4 - Algo inesperado...

Localização: Supermercados- Colúmbia, Carolina do Sul, Estados Unidos.

Emmeline...

      Ajeitei a alça da bolsa ao chegar à entrada do prédio do mercado. Segurando forte na mão a carteira que havia pegado a poucos momentos, observando as portas de vidros abrirem para mim. Passei a minha mão direita em uma mecha de cacho que pendeu na frente dos olhos, e a levei diretamente para trás da orelha, aproveitando e agarrando a puxador de uma das cestas que estava na entrada.

       Dirigi-me ao setor dos biscoitos agilmente. Estava visivelmente cansada e ansiosa pelo o meu sofá além do meu pequeno companheiro felpudo, Senhor Waffles para me acalentar de amor. Levei meus dedos ate os bolinhos de baunilha recheados, que eu amava e peguei uns cinco pelo menos. Era uma embalagem média que continha três cupcakes, em seu interior. Ao pegar segui diretamente para o setor dos congelados, e procurei com os olhos até achar o que queria. Uma? Não, duas lasanhas de queijo com presunto. E agora só precisava de um acompanhamento líquido.

        Fui dando passos ágeis segurando a cestinha em uma das mãos e a bolsa pesada no outro braço. A carteira joguei dentro juntamente com as compras, o que fazia sempre ao ir ao mercado depois do trabalho. Puxei o sobretudo ao entrar no setor de bebidas. Parei meu olhar. Peguei um vinho suave e observei outras bebidas. “Preciso de algo forte!”. Agarrei a garrafa transparente de vodka pela parte fina de sua boca, e levei-me para a outra ponta adquirindo uma mais rechonchuda e de tonalidade mais escura em seu conteúdo. E aquilo fez pesa-las. E algo em mim também.

       Observei as bebidas no cesto por minutos, com seus líquidos remexendo-se em seus conteúdos e a atenuando o brilho do vidro sobre a luz fluorescente do local. Algo em meu interior disse: “Pare!”. Fechei os olhos por um momento e os abri numa expressão firme. “Que se dane!”, desferi para meu ser que me dizia isso. Girei meu corpo com aqueles pesos, e quando ia seguir para o fim do corredor, com meus pecados. Avistei o pivô de tudo desmoronar até agora.

        “Kyle...”, pronunciei em minha mente.

       Engoli em seco, com a garganta que parecia não saber mais fazer sua função nem para a saliva descer. Respirei fundo pelo o nariz e soltei por meus lábios. Fechei meus dedos fortemente na alça de plástico do cesto, reprimindo o que estava querendo emergir. Lágrimas. Não queria. E não desceram. Já tinha chorado o suficiente e perdido fios de cabelo demais para agora ter uma recaída, e tudo voltar novamente.

       Sobretudo preto estilo britânico, camisa branca de gravata escura com listras cinzas e calça social que caia bem, assim como seus sapatos Oxford foscos e bem lustrados. Além de ter um cabelo que o deixava mais jovial, curto e com fios caídos sobre a testa num gel que os deixava brilhoso e contidos. Aquele homem era uma perdição, para quem estivesse apaixonada pelo o mesmo.

       Senti uma batida forte em meu peito.

       Reprimi-a assim que notei que o mesmo me percebeu. Ficou surpreso, sem jeito e desviou o olhar levemente, mas voltou para me encarar. Erguendo sua mão esquerda e dando-me um aceno, de modo amigável.

       “Quanto tempo não à via desde... Desde nosso divórcio!”. Ou melhor: “Quanto tempo! Como vai a vida?”. Que merda. Não consigo esboçar uma atmosfera feliz por ele e nem sorrir direito sem ser forçado. Estava séria como num enterro.

Minha cabeça me inundou novamente com as lembranças. M*****a seja a memória. Não queria me lembrar desse mínimo de felicidade que um dia tive com ele, e no outro se esvaiu de minhas mãos, como água.

–Emme, tudo bem? –Me sobressaltei ao notar que ele estava perto, á alguns centímetros me olhando preocupado. A m*****a batida voltou e dei um soco nela para se calar e não me atrapalhar.

–Ah, oi Kylie! –“Oi, Kylie?”, foi só isso que consegui pronunciar?! Merda. Ele me deu um sorriso de canto de boca e senti um calor subir.

–E então, como...

–Bem, bem! Estou ótima! –Interrompi sua pergunta e forcei um sorriso não convincente. Kylie sabia que nada estava bem. Seus olhos castanhos miraram em minha cesta de compras. Obvio que ele devia ter estranhado tanta bebida que eu leva, até a mais fortes. Já que não era do meu feitio tomar desse tipo. Dana-se. Ele mesmo não tinha nada haver, com o que eu fazia mais.

