CAPÍTULO 1.2

Quando o meu carro parou em frente à mansão, seguido pelo outro carro que trazia os meus homens, eu hesitei alguns segundos antes de sair. – Quer voltar? – Demétrius perguntou. Ele me conhecia melhor do que meus próprios pais e queria me tirar dali enquanto era tempo. No fundo ele sabia que eu não conseguiria sair dessa festa sem fazer alguma besteira em relação a Guilhermina. Eu era sim um poço de autocontrole, mas mesmo eu não poderia ser imune a essa coisa que existia entre nós.

Saí do carro sem responder e assisti pela minha visão periférica toda a dança que faziam os meus homens. Como era praxe, Demétrius ia na frente, desta vez ele teve que se apressar para me passar, e os demais se espalhavam pelo local checando tudo e, uma vez que tudo estava ok, posicionavam-se estrategicamente durante todo o evento. Era difícil, em um almoço de família, cheio de pessoas do bem, fazer esses caras maus passarem despercebidos. Eu havia orientado Demétrius sobre a igreja, mas eu não disse nada sobre a festa por que eu não pretendia estar aqui.

Giovanna me recebeu com o garoto em seus braços – Oi, tio Luca – Cumprimentou-me e eu fiquei completamente surpreso com a saudação. Não fazia ideia como responder a isso. Ela deve ter percebido (ou não) por que continuou – Obrigada por ter vindo. Venha conosco que vamos levar você até a sua mesa.

- Obrigado – Falei, finalmente encontrando a minha voz.

“A minha mesa” era, na verdade, a mesa da família Mazza. Onde Guilhermina também se encontrava. Eu cumprimentei todos os presentes com um aceno e logo uma equipe tratou de providenciar tudo o que eu precisava. Demétrius, como sempre, recusou-se a se sentar e manteve-se próximo.

- Ei cara – Tony saudou, aproximando-se da mesa após uma sessão de fotos em torno da mesa do bolo com a sua garota. Ele sentou-se ao meu lado e Amadeo do outro e seguimos em um papo de homens. Felizmente tínhamos muito assunto. Éramos velhos conhecidos e circulávamos no mesmo meio. Sim, nós também éramos sócios de um clube BDSM, mas isso não era assunto apropriado para uma festa de batismo de um bebê. Então nós falamos de negócios de um modo geral. Eu estava certo de que estava fazendo um excelente trabalho em disfarçar minha fixação em Guilhermina até o momento em que Antony e Amadeo se levantaram para pegar mais algumas bebidas e eu fiquei sozinho.

Guilhermina havia deixado a mesa segurando o garoto Mazza no colo e circulava agora com ele pelo jardim bem cuidado da família. Eu estava assistindo enquanto ela interagia graciosamente com o bebê. Ela tinha um sorriso doce no rosto todas as vezes que olhava pra ele. Era uma cena cativante, embora eu nunca tenha parado para analisar uma mulher e um bebê juntos como algo cativante. Na verdade eu sequer analisei. Não era algo que eu prestava atenção. Talvez um par de coxas ou de seios. No entanto, aqui estava eu admirando uma cena tão singela como essa.

Uma cadeira foi puxada ao meu lado e a garota de Antony, Penélope Ferrara, sentou-se nela – Olá. – ela me cumprimentou. Era a primeira vez que ela tentava conversar comigo desde a noite que nos conhecemos no clube e fizemos um trio. Desde então ela fingia que não me conhecia e eu deixava, por que eu sabia o quanto tudo era difícil pra ela. Eu soube que ela nunca tinha feito nada daquilo e eu tentei deixa-la à vontade na ocasião e, depois disso, ignorando-a. Mas aqui estava ela puxando conversa.

- Olá – Respondi.

- Eu nunca tive a oportunidade de agradecer por tudo o que você fez por nós.

Antony fez questão de agradecer por aquela noite onde acabamos com a festa de Isabel e Beatrice, que estavam chantageando a sua garota e destruindo a empresa dela, mas ele me conhecia o suficiente pra saber que eu me sentia desconfortável. Então ele foi sucinto. – Não foi nada.

