Capítulo 8: O advogado do "diabo"

"Valentina"

O Aroldo realmente se esforçou para encontrar o pior lugar. O lugar era o próprio inferno na terra. Um prédio cinzento, com paredes descascadas pela umidade, janelas quebradas e um cheiro insuportável de desinfetante barato misturado com abandono. Idosos ficavam sentados em cadeiras de plástico no saguão, com olhares perdidos, tratados como carcaças esquecidas. A cada rosto entristecido que eu enfrentava, o meu coração se quebrava mais um pouco.

Eu parei na recepção e olhei para uma mulher de cabelos grisalhos e rosto sisudo. Ela me olhou por cima dos óculos e pediu meu documento de identidade. Eu apresentei e ela olhou uma lista no computador.

- Não, seu nome não está entre os visitantes permitidos. - Ela respondeu sem nenhuma emoção.

- É a minha avó! Por favor, que mal tem me deixar vê-la por cinco minutos? - Eu pedi tentando controlar a minha raiva, porque eu sabia que ali, se eu não mantivesse a calma, eles descontariam na minha avó.

- Nem é hora de visita. Pede ao filho dela que autorize a sua visita. Ele só autorizou uma neta, Ágatha. E a esposa dele, Marli. - Ela me devolveu a minha identidade.

- Senhora, por favor, pelo que a senhora mais ama, me deixa ver a minha avó. - Eu me ajoelhei, implorando àquela mulher.

- O que foi, Zélia? - Uma outra mulher apareceu, saindo pela porta atrás da recepção.

- Essa aí é neta da moradora que chegou hoje. Mas não está liberada para a visita.

- Deixa ela entrar, Zélia. Ninguém precisa saber. - A outra falou com um sorriso indulgente para mim. - Vai, segue esse corredor a esquerda direto, ela está no último quarto. Mas não espere muito, por aqui nós temos que fazer milagre com o pouco que recebemos e a falta de estrutura.

Eu agradeci e corri pelo corredor com a minha mala, até chegar ao último quarto. A minha avó estava deitada em uma cama estreita, com um colchão muito fino e sem lençol, encolhida e tremendo de frio. A colônia de lavanda dela havia sumido, substituída pelo cheiro da miséria daquele lugar. No segundo em que me viu, os olhos dela se encheram de água.

- Tina… me tira daqui, minha filha. Está frio… - Ela chorou, a voz fraquinha partindo o meu coração em mil pedaços. Mas eu não podia chorar, não ali na frente dela.

Eu me ajoelhei ao lado daquela cama e abracei a minha avó. Depois abri a minha mala e tirei de lá um agasalho de moletom que coloquei nela. Eu tinha quatro toalhas de banho, amarrei as ponta de umas às outras e estiquei na cama num forro improvisado, coloquei sob a cabeça dela o meu travesseiro e peguei a minha manta e cobri o corpo magrinho dela. Era tudo o que eu conseguia fazer naquele momento. Eu apertei as mãos trêmulas dela e fiz o meu juramento definitivo:

- Eu vou te tirar daqui, vó. Eu prometo. Nem que eu tenha que vender a minha alma para o diabo.

- Não fala isso, minha filha. - Ela choramingou.

- Vó, aguenta um pouco, por favor, só um pouco. Eu tenho que ir, mas eu prometo que volto para te tirar daqui.

Eu beijei a testa dela, prometendo voltar em poucas horas, e caminhei em direção à saída com o peito rasgado e os olhos vermelhos, já não podendo mais conter o choro. Eu saí daquele lugar chorando e me sentei no meio fio, abaixei a cabeça entre as minhas pernas e deixei as lágrimas caírem finalmente. Eu chorei como nunca havia chorado na vida. Um choro de derrota, de impotência, de ódio contra o meu tio, contra a prefeitura e contra o mundo. Eu estava quebrada. O orgulho que me sustentava havia virado poeira junto com as paredes do meu estúdio.

Depois de minutos deixando as lágrimas rolarem, eu ergui a cabeça e limpei o rosto com as costas das mãos, eu não podia me dar ao luxo de parar, eu precisava encontrar um jeito de tirar a minha avó desse lugar. Eu me levantei com a determinação que eu não podia me dar ao luxo de soltar e foi quando o vi.

Estacionado do outro lado da rua, contrastando de forma obscena com a miséria daquele bairro periférico, estava um sedã preto de luxo. A porta traseira se abriu de forma lenta e imponente. Dante Montenegro desceu do carro.

Ele vestia um terno escuro sob medida impecável, os cabelos perfeitamente alinhados e os olhos ocultos por um par de óculos escuros que o faziam parecer um modelo em um comercial. Ele atravessou a rua na minha direção, parando bem na minha frente, exalando o cheiro de dinheiro e poder que havia destruído a minha vida. Ele olhou para o meu rosto devastado pelas lágrimas e depois para a fachada do asilo.

- O diabo não perde tempo, já veio cobrar a promessa que eu acabei de fazer. - Eu resmunguei para mim mesma, mas ele ouviu e abriu um sorriso irritantemente convencido.

- Andou pensando em mim, Encrenca? - Ele respondeu muito felizinho.

- Oi? Que liberdade é essa? - Eu olhei para ele irritada. - Ah, quer saber, sai da minha frente mauricinho. Você já fodeu comigo. Veio se gabar do seu dinheirinho poder comprar a cidade inteira?

- Infelizmente, Encrenca, eu não posso te foder, se pudesse... - Ele tirou os óculos e me olhou de cima a baixo com um sorrisinho sacana. - Mas enfim... está pronta para tirar a sua avó desse lugar deplorável?

- O que você está dizendo? - Eu olhei para ele, a minha raiva crescendo. - Você vai se aproveitar dessa merda toda para conseguir o que quer?

- Encrenca, a equação é simples: eu consigo o que quero, você consegue o que quer, e todos ficamos felizes. Ou a sua avó não merece um lugar mais... digno?

Neste momento uma ambulância encostou em frente a porta daquele lugar e uma equipe de médicos e enfermeiros desceu. Um carro esportivo parou atrás do sedã do mauricinho e um homem de terno desceu e veio em nossa direção.

- Tudo pronto, Dante, posso fazer o meu show? - O homem piscou para mim com um sorrisinho cúmplice e eu o reconheci, era o executivo do elevador.

- A Encrenca decide. - O mauricinho não tirou os olhos de mim.

- Que porra é essa? Você... você é o cara do elevador!

- Murilo Dornelles, advogado e seu criado. - Ele se abaixou numa mesura exagerada e eu revirei os olhos. Ele riu, estava achando tudo divertido. - Srta. Torres, eu te dei uma boa dica ontem, se me permite dar outra hoje, vamos tirar a sua avó daqui depressa.

Olhei para o advogado, com aquele sorriso simpático e fiquei em dúvida se ele realmente havia me dado uma boa dica no dia anterior ou se tinha me mandado direto para o altar de sacrifícios do diabo. Mas o que eu deveria fazer? Aquele lugar era horrível e eu não podia deixar a minha avó ali, mas será que eu realmente não tinha outra saída?

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