–Tem certez...

–Sim! –Respondi o interrompendo de novo. Mordi meus lábios inferiores, estava nervosa. –Mas me conta como está lá na delegacia?

–Ah, não paramos um minuto. Às vezes acabo adormecendo lá com as papeladas dos documentos!

–Bem sua cara... –Sussurrei desviando olhar.

–O que? –Indagou confuso com o que havia dito.

–Nada, fico feliz por você! –Comentei.

–E como estão às coisas no seu? –Perguntou humorado.

–Bem, cansativas... –Desabafei observando um ar de preocupação reaparecendo em seu olhar. –... Mas eu adoro meu trabalho, o pessoal. Não me vejo fazendo outra coisa! Ah, e eu adotei um gato para não ficar tão sozinha!

–... –Percebi a apreensão se esvair um pouco dele. –Fico feliz, um faz companhia para o outro! –Deu lhe me um sorriso sincero. –Emme... –Levou sua mão até a nuca e a coçou abaixando olhar. –...estou feliz que você tenha seguido em frente, depois do nosso divórcio e...

–... –Fiz um sinal de pausa e respondi. –Estou feliz por você, Kylie! Sei que vivemos bastante coisas nesses anos de casado, e ainda sei que foi difícil para ambos a separação, mas...

       Me interrompi e ficamos em silêncio por minutos, cabisbaixos e olhando de vez em quando para o outro. Ele pigarreou. E quando ia dizer algo, seu celular tocou. Tirou o aparelho quadrado de tonalidade preta, do bolso esquerdo com uma mão e atendeu levando a orelha.

–Alô? Ah, Kath?! Sim... –Kath?! Quem era Kath?! Começava a me perguntar, enquanto meu olhar ficava vago. E logo minha mente deduziu que o mesmo tinha seguido de veras em frente. Uma pontada se fez presente em meu peito, como uma dor que me partia em duas. –Tenho que ir... Foi bom te ver, Emme! Fica bem...

–... –Ele depositou a mão grossa e pálida em meu ombro, amigavelmente, e deu aquele singelo sorriso de canto. Foi-se como uma brisa de verão, retirando seu calor e deixando o gelado do vazio. –Vejo que hoje você tem grandes planos! –Joguei num tom de sarcasmo. Kylie parou virando-se para mim e me olhou bem nos olhos, que fez-me tremer em meu interior.

–Emme, não vamos começar com isso novamente! Por favor... –Suspirou numa careta de decepção. –Ele é somente uma...

–Não precisa me dá explicação, Kylie! –Fechei meus dedos fortemente na alça de plástico. –Eu não sou mais sua esposa e mais nada sua... –Pronunciei as últimas palavras em um sussurro.

–Eu... –Começou.

–Vou indo. Boa noite! –Interrompi-o não querendo saber mais do assunto e saí pelo o corredor. Passei sem ao menos olhar para trás. Não queria. Não mas ou teria uma recaída de merda novamente.

       Fui diretamente ao caixa. Minha mente tentava calar o emocionado do meu coração, enquanto o mesmo tentava passar por cima do orgulho da minha razão. Mordi meus lábios inferiores, enquanto pegava minha carteira do cesto e entregava ao jovem rapaz com um uniforme verde e um semblante cansado. Passou as compras com cuidado e agilmente. E nesse momento estava me segurando para não cair em prantos, e jogar fora um mês ou mais de sessão na terapia.

       O jovem anunciou o valor ao digitar ali nas teclas, e colocou os produtos dentro de duas sacolas de papel. E despertei abrindo minha carteira de couro preto e esguia. Dei-lhe o dinheiro e peguei rapidamente o troco com a nota, guardando em meu bolso do sobretudo. E enquanto pegava ambas compras, ouvi meu nome ao fundo sendo chamado e me dirigi para a saída.

–Boa noite, volte sempre!

–Boa noite! –Gritei de volta ao ir em direção ao carro.

–Emme, espere! –Ouvi ele chamar com as portas fechando-se e eu quase correndo dali, como diabo da cruz.

       Deixei as compras no chão e nervosa retirei o molho de chaves do outro bolso, destranquei e joguei as sacolas de modo cuidadoso no chão do passageiro. Saí de dentro pousando minha mão na porta e vislumbrei Kylie impaciente das grandes janelas do estabelecimento, com o caixa passando suas compras enquanto me encarava. Entrei no carro e bati a porta percebendo que o mesmo saiu às pressas do mercado. Liguei meu Volkswagen Crossfox de tonalidade bem escura, que fez um ronco pesado e que precisava realmente de uma visita ao mecânico.