- Isso não é verdade. Foi a maior coisa que alguém já fez por mim e olha que eu nem estou falando sobre o que você fez pela minha amiga – Acenou em direção à Giovanna, quem eu havia salvado de um sequestro.

- Você é a garota do Mazza, então é bem-vinda.

Ela acenou concordando – Eu também quero me desculpar. – No fundo eu sabia sobre o que, mas mesmo assim eu franzi o cenho. – Por ter praticamente fingido que não o conhecia depois daquela noite no clube. Era a minha segunda noite no clube e mesmo assim a primeira vez eu só estava olhando. Pra ser honesta isso tudo é novo pra mim, entende?

- Claro. Não há nenhuma necessidade de pedir desculpas e, eu sei que deve ser difícil, mas tente não ficar constrangida por isso. – a última coisa que eu queria era qualquer tipo de clima entre a noiva de Antony e eu.

- Obrigada. Eu vou tentar. – Ela murmurou ao meu lado, mas eu já não estava prestando atenção. Meu olhar, mais uma vez, vagou até o outro lado do jardim e por um instante eu me desliguei do que a noiva de Antony estava dizendo, até que ela falou um pouco mais firme – Por que você não faz nada a respeito disso? – ela perguntou e eu achei que talvez eu tivesse perdido alguma parte importante da conversa, pois eu não tinha ideia sobre o que ela estava falando.

- A respeito de que? – perguntei-lhe.

- Dela – respondeu-me e quando segui seu olhar, ela o tinha fixado na mesma cena que eu estava admirando há pouco.

- Eu não sei do que você está falando. – desconversei. Mais uma coisa que não combinava comigo. Em geral um: “foda-se” ou “meta-se com a sua vida” soava melhor.

- Sabe sim. Esse olhar em seu rosto... eu já usei ele. É aquele olhar de quando você quer muito algo, mas não pode ter.

Eu virei todo o meu corpo em sua direção. – Antony disse a você exatamente quem eu sou e o que eu faço? – Perguntei-lhe, sentindo-me um pouco impaciente agora. Ela ergueu o queixo e respondeu:

- Com todas as letras.

- Então, diga-me, como posso colocar as minhas mãos sujas nela, que é a coisa mais pura que eu já conheci na minha vida? – desabafei, surpreendendo-me novamente.

- Sabe o que eu acho? – era uma pergunta retórica – Que você deveria deixar que ela decidisse isso.

Então eu me fiz vulnerável como eu nunca faço com ninguém, exceto com Demétrius. Nem mesmo com o meu irmão eu me permito ser assim. Meu pai deixou muito claro que eu tinha um exemplo a dar ao meu irmão mais novo. Mas eram três fodidos meses e eu finalmente a tinha há poucos metros. – Você vê? Eu matei mais gente do que eu posso contar e ordenei outras tantas execuções. Eu enfrentei tantos perigos reais, atentados contra a minha vida sem medo algum. No entanto, há uma coisa da qual eu tenho medo e esta é que ela saiba quem eu realmente sou. Mas isso não é tudo. Somos atuais, mas ainda somos uma organização tradicional. Existe uma coisa que mantém a paz entre duas facções da nossa organização e isso é o meu futuro casamento com a filha de um dos líderes da facção “aliada”. Se eu não cumpro a promessa, temos uma guerra.

Eu esperei seu olhar de pânico. A maioria das pessoas fazia isso quando sabiam sobre mim e o que eu fazia realmente ou mesmo quando apenas desconfiavam. Mas a moça corajosa a minha frente me deu apenas um monótono: – Entendo. – Em seguida acrescentou – No entanto, há coisas das quais não adianta fugir e outras pelas quais vale à pena lutar. Talvez ela seja essas duas coisas... Pense nisso. – Penélope Ferrara levantou-se e saiu, deixando-me sozinho e atônito.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App