nó da minha gravata. - Eu ofereci pagar todo o tratamento da avó dela, comprar um estúdio três vezes maior na Vertente Sul e cobrir todos os custos. Em troca, pedi o casamento de conveniência e um herdeiro legítimo por fertilização in vitro.
O Murilo ergueu as sobrancelhas, surpreso.
- Você fez a proposta assim, direto, sem preambulos?
- Aquela encrenca dispensa preâmbulos. Ela não é o tipo de mulher que dá voltas, ela é direta e franca... e muito desbocada.
- E ela recusou a sua proposta? Uma dona de estúdio falido recusou uma fortuna dessas?
- Ela me chamou de idiota, louco e disse que filhos não são objetos descartáveis ou blocos de montar... qualquer coisa assim. Virou as costas e marchou em direção à saída.
O Murilo soltou um longo assobio, o sorriso cínico dando lugar a um olhar de profundo respeito.
- Caramba. Ela tem princípios. Isso é raro, especialmente na selva que é essa cidade. A sua madrasta Aurélia aceitaria matar metade da população por um décimo do que você ofereceu a essa garota. Agora eu entendo por que você ficou tão fascinado.
- Eu não estou fascinado. - Eu menti imediatamente, embora o perfume de amêndoa doce e cacau dela ainda estivesse nublando os meus pensamentos. - Estou sendo estratégico. Ela é a blindagem que eu preciso contra o Otto e a Aurélia. E eu vou conseguir esse contrato.
- Tá, faz de conta que eu acredito. E como pretende conseguir o contrato se ela acabou de sair batendo a porta? Ou eu devo dizer quase arrancando? - O Murilo apontou para os batentes rachados rindo e abriu a pasta de couro com a minuta do contrato de casamento sobre a mesa. - O tempo está correndo, Dante. Minha fonte confirmou que o Otto já está conversando com um juiz amigo dele para agilizar o processo de interdição assim que o laudo da sua doença vazar. Temos dias, talvez horas. Se eles entrarem com o processo antes de você estruturar a transição... eles assumem o controle até sobre o seu tratamento.
- Meu amigo não há tratamento. Eu preciso agir rápido, por isso você vai impedir que a Srta. Encrenca consiga atrasar a demolição, porque só quando ela perder o estúdio ela vai entender que não tem saída.
Olhei para o documento e depois para o relatório do estúdio de pole dance. Eu conhecia a psicologia humana. Eu fechava negócios milionários todos os dias. Valentina Torres era orgulhosa e feroz, mas tinha um ponto fraco que ela mesma havia escancarado na minha cara: a avó doente.
- Amanhã de manhã, os tratores das Indústrias Montenegro vão iniciar a demolição daquele quarteirão antigo. O estúdio dela vai virar poeira. - Eu declarei, a frieza retornando com força total à minha voz. - Ela vai voltar para casa sem renda e sem chão. O tio dela com certeza vai cumprir a ameaça de mandar a própria mãe idosa para um desses lugares para idosos sem nenhuma estrutura porque ela não terá o dinheiro do mês.
O Murilo me encarou, estreitando os olhos.
- Você vai esperar ela quebrar?
- Não. Eu vou cercar todas as saídas dela antes que ela caia. - Eu me levantei, caminhando até o vidro blindado e olhando para o fundo do vale. - Murilo, use a nossa equipe de segurança particular. Mande ficarem de olho. Eu quero saber cada passo daquela família. Eu quero uma investigação completa sobre eles e se a senhora for tirada de casa, eu quero saber para onde ela vai. Quero que você compre uma vaga na Residencial Premium para Idosos Vertentes Sereno, a clínica de repouso mais cara e luxuosa da cidade. Prepare uma ambulância particular de UTI para a transferência. E veja se descubra se a avó foi interditada e quem tem a curatela dela, mova céus e terras para transferir a curatela para a minha futura esposa.
- Dante, o que você vai fazer? - O Murilo pareceu preocupado.
- Vou fazer a Valentina perceber que a única corda de salvação no mundo inteiro está presa à minha mão.
Murilo sorriu de lado, fechando a pasta.
- Cruel, cirúrgico e brilhante. Vou preparar o que você me pediu agora mesmo.
- Faça isso. Amanhã, a Valentina Torres vai perceber que a minha oferta não é apenas um ótimo negócio. É a única escolha dela. E ela vai assinar esse contrato.