–EMMELINE! –Gritou ao correr ao meu encontro no estacionamento. Dei ré olhando para trás e fiz uma curva girando agilmente o volante, que virou os pneus e segui na velocidade pela a rua da cidade. E olhando pelo o retrovisor aquele homem prantado na calçada do mercado, e ficando menor gradativamente enquanto me distanciava.

       Levei meus dedos até o rádio do veiculo, e apertei os botões com minha atenção no trânsito da cidade. E deixei numa estação que tocava uma música da banda Audioslave, para esquecer esse momento do dia. Mas era pior. Lágrimas transbordaram de meus olhos, descendo como cachoeira mesmo que eu tentasse limpar era em vão. Observei pelo o retrovisor e meus olhos estavam com minha maquiagem borrada. Cílios úmidos. Rosto abatido e coração partido.

       Respirei fundo, tentando me acalmar. Engoli com dificuldade a saliva da minha boca e segui o caminho todo enfiando problemas do meu trabalho, em minha mente para me distrair. E fazendo essa manobra acabei por chegar na rua de casa, virei meu volante para a esquerda e estacionei em frente a garagem de porta esguia e em linhas retas demarcando-a, naquele casarão alongando que agora morava uma mulher solteirona e seu gato que tinha nome de comida. Desliguei retirando a chave da ignição, abri a porta e peguei a primeira compra e sai colocando-a distante e fui para segunda fazendo o mesmo. E por último minha bolsa. Bati e passei a chave constatando que estava trancando.

       Levei a bolsa num ombro e me debrucei pegando aquele peso das compras, andei devagar até a varanda e subi cada um dos cinco degraus. Cheguei em frente e depositei novamente ao chão, pegando a chaves e girando para destrancar a porta. Empurrei-a e tive uma visão de Kylie de short e camisa de mangas de tom escuros, com uma caneca de café perguntando como foi meu dia no trabalho. E de repente pisquei e aquilo desapareceu deixando apenas meu rosto novamente úmido com meus lábios retorcidos. E pegando as sacolas nos braços, empurrei para fechar com o pé que fez um clique forte.

–Oi, senhor Waffles! –Pronunciei chorosa e indo pelo o pequeno corredor á esquerda diretamente para a cozinha, e colocando as compras no grande balcão de mármore. Levei minha mão direita em baixo e arranquei os sapatos de salto alto que doíam meus pés, jogando-os de lado pelo o chão de madeira encerada. Deixei a bolsa ali em cima com as chaves e arranquei de dentro as compras, começando a guardar em seus devidos lugares.

“Preciso de um banho quente!”, falei para mim mesma mentalmente ao parar e passar a mão esquerda no rosto massageando. Suspirei e olhei para o pote do Senhor Waffles, e aproveitei para abastecer de ração. E fui à torneira deslizando meu dedo no lado e enchendo a vasilha de metal dele. Coloquei do lado da comida, enquanto o mesmo deu um miau parecendo que me agradecia ao comer sua comida. Tirei o sobretudo indo diretamente para a sala em minha frente e soltei uma profunda respiração ao j**a-lo sobre as costas do sofá. Foi quando ouvi a campainha tocar duas vezes seguida, antes mesmo de dizer que estava indo.

–Já vou. –Gritei seguindo em direção a porta.

       Olhei pelo o olho mágico e não tinha ninguém. Estranhei e girei a maçaneta abrindo-a, me debrucei e olhei para os lados e quando ia fechar notei algo em cima do tapete. Agachei-me observando aquela flor centáurea-azul juntamente com um cartão numa fita arroxeada. Voltei meu olhar pela aquela rua vazia, que somente passava um carro prata. E bati a porta trancando-a de chave.

       Comecei a cogitar que seria meio impossível a pessoa correr tão rápido, pois abri a porta assim que veio o segundo toque e ainda olhei pelos os lados. Dei de ombros e abri o bilhete indo para a sala aconchegante. A caligrafia era linda, parecendo algo do século passado e que com toda certeza não era de Kylie. Conhecia bem sua letra e os garranchos que nem eu conseguia ler.

       “Emmeline, com esse rosto angelical e um olhar de pecado capital, não deveria chorar por quem não a merece. Conheço-a bem para dizer-lhe como você é uma mulher forte e bem sucedida, que merece muito mais coisas melhores do que lágrimas...

De seu admirador secreto: C.”.

       “Nossa!”. Fiquei espantada e tentei lembrar se era de outra pessoa. Não. Neguei balançando a cabeça. Não era do Albert. Sabia muito bem por trabalhar infelizmente ao seu lado. Mas... Como essa pessoa sabia que minhas flores favoritas eram as Centáurea-azuis? Nem mesmo Kylie sabia disso.

