4. A Proposta Indecente

Monteluz ficava mais longe do que Joaquim esperava.

A estrada subia a serra em curvas estreitas, cercada por árvores antigas que pareciam crescer inclinadas sobre o caminho, como se tentassem impedir a passagem dos vivos. A carruagem de aluguel o deixara no portão principal pouco depois do meio-dia, recusando-se a seguir além dali apesar do pagamento extra que Joaquim ofereceu com mãos trêmulas. O cocheiro nem sequer tentou disfarçar o incômodo ao olhar para os altos gradis de ferro, para o brasão dos Valença preso acima da entrada e para a alameda longa que desaparecia entre ciprestes.

— Eu espero na estrada por meia hora — disse o homem, sem encará-lo. — Depois disso, volto para a cidade.

Joaquim não perguntou por quê. Todos na região tinham alguma razão para não permanecer diante de Monteluz por tempo demais.

Ele atravessou o portão a pé, com o chapéu apertado entre as mãos e a mensagem de Silas dobrada no bolso interno do casaco. A cada passo, sentia o papel roçar contra o peito, lembrando-o de que o tempo não havia parado apenas porque ele encontrara um caminho. Clara continuava presa. Talvez estivesse com fome, talvez estivesse apavorada, talvez já tivesse entendido o que ele ainda tentava fingir que não era verdade: seu pai não a protegera do mundo. Seu pai a conduzira até ele.

A mansão surgiu aos poucos, primeiro como uma sombra entre as árvores, depois como uma construção imensa de pedra clara e janelas altas, rica demais para parecer acolhedora. Havia beleza ali, Joaquim precisou admitir, mas era uma beleza fria, sem riso, sem movimento, sem qualquer sinal de que uma família habitava aqueles salões. As cortinas estavam fechadas em quase todas as janelas, e as estátuas do jardim tinham o rosto coberto por musgo, como viúvas esquecidas no próprio luto. Mesmo o chafariz diante da entrada, largo e ornamentado, estava seco.

A casa parecia respirar apenas por obrigação.

Quem abriu a porta foi uma mulher de cabelos grisalhos presos com severidade na nuca, vestida de preto até o pescoço. Ela analisou Joaquim com olhos tão claros e firmes que ele teve a impressão desagradável de que toda a sua ruína estava escrita na lama das botas, no hematoma sob o olho e no tremor dos dedos.

— Pois não?

— Joaquim Moura — disse ele, tentando recompor a dignidade que já não possuía. — Preciso falar com o conde de Monteluz. É urgente.

— O conde não recebe visitas sem aviso.

— Eu sei. Mas é uma questão de vida ou morte.

A mulher não se moveu de imediato. Apenas o observou, e Joaquim entendeu que, naquela casa, nem o desespero passava pela porta sem ser examinado.

— A vida de quem? — ela perguntou.

A pergunta o atingiu com uma precisão cruel.

— Da minha filha.

Foi a primeira coisa dita naquele dia que pareceu produzir algum efeito. A mulher abriu a porta um pouco mais, não com gentileza, mas com decisão, e indicou o salão com um gesto contido.

— Espere aqui.

Joaquim entrou.

O interior de Monteluz era ainda mais silencioso do que o jardim. O salão tinha piso de mármore, paredes cobertas por retratos antigos e uma escadaria larga que subia em dois braços até uma galeria escura. Havia prata, madeira nobre, tapetes orientais, cristais sobre aparadores, riqueza suficiente para pagar a dívida de Silas cem vezes, talvez mil, e ainda assim nada ali parecia vivo. Até o ar tinha um cheiro parado, mistura de cera, papel antigo e flores cortadas havia tempo demais.

Enquanto esperava, Joaquim olhou para um retrato pendurado acima da lareira apagada. Mostrava um menino de talvez oito anos, sério, bonito, com olhos escuros e a mão pousada sobre o pescoço de um cão. O pintor dera ao rosto da criança uma nitidez quase cruel, como se quisesse preservar para sempre aquilo que o tempo ainda não havia destruído.

Antes que Joaquim pudesse se perguntar se aquele era Gabriel, passos ecoaram no corredor.

A mulher de preto voltou.

