Capítulo Sete

A luz azulada do notebook ainda parecia dançar diante dos olhos de Abby, mesmo depois de ela ter fechado a tela. "Contando os minutos", ele dissera. A frase ecoava em sua mente como um refrão persistente. Abby sentia que o ar em seu quarto em Salem estava subitamente mais pesado, carregado com a eletricidade de uma expectativa que ela não sabia se conseguiria carregar sozinha por mais duas semanas.

Ela se levantou da cama, os pés descalços sentindo o toque familiar do assoalho de madeira. Caminhou até o espelho da penteadeira e observou-se. Aos dezesseis anos, ela via uma versão de si mesma que o Professor Thorne chamaria de "em constante transição". O rosto estava mais angulado, os olhos castanhos pareciam maiores atrás das lentes, e o ruivo do cabelo — o motivo do apelido "Cenourinha" — caía em ondas pesadas sobre seus ombros. Será que Gus veria essa mudança? Ou ele apenas veria a garota que quase beijou atrás da fogueira há dois anos?

Um estrondo vindo do corredor quebrou seu transe. Passos pesados, que mais pareciam de um gigante, aproximaram-se da sua porta antes de ela ser aberta sem qualquer cerimônia.

— Abby, você viu minha chuteira de trava? Aquela que eu usei no último treino?

Era Anthony. Aos dezessete anos, o irmão de Abby sofrera uma metamorfose que desafiava a lógica biológica. Ele ultrapassara Daniel em altura, tornando-se uma presença física impossível de ignorar. Os ombros eram largos, resultado de horas na academia da escola e de uma obsessão competitiva por esportes, e a mandíbula estava tão marcada que ele parecia ter envelhecido cinco anos em apenas um. O cabelo ruivo ainda era bagunçado, mas agora de um jeito que parecia proposital, e seus olhos castanhos carregavam a confiança de quem estava prestes a se formar e conquistar o mundo.

— Já ouviu falar em bater, Anthony? — Abby reclamou, embora já estivesse acostumada. — E sua chuteira deve estar no cesto de secagem, onde a mãe coloca tudo o que você esquece espalhado pela casa.

Anthony entrou no quarto, fazendo o espaço parecer subitamente pequeno. Ele se jogou na poltrona de leitura de Abby, que rangeu sob seu peso.

— Nossa, que mau humor. Estava falando com o Gus, né? — Ele deu um sorriso de lado, aquele tipo de sorriso que só irmãos mais velhos conseguem dar para irritar.

— Como você sabe? — Abby tentou manter a voz neutra, voltando a organizar seus lápis sobre a mesa de desenho.

— Vi você sorrindo para a tela lá da porta. Você fica com essa cara de quem ganhou na loteria toda vez que ele manda mensagem. — Anthony esticou as pernas longas, cruzando os tornozelos. — Ele me mandou um vídeo do último touchdown dele hoje cedo. O cara está jogando sério, Abby. Boston faz bem pra ele.

Abby parou o que estava fazendo, sentindo uma pontada de curiosidade misturada com o ciúme bobo que Melissa despertara nela. — Ele parece... diferente nas fotos. Mais sério.

— Ele é o quarterback titular, pequena. Tem que bancar o líder. — Mas relaxa — Anthony riu, levantando-se e bagunçando o cabelo dela —, ele ainda é o mesmo idiota que cai do píer se você empurrar. Só tenta não ficar muito nervosa. O verão em Cape Cod não é lugar para ataques de ansiedade.

— Eu não estou nervosa! — ela gritou para o corredor, mas a risada alta de Anthony foi a única resposta.

Mais tarde, o jantar na casa dos Miller em Salem tinha aquele sabor agridoce de "últimas refeições antes da mudança". As caixas de papelão já começavam a se acumular no canto da sala de jantar, e a lista de Eliza para o mercado de Cape Cod crescia a cada hora.

Daniel estava sentado à cabeceira, servindo o ensopado de peixe que era a especialidade da sexta-feira. Ele observava os filhos com um olhar nostálgico. Para ele, parecia que foi ontem que precisava carregar ambos no colo para que vissem o mar; agora, Anthony era maior que ele e Abby tinha um portfólio de arte que ele mal conseguia compreender.