       Um sorriso bobo formou em meu rosto, e por um momento me senti extasiada por ter um admirador. Mordi meus lábios inferiores e dei pulos leves de felicidade indo para meu quarto. Deixei o cartão em cima da minha escrivaninha e observei a flor ainda animada com tudo aquilo, e depositei-a juntamente e fui para o banheiro.

       Retirei minha camisa social, desabotoando cada parte dela. E joguei ao chão foi à vez da saia preta que batia nos joelhos seguida da meia-calça escura. E por último foi o sutiã de bojo com um bordado de tonalidade chocolate com flores e uma joia presa no meio das curvas, deixei ir ao chão juntamente com a calcinha fina. Senti um alivio total e dei passos até o box do chuveiro, onde empurrei pro lado e depois fechei. Rodei a manivela e deixei a primeira água cair, e observei quando o vapor começou a subir embaçado o vidro temperado.

       O líquido morno percorreu meu corpo enquanto minhas mãos juntamente com o sabonete, faziam um caminho único. Senti-me revigorada da cabeça aos pés, enquanto meu estômago reclamava de algo. Fiquei mais um tempo naquele banho relaxante e desliguei-o, saindo ao pegar a toalha no gancho ao lado. Me sequei e enrolei-me indo para o quarto.

       Peguei meu creme corporal, e passei em cada parte da minha pele refrescando-a ainda mais. Finalizei ao retirar da minha cômoda do outro lado, um baby-doll de tom lavanda e curto e vesti-lo. Peguei meu roupão do mesmo material cetim, enrolei meu corpo amarrando a faixa na frente. Parei e encarei a flor dando um sorriso bobo. Suspirei e sai do quarto indo em direção a cozinha. Peguei da geladeira a lasanha, retirando seu conteúdo da caixa e o plástico que a envolvia. Joguei no lixo as embalagens ao ir em direção ao micro-ondas. Parei e abri sua porta depositando aquela forma com o alimento congelado em seu interior, fechei e digitei os minutos dando inicio ao seu preparo.

       Meu olhar foi de encontro à bebida ali no balcão, as únicas que não guardei como as outras coisas. Salivei na boca e senti uma secura na garganta como uma vontade inexplicável. Necessitava de um gole, mesmo com a barriga roncando de fome. Fui até o armário e peguei uma taça, indo para junto das garrafas que reluziam na luz da cozinha. Abri rapidamente a de whisky, derramei o líquido de tonalidade escura e levei a boca colocando mais duas doses. Senti o ardor prazeroso que dava a cada golada, parecendo um desbafo.

       Aproveitei demoradamente enquanto minha janta ficava pronta. Ouviu o soar de um barulho e até a mesma, pegando um pano de prato e retirando de dentro do micro-ondas fechando sua porta com a mão que segurava o copo. Depositei sobre o balcão e cacei um garfo na gaveta dos talheres. Mordisquei alguns pedaços com a bebida de lado, e deixei o resto quase mais da metade. Notei que tinha tomado mais da bebida do que me alimentado, a garrafa já estava na metade. Peguei o whisky e a de vinho e levei para me fazer companhia no jardim, sentindo que já andava torto.

       Sentei-me em uma das cadeiras de praia junto a piscina grande, com uma fumaça que emergia de friagem da mesma. Contemplei o céu estrelado solitariamente.

–Até isso era uma das coisas que fazíamos juntos! –Falei com uma voz embargada ao rir ironicamente, trazendo a boca a garrafa de whisky invés do copo.

       Estava começando a não sentir as pontas dos dedos, e minhas vistas ficarem meio embaçadas e tortas. Ri levemente disso. E toquei meu rosto sentindo somente um anestesiado de tudo. Tentei me levantar e tive dificuldade. Firmei meus pés e braços e levantei-me de vez pegando a garrafa. Andei até a piscina enquanto tudo girava mais ainda e a boca da garrafa ia de encontro a minha.

       E senti água gelada em meu corpo com algo que esquentava ao mesmo tempo, na minha mão direita. Tentei me mexer, em vão. Pois meu corpo pesava e tudo ao meu redor. Não conseguia mover os braços para nadar e poder emergir a superfície. Tudo se mesclava em tonalidades de um giro com a água que deixava tons de vermelho em minha frente.

–EMMELINE! –Escutei meu nome ao longe na superfície, enquanto afundava mais ainda. E com minha vista turva pude vislumbrar um homem, mergulhando na água com tons escarlates. Numa expressão preocupada, trajando uma roupa sombria e indo nadando em minha direção. Com aquele olhar azul ardente esticando sua mão, enquanto eu apagava de vez.

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