Mundo ficciónIniciar sesiónRenata
Dois meses de faculdade, ônibus lotado, noites virando café, aulas do Moretti que me deixavam com o cérebro cansado e o peito aceso. Dois meses divididos entre estudar, trabalhar na lanchonete da madrinha e tentar reconstruir a vida que um dia implodiu nas minhas mãos. Mas, pela primeira vez… eu estava feliz. A campainha da porta tocou e eu ajeitei o avental, sorrindo para os clientes enquanto entregava um café duplo. O cheiro de pão quente e os risos da madrinha enchiam o ambiente — e meu coração. Eu estava limpando uma mesa quando meu celular vibrou no bolso. Olhei a tela. Papai. Meu estômago desceu. Ele nunca me ligava. Nunca. Se ligou… era problema. Atendi com a voz baixa. — Pai? A voz dele veio seca, forte, como sempre. — Renata, precisamos conversar. É sobre o casamento da sua irmã. Meu coração gelou. — Casamento? minha voz falhou antes que eu pudesse evitar. Da Patrícia? — Sim. Ele bufou, impaciente, como se eu fosse burra. Ela vai se casar com o Ricardo. E você precisa estar presente. A cadeira ao meu lado pareceu girar. Meu ex-noivo. O homem que eu amava. O homem que eu encontrei na cama com a minha irmã. Engoli seco. — Pai… eu não vou. Não tem porquê. E… isso machuca. O senhor sabe. — Você vai sim. Ele interrompeu, como quem dá uma ordem a um funcionário. A família do Ricardo já confirmou presença em peso. E por um milagre o pai dele não rompeu a sociedade comigo quando soube do fim de vocês dois. Eu fechei os olhos, sentindo aquela velha dor latejando, como um machucado que nunca cicatriza. — Pai, por favor… falei baixinho. Eu não tenho condição emocional de ir a esse casamento. Eu estou reconstruindo minha vida. Eu… eu estou tentando ficar bem. — Renata! Ele ergueu a voz. Isso vai pegar mal para mim! Vai ter gente importante, empresários, políticos… você quer me envergonhar? Meu peito doeu. Sempre ele. Sempre a imagem dele. Nunca eu. Respirei tremendo. — Eu não vou, pai. Ele riu aquele riso sem humor que sempre me cortava. — Você vai, sim. Está INTIMADA a ir. Eu não quero discussão. Compre um vestido decente e esteja lá no sábado. A Patrícia já te colocou na lista. Minha mão suou. — Eu não posso murmurei. O senhor não entende… — Eu entendo muito bem. Ele cortou. Você vai, Renata. E ponto final. E a ligação caiu. Fiquei ali parada, olhando para o nada, sentindo as lágrimas subindo, mas engolindo todas antes que pudessem cair. Eu já tinha chorado demais por aquela família. Por aquele homem. Por aquela traição. A madrinha apareceu ao meu lado, tocando meu ombro com cuidado. — Minha filha… o que foi? Eu inspires profundamente, tentando manter a voz firme… mas falhei. — O pai… ele quer que eu vá ao casamento. O casamento da Patrícia com o Ricardo. Os olhos dela se encheram de indignação instantânea. — Isso não é justo com você! Eu apenas balancei a cabeça, apertando o pano de prato entre os dedos. Justo… Eu nunca soube o que era isso. Eu precisava de um vestido. Queria qualquer coisa simples, discreta… algo que me deixasse invisível no meio de tanta hipocrisia. Mas só de pensar no sábado, minhas mãos tremiam. Respirei fundo e mandei mensagem para a única pessoa da faculdade com quem eu realmente tinha criado vínculo. Renata: Você pode vir comigo no shopping? Preciso comprar um vestido… Ana Júlia: Claro que posso! Onde te encontro? Meia hora depois, Ana Júlia apareceu na porta do shopping, sorrindo como se carregasse um sol dentro dela. — Amiga! ela me abraçou forte. Que cara é essa? Parece que você viu um fantasma. Eu tentei sorrir, mas falhei miseravelmente. Ela estreitou os olhos. — O que está acontecendo, Renata? Você tá tão tristonha esses dias… Suspirei, pesada. — É… é por causa do convite do casamento da minha irmã. Quer dizer… meia-irmã. Ela ergueu a sobrancelha, confusa. — Casamento? Do nada? E por que isso deixou você assim? Eu engoli em seco, sentindo aquele gosto amargo de lembrança subir. — Porque… minha voz saiu trêmula eu peguei ela me traindo com o meu ex-noivo, Ana. O passo dela quase falhou. — O quê? — É. — Olhei para as vitrines, tentando segurar a onda de dor. Eu cheguei mais cedo em casa e… encontrei os dois. Juntos. Ana levou a mão à boca, chocada. — Meu Deus, Rê… — Meu pai quis que eu mantivesse o noivado continuei, amarga. Disse que a sociedade dele com o pai do Ricardo era mais importante que “uma crise boba de ciúme”. Ele realmente disse isso. Ana bufou, indignada. — Que absurdo! E o que você fez? — O que qualquer pessoa com um mínimo de amor-próprio faria. Eu saí de casa. Vim morar com a minha madrinha. Suspirei. E agora, no sábado, é o casamento. E meu pai… me intimou a ir. Ana parou de andar. Me segurou pelos braços. — Renata… você não precisa fazer isso se estiver doendo. Eu ri sem humor. — Ele não me deu escolha. Disse que vai ter gente importante, que eu não posso envergonhar a família. E eu… eu não sei se consigo olhar para eles, Ana. Não sei se tenho força pra isso. Ela me puxou para um abraço apertado, firme, o tipo de abraço que segura a gente inteira quando a vida tenta desmontar cada parte. — Então eu vou ser sua força ela disse baixinho. Você não vai passar por isso sozinha, ouviu? Vamos escolher esse vestido, e eu vou estar com você no dia. Nem que eu precise segurar sua mão durante o evento inteiro. Uma lágrima teimosa escapou, mas eu sorri. — Obrigada, Ana… Ela bateu palminha, tentando animar o clima. — Agora vamos achar um vestido que faça você se sentir poderosa. Se é pra enfrentar demônios, que seja parecendo uma deusa. Eu respirei fundo.






