CAPÍTULO 3

CAPÍTULO 3

Dez anos podem ser um suspiro ou uma eternidade, dependendo de quem os conta. Para Lucía Flores, foi uma década de construção meticulosa, tijolo a tijolo, cicatriz após cicatriz.

Desde a assinatura daquele contrato debaixo da chuva, a sua vida deu uma volta de cento e oitenta graus, embora não na direção que todos esperariam da "esposa de um milionário". Alexander cumpriu a sua palavra com o frio de um banqueiro: atribuiu-lhe uma residência —uma casa antiga, mas bem conservada, numa zona tranquila da cidade— e assumiu o pagamento das propinas universitárias.

Todo o primeiro dia do mês, uma notificação chega ao telemóvel de Lucía: Depósito recebido. Remetente: Grupo Vega. O montante é exorbitante. Uma mensalidade que permitiria a qualquer pessoa viver sem levantar um dedo, viajar pelo mundo e comprar roupa de grife.

Mas o dinheiro continua ali. Intacto.

Lucía nunca tocou num único cêntimo dessa conta para despesas pessoais. É a sua pequena rebeldia, a sua forma de manter a dignidade. "Pagas-me a faculdade porque foi esse o combinado", disse a si mesma no primeiro dia, "mas não me vais sustentar". Durante todo o curso de Medicina Veterinária, Lucía manteve os seus trabalhos a meio período: a passear cães, a limpar mesas numa cafetaria noturna e a fazer turnos em abrigos. Formou-se com distinção, com olheiras escuras e o orgulho intacto.

Agora, o rés-do-chão da casa que Alexander lhe cedeu transformou-se na Clínica Veterinária Flores. Não é um hospital de grandes dimensões, mas é a melhor do bairro.

— Segura-o bem, Luís! —ordena Lucía, com a voz firme mas tranquila.

Na mesa de operações, um pastor-alemão respira com dificuldade. Lucía tem as luvas calçadas e o olhar fixo no monitor de sinais vitais.

Luís, o seu colega de universidade e agora parceiro, ajusta a contenção do animal. Luís é um homem bom, de sorriso fácil e paciência infinita. Olha para ela com uma admiração que vai muito além do profissional, algo que toda a gente nota, menos, aparentemente, Lucía. Ou talvez ela decida não notar.

A traição de Fernando deixou uma marca profunda. Ela não confia nos homens. Usa a aliança de ouro branco que Alexander lhe pôs no dedo há dez anos, não como símbolo de amor, mas como escudo. Aquele anel grita "indisponível" e mantém à distância quem quer que tente aproximar-se demasiado, incluindo Luís.

— Pinça —pede ela.

A operação é delicada, uma torção gástrica que exige precisão. Durante uma hora, o mundo exterior desaparece. Só existem ela, o cão e o ritmo constante do monitor cardíaco.

Quando dá o último ponto, Lucía expira e deixa cair a máscara para o pescoço.

— Bom trabalho, equipa. Foi um sucesso.

Luís passa-lhe uma toalhinha para que enxugue o suor da testa. Os dedos dele roçam os dela por um segundo a mais do que o necessário.

— És incrível a operar, Lu. Tens um dom.

Lucía retira a mão suavemente, quebrando o contacto.

— É prática, Luís. E estudo. Obrigada pela ajuda.

Sai da sala de cirurgia e encontra Alina na receção. A amiga está a teclar furiosamente no computador, a organizar a agenda. Alina continua a ser o turbilhão de energia de sempre, a irmã que a vida lhe deu.

— Como correu tudo? —pergunta sem levantar o olhar.

— O cão vai ficar bem. Precisa de repouso absoluto. —Lucía tira o jaleco e estica os braços—. Estou morta de fome. Temos mais consultas antes do almoço?

Alina verifica o ecrã.

— Só uns banhos e tosquias, o técnico trata disso. Mas atenção, Lucía, lembra-te de que às três tens a visita à herdade Los Álamos. Esses cavalos não se vão examinar sozinhos.

Lucía acena, pegando na mala.

— Perfeito. Aproveito que fica no caminho para passar pelo orfanato.

Alina interrompe o que faz e olha para ela com ternura.

— É incrível como passam os anos e tu continuas a ir lá todas as semanas. Qualquer pessoa diria que querias esquecer aquele lugar.

— São a minha família, Alina. Tal como tu. Não lhes posso virar as costas. Além disso... Tenho de ver os meus miúdos.

"Os seus miúdos". Mateo e Sofía, dois gémeos de cinco anos que chegaram ao orfanato há seis meses após um acidente trágico. Têm os olhos grandes e tristes, e uma necessidade de afeto que parte o coração de Lucía cada vez que os visita. Ela deseja adotá-los com toda a sua alma. Começou a averiguar os trâmites, mas o sistema é lento e burocrático, e o seu estado civil —legalmente casada, mas vivendo sozinha— complica as entrevistas com os assistentes sociais.

— Dá-lhes um beijo da minha parte —diz Alina—. E traz-me qualquer coisa para comer quando voltares, que hoje não tenho tempo nem para respirar.