— O conde o receberá por alguns minutos. Meu nome é Beatriz. Nesta casa, o senhor falará com clareza, sem elevar a voz e sem desperdiçar o tempo dele.

Joaquim assentiu, embora não tivesse certeza de que ainda sabia falar com clareza. Seguiu-a por um corredor comprido, onde as janelas deixavam entrar uma luz filtrada e cinzenta. Em algum ponto distante, ouviu o som de uma porta se fechando; fora isso, nada. Nenhum riso de criado, nenhuma conversa, nenhum ruído doméstico que anunciasse uma casa em funcionamento. Monteluz tinha empregados, riqueza e ordem, mas não tinha intimidade.

Beatriz parou diante de portas duplas de madeira escura.

— Entre.

O gabinete do conde era grande, revestido de estantes que iam do chão ao teto. Uma escrivaninha pesada ocupava o centro da sala, coberta por documentos, mapas de terras e um tinteiro de prata. Junto à janela, de costas para a luz, estava Lorde Gabriel de Valença.

Joaquim soube que era ele antes mesmo que o homem se virasse.

Gabriel era alto, vestido com sobriedade impecável, e havia em sua postura uma rigidez que não parecia afetação, mas armadura. Quando se voltou, Joaquim tentou não olhar diretamente para a máscara e falhou. Ela cobria o lado esquerdo do rosto, descendo da testa até parte da face, presa por tiras discretas que desapareciam sob o cabelo escuro. O lado visível era bonito de um modo simples, com traços firmes, boca com linhas rigorosas e um olho escuro que parecia acostumado a registrar a repulsa alheia antes que ela se transformasse em palavra.

— Senhor Moura — disse Gabriel. — Dona Beatriz informou que sua filha corre perigo. Seja breve.

Não havia gentileza na voz dele, mas também não havia crueldade. Era uma voz controlada, baixa, quase cansada, como se Gabriel tivesse eliminado de si tudo o que pudesse ser desperdício.

Joaquim abriu a boca, mas o discurso que ensaiara durante a subida desapareceu. Diante daquele homem e daquela casa, a proposta pareceu ainda mais sórdida do que já era. Mesmo assim, a imagem de Clara trancada em algum quarto o empurrou para frente.

— Minha filha se chama Clara. Clara Moura. Tem vinte e dois anos. É uma moça honesta, educada, sabe ler, escrever, fazer contas, cuidar de uma casa. Ela...

A voz falhou.

Gabriel não se moveu.

— Não pedi uma ficha de apresentação.

Joaquim apertou o chapéu contra o peito.

— Eu tenho uma dívida.

O olhar de Gabriel esfriou um grau.

— Então veio ao lugar errado. Não financio vícios de homens desesperados.

— Não é para mim.

— Dívidas sempre são para quem as fez.

A frase poderia ter encerrado tudo. Joaquim sentiu a porta atrás de si como uma sentença, mas a lembrança da carta de Silas queimou em seu bolso, e ele soube que sair dali sem tentar seria o mesmo que assinar o desaparecimento de Clara.

— Silas Freire está com minha filha.

Pela primeira vez, Gabriel reagiu. Não foi um sobressalto, nem uma expressão de piedade, apenas uma pausa mínima entre uma respiração e outra. Ainda assim, em um homem tão controlado, aquilo pareceu quase violento.

— Está com ela como?

— Mandou levá-la ontem. Disse que ela é garantia. Se eu não pagar, ela desaparece.

Gabriel permaneceu em silêncio. Depois caminhou até a escrivaninha, não para se sentar, mas para apoiar uma das mãos sobre a madeira. A luz da janela tocou a borda da máscara e a transformou por um instante em algo mais duro, quase metálico, embora Joaquim não soubesse dizer se era ferro, couro escuro ou alguma peça feita sob medida para esconder o que ninguém deveria ver.

— E sua solução foi vir até mim — disse Gabriel.

Não era pergunta.

Joaquim engoliu em seco.

— Disseram-me que o senhor procura uma esposa.

A sala pareceu ficar menor.

Gabriel ergueu os olhos lentamente, e Joaquim sentiu, com uma vergonha quase física, que havia ultrapassado uma fronteira que talvez nem Silas Freire tivesse ousado atravessar.

— Quem lhe disse isso?

— Um conhecido.

— Naturalmente.