— Então, todos prontos para a grande migração? — Daniel perguntou, olhando para Eliza.

— Quase. Só falta decidirmos se levamos a churrasqueira velha ou se usamos a do Robert este ano — Eliza respondeu, limpando o canto da boca com o guardanapo. — Susan, me disse que eles compraram um modelo novo. Ela parece muito animada com a chegada da Sarah também.

— A Sarah vai ficar o verão todo? — Abby perguntou, interessada. Sarah sempre trazia um ar de sofisticação e caos divertido para as férias.

— Parece que sim. Ela terminou o semestre na universidade e quer um tempo longe de Boston — disse Eliza, olhando significativamente para Abby. — E o Gus também. Susan disse que ele tem treinado como um louco e precisa de um descanso.

— Descanso? O Gus? — Anthony interveio, servindo-se de mais uma porção generosa. — A gente já combinou de treinar na praia todo dia às seis da manhã. Ele quer chegar na pré-temporada voando.

— Seis da manhã nas férias? Vocês são doentes — Abby murmurou, atraindo o riso do pai.

— Deixe os meninos, Abby — Daniel disse, com um brilho divertido nos olhos. — O verão é para gastar energia. E você, vai levar seu cavalete novo?

— Vou levar só os cadernos, pai. Quero focar em esboços rápidos. O Professor Thorne disse que eu preciso capturar o movimento das pessoas, não só paisagens estáticas.

— Movimento, hein? — Anthony provocou, lançando um olhar cúmplice para a irmã. — Tipo o movimento do Gus correndo sem camisa na areia?

Abby sentiu o sangue subir para o rosto com tanta força que temeu que suas sardas sumissem. Eliza e Daniel trocaram um olhar rápido, aquele tipo de comunicação silenciosa entre pais que percebem que o tempo de "crianças brincando na areia" tinha oficialmente ficado no passado.

— Anthony, deixe sua irmã em paz — Eliza disse, embora houvesse um sorriso contido em seus lábios. — Abby, se você quiser levar aquele vestido novo que compramos, eu já o lavei e deixei no seu armário.

— Obrigada, mãe — Abby respondeu, mantendo a cabeça baixa, focada intensamente em sua batata.

Após o jantar, a casa ficou em um silêncio produtivo. Daniel e Anthony foram para a garagem conferir a pressão dos pneus do carro e o óleo, uma conversa técnica que Abby ignorou solenemente. Ela subiu para o quarto e abriu o armário.

Lá estava ele. O vestido branco.

Não era nada exagerado, mas tinha algo na forma como o tecido de linho caía e no decote sutil que a fazia sentir-se... diferente. Menos como a "Cenourinha" e mais como uma mulher que sabia o que queria desenhar. Ela o colocou em cima da mala aberta.

Seus pensamentos voaram para o Gus de dezessete anos em Boston. Ele agora era um atleta, um líder, alguém que recebia comentários de dezenas de garotas. O medo de não ser "suficiente" para esse novo Gus tentou se instalar em seu peito, mas ela lembrou-se da foto do mar. "Contando os dias".

Ele não postara uma foto do time, ou de uma festa, ou de uma vitória. Ele postara o horizonte. O mesmo horizonte que ela desenhara aquela manhã na aula do Professor Thorne.

Abby caminhou até a janela e olhou para as luzes de Salem. Em algum lugar a poucos quilômetros dali, em Boston, Gus provavelmente estava fazendo o mesmo. A conexão entre eles não era mais apenas sobre constelações inventadas ou corridas na areia. Era algo mais denso, mais silencioso e muito mais perigoso.

Ela pegou seu caderno de desenhos e abriu em uma página em branco. Com traços rápidos, ela não desenhou um farol ou uma gaivota. Ela desenhou o contorno de um ombro forte, a curva de um maxilar e o brilho de olhos que ela sabia serem azuis, mesmo no grafite preto e branco.

— Duas semanas — ela sussurrou para o quarto vazio.

O verão dos dezesseis e dezessete anos estava prestes a começar.

Abby fechou o caderno e o colocou sob o travesseiro.

Desta vez, ela sabia: não haveria interrupções suficientes para protegê-la do que sentia.

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