A tarde passa entre os estábulos. No orfanato, Lucía transforma-se. A médica séria e eficiente dá lugar a uma mulher calorosa que se senta no chão a brincar com blocos de construção. Mateo pendura-se ao pescoço dela e não a larga, enquanto Sofía lhe faz tranças no cabelo. É nesses momentos que Lucía sente que a vida faz sentido, que toda a dor do passado valeu a pena se ela puder dar um futuro a estas crianças.

Regressa a casa ao anoitecer, exausta, mas com o coração cheio. A clínica já está fechada. Alina e ela partilham o primeiro andar da casa. É um arranjo confortável; fazem companhia uma à outra e dividem as tarefas domésticas.

Jantam algo leve na cozinha, comentando as fofocas do bairro e os casos clínicos do dia.

— O Luís perguntou por ti três vezes depois de ires embora —comenta Alina, com uma sobrancelha erguida, enquanto lava a louça.

Lucía revira os olhos, servindo-se de um chá de camomila.

— Alina, não comeces.

— Só digo que é um bom homem. E bonito. E veterinário. O que é que queres mais? Esse anel que usas é de mentira, Lucía. Estás casada com um fantasma.

Lucía faz girar a aliança no dedo, um tique nervoso que desenvolveu com os anos.

— Esse fantasma dá-me a paz que preciso. Não quero complicações, Alina. Estou bem assim. O meu trabalho, tu, as crianças... não preciso de um homem para me validar ou para me voltar a partir o coração.

Vão dormir cedo. O silêncio da casa é reconfortante. Lucía adormece profundamente, a sonhar com cavalos a galope e com as gargalhadas dos gémeos.

Mas a paz quebra-se abruptamente.

BUM. BUM. BUM.

O som é alto, insistente, e ressoa por toda a casa. Alguém está a bater à porta principal com desespero.

Lucía abre os olhos de repente na escuridão. Olha para o relógio digital na mesinha-de-cabeceira: 04:12 da manhã.

— Que raio...? —sussurra.

Ouve passos apressados no corredor e Alina espreita a cabeça pela porta do quarto, com o cabelo desgrenhado e ar de susto.

— Lucía, ouviste isso? Parece que vão derrubar a porta.

O instinto profissional de Lucía ativa-se antes do medo.

— Deve ser uma emergência —diz, saltando da cama e procurando as pantufas—. Talvez tenham atropelado um cão ou haja um parto difícil. Às vezes as pessoas desesperam-se e não vêem a campainha de urgência.

— Vou descendo contigo —diz Alina, já mais acordada—. Vou preparando o bloco operatório e ligando as luzes da sala de espera. Tu atende ao paciente.

— Está bem. Dá-me um segundo.

Lucía nem se dá ao trabalho de se arranjar. Põe um roupão de seda azul-marinho por cima do pijama de algodão, aperta o cinto com força e desce as escadas a correr. As pancadas não param. Quem quer que esteja lá fora, tem muita pressa.

Alina desvia-se para a área da clínica para ligar os equipamentos, enquanto Lucía vai direta à porta principal da casa.

— Já vai! Já vai, por favor, parem de bater! —grita ela, descorrendo as trancas de segurança.

Espera encontrar um vizinho a chorar, com um animal nos braços a sangrar, ou talvez a polícia.

Abre a porta de rompante, pronta para perguntar: "O que aconteceu?".

Mas as palavras morrem-lhe na garganta.

A rua está escura, iluminada apenas pela luz de um candeeiro distante e pelos faróis de um carro desportivo preto mal estacionado no passeio.

Não há nenhum cão ferido.

Não há nenhum gato atropelado.

No limiar da porta, sob o batente, há um homem.

É alto, mais alto do que recordava. Usa um fato desabotoado, o laço preto a pender do colarinho da camisa branca, e o cabelo escuro ligeiramente despenteado pelo vento da madrugada.

Lucía pestaneja, confusa. O seu cérebro demora alguns segundos a processar a informação, a desempoeirar as memórias de uma década atrás e a sobrepô-las à realidade que tem diante dos olhos. Os traços são mais duros, a mandíbula mais marcada, mas aqueles olhos escuros e intensos são inconfundíveis.

É ele.

O fantasma.

O homem que assina os cheques que ela nunca descontou.

Lucía ajeita o colarinho do roupão, sentindo-se subitamente muito vulnerável em pijama perante tanta elegância desordenada.

— O que estás a fazer aqui? —pergunta. A voz sai-lhe rouca de sono, sem qualquer rasto de cortesia.

Alexander de la Vega olha-a de cima a baixo. Os seus olhos percorrem o rosto lavado de Lucía, o seu cabelo desgrenhado, o roupão simples. Não é a imagem da esposa glamorosa que precisa de apresentar ao avô, mas, estranhamente, o que vê também não lhe desagrada. Há uma naturalidade nela que contrasta com o mundo artificial de onde ele vem.

Ele apoia uma mão no batente da porta, invadindo o espaço dela, e um meio-sorriso cínico desenha-se nos seus lábios.

— Também me dá muito prazer ver-te, querida esposa.

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