A palavra saiu sem alteração de tom, mas carregava anos de insultos, recusas e corredores onde pessoas falavam baixo demais para serem inocentes. Gabriel se afastou da escrivaninha e deu alguns passos na direção de Joaquim. Não havia ameaça no movimento. Ainda assim, Joaquim recuou.

— Então o senhor ouviu que a fera de Monteluz não consegue comprar uma noiva entre famílias respeitáveis e decidiu trazer sua própria mercadoria à minha porta.

— Não chame minha filha assim.

Gabriel parou.

Por um momento, os dois homens se encararam. Joaquim percebeu o absurdo de sua indignação assim que a sentiu. Mesmo assim, ouvi-la reduzida a mercadoria na boca de outro homem doeu como se a palavra fosse nova.

— O senhor a chamou assim antes de mim — disse Gabriel.

Joaquim baixou o olhar.

Não havia defesa possível.

— Eu não quero vendê-la.

— Mas está aqui.

— Quero salvá-la.

— Usando o casamento como moeda.

A precisão daquela acusação o fez estremecer. Joaquim pensou em Clara aos sete anos, somando números com cuidado, esperando que ele corrigisse os erros antes de fechar o livro. Pensou na mulher que ela se tornara, segurando a casa com mãos cansadas, aprendendo a desconfiar antes mesmo que ele tivesse coragem de ser honesto. Depois pensou no quarto trancado de Silas, nos portos, nos navios, nas moças sem família que desapareciam.

— Sim — disse ele, enfim. — Usando o que me resta.

Gabriel virou o rosto para a janela, e por alguns segundos o lado mascarado ficou oculto pela sombra. Joaquim esperou ser expulso. Esperou que Beatriz fosse chamada, que a porta se abrisse, que Monteluz se fechasse atrás dele como todas as outras portas da cidade.

Em vez disso, Gabriel perguntou:

— Sua filha sabe dessa proposta?

Joaquim não conseguiu responder de imediato.

A resposta, naturalmente, estava em sua cara.

Gabriel soltou uma respiração baixa, quase imperceptível.

— Então o senhor não veio negociar com a permissão dela. Veio me pedir que participe do crime de outro homem com uma forma mais elegante de violência.

A frase atravessou Joaquim, porque era verdade demais e, ao mesmo tempo, insuficiente. A moralidade parecia uma mesa farta diante de um homem morrendo de fome. Ele sabia que não tinha o direito de oferecer Clara, mas também sabia que, se não encontrasse dinheiro, talvez não houvesse Clara a quem pedir perdão.

— Se houver outro meio, eu aceito — disse Joaquim, a voz se quebrando apesar do esforço. — Eu assino dívida, contrato, servidão, trabalho nas suas terras até morrer. O senhor pode me mandar para qualquer lugar, pode tomar o meu nome, o que ainda resta dele, pode exigir o que quiser de mim. Mas Silas não quer a minha vida. Ele quer uma coisa que me faça obedecer.

Gabriel olhou para ele com uma frieza estranha, menos dura do que antes e talvez mais perigosa justamente por isso.

— E ele escolheu bem.

Joaquim fechou os olhos.

— Sim.

O silêncio voltou a ocupar o gabinete.

Do lado de fora, alguma árvore raspava os galhos contra a vidraça, e o som lembrou unhas arranhando madeira. Gabriel caminhou até a lareira apagada, onde outro retrato menor estava apoiado sobre o mármore. Joaquim não viu a imagem, apenas o modo como o conde permaneceu diante dela por um instante, rígido, como se a casa inteira o observasse esperando uma decisão.

Quando Gabriel falou de novo, sua voz não carregava compaixão. Carregava cálculo. Talvez fosse a única forma de misericórdia que ainda lhe restava.

— Se eu aceitar sequer considerar isso, não será porque seu pedido é aceitável.

Joaquim abriu os olhos.

— Meu lorde...

— Não agradeça. Ainda não fiz nada.

Gabriel voltou-se para ele, e o olho visível parecia mais escuro sob a sombra da máscara.

— Quanto? — perguntou.

Joaquim não entendeu.

— Perdão?

Gabriel sustentou o olhar dele sem piscar.

— Quanto custa salvar sua filha de Silas?

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