Mundo ficciónIniciar sesiónJoaquim Moura descobriu que três dias podiam durar menos do que uma noite.
Quando voltou para casa e não encontrou Clara, a primeira coisa que sentiu não foi surpresa, mas uma espécie de horror calmo, como se alguma parte dele já soubesse que a desgraça havia apenas cumprido o horário marcado. A mesa ainda estava do jeito que ela deixara pela manhã, com a xícara lavada virada sobre o pano, a cadeira empurrada para dentro e um pedaço de linha preso à manga do casaco que Clara remendara na véspera. Havia ordem naquela casa miserável, uma ordem pequena e teimosa que nunca fora obra dele, e perceber isso o feriu mais do que o corte aberto perto da sobrancelha. Clara sempre colocava as coisas no lugar. Mesmo quando menina, quando ainda usava tranças e vestidos herdados de primas distantes, ela alinhava os lápis antes de começar as contas que ele lhe ensinava depois do jantar. Joaquim lembrava-se dela sentada à mesa, os pés sem alcançar o chão, franzindo o cenho diante das colunas de números como se cada soma fosse uma questão moral. “Se eu errar, posso apagar?”, ela perguntava, segurando o lápis com força demais. E ele, ainda inteiro naquela época, ainda digno de ser chamado de pai, respondia que sim, que números permitiam correção, desde que a pessoa percebesse o erro antes de fechar o livro. Naquela noite, diante da casa vazia, Joaquim compreendeu que algumas contas não podiam mais ser apagadas. A mensagem de Silas chegou antes das oito, trazida por um rapaz que não teria mais de quinze anos e que se comportava com a naturalidade de quem entregava flores ou correspondências comerciais. O envelope era grosso, sem selo, e trazia apenas o nome de Joaquim escrito em letras inclinadas. Dentro, havia uma única folha. “Sua filha está bem. Por enquanto.” Joaquim leu a frase tantas vezes que as palavras perderam o sentido e se transformaram em manchas escuras sobre o papel. Havia mais, naturalmente: a confirmação do prazo, o valor da dívida, a recomendação de não procurar a polícia, a lembrança de que portos, estradas e cemitérios eram lugares onde pessoas desapareciam sem grande comoção pública. Mas foi aquela primeira linha que ficou cravada nele, porque a crueldade não estava na ameaça aberta, e sim naquele “por enquanto”, tão limpo, tão educado, tão definitivo. Ele saiu de casa antes que a noite terminasse. Procurou primeiro os homens de quem um dia fora próximo, quando ainda tinha emprego fixo, casaco decente e o hábito de pagar suas contas na data combinada. Bateu à porta do senhor Azevedo, antigo proprietário da casa comercial onde trabalhara como contador, e esperou na calçada até que um criado sonolento viesse dizer que o patrão não estava recebendo visitas. Joaquim insistiu, pediu apenas cinco minutos, tentou explicar que se tratava de sua filha, mas a porta se fechou com a discrição cruel das casas onde a vergonha dos outros não é permitida depois do jantar. No escritório de Brandão & Filhos, onde copiara livros-caixa por quase dez anos, o gerente o recebeu no corredor para evitar que ele entrasse. Disse que lamentava muito, que Clara era uma boa moça, que a situação era terrível, porém a firma não podia se envolver em assuntos de jogo, sobretudo quando Silas Freire estava no centro deles. Joaquim ouviu a palavra “assuntos” e quase riu, porque parecia impossível que o sequestro de sua filha coubesse dentro de um termo tão confortável. Depois vieram os parentes. Uma prima da falecida esposa chorou ao ouvi-lo, mas chorou de longe, com as mãos apertadas contra o xale, como se a miséria dele fosse contagiosa. Um cunhado que não o recebia havia anos lembrou, com uma pontualidade quase elegante, que Joaquim já havia pedido dinheiro antes e que nunca devolvera. Um sobrinho próspero, dono de uma pequena tipografia, ofereceu-lhe dez mil-réis e um conselho: entregar-se à polícia antes que arrastasse mais alguém para a própria lama. Joaquim aceitou o dinheiro. O conselho, não. Ao longo da manhã, a cidade pareceu encolher ao redor dele. Cada rua o devolvia a uma porta fechada, cada porta a um rosto constrangido, cada rosto à mesma verdade: ninguém daria a vida, a reputação ou uma quantia absurda por Joaquim Moura. Não importava que Clara estivesse em perigo. Clara, para aquelas pessoas, era uma pena lamentável presa a um homem sem crédito. Era o tipo de tragédia que todos comentariam com horror à mesa, antes de pedir que passassem o sal. Ao meio-dia, os sinos da igreja bateram com uma lentidão impiedosa. Joaquim parou no largo e sentiu as pernas falharem. Havia um jornal abandonado sobre um banco, molhado pela garoa fina que começara a cair, e por um instante ele ficou olhando para as letras borradas sem conseguir lê-las. O prazo diminuía a cada badalada. A cada minuto, Clara continuava trancada em algum quarto, talvez sentada em silêncio como costumava fazer quando estava furiosa demais para chorar. Ele quase preferia imaginá-la chorando. O choro pertencia à menina que ele conhecera. O silêncio, não. O silêncio pertencia à mulher que ele havia forçado a crescer. Lembrou-se de uma tarde de chuva, muitos anos antes, quando Clara tinha sete ou oito anos e acordara assustada com o barulho de uma discussão na rua. Havia subido em seu colo, ainda pequena o bastante para acreditar que o corpo do pai era uma fortaleza, e perguntara se alguém poderia levá-la embora. Joaquim, embalando a filha contra o peito, prometera que não. Prometera com a facilidade arrogante dos homens que nunca foram testados. Prometera que ninguém tocaria nela enquanto ele vivesse. Agora estava vivo. E alguém a havia levado. Foi Otávio quem o encontrou assim, sentado no banco, com os ombros curvados e a chuva entrando pelos punhos do casaco. Otávio Farias fora seu amigo em outra vida, antes dos jogos, antes das dívidas pequenas virarem dívidas vergonhosas e das vergonhosas se transformarem em medo. Era tabelião, homem de barba aparada e olhos cansados, com aquela respeitabilidade discreta de quem sabia coisas demais sobre famílias importantes para ainda acreditar nelas. — Joaquim? — chamou ele, aproximando-se com o guarda-chuva aberto. — Pelo amor de Deus, o que aconteceu com você? Joaquim tentou levantar, mas não conseguiu de primeira. Quando enfim ficou de pé, percebeu pelo rosto de Otávio que sua aparência já explicava metade da história. A outra metade saiu aos pedaços, entre engasgos, justificativas inúteis e confissões que pareciam menores do que a culpa. Falou de Silas. Falou da dívida. Falou de Clara. Otávio não o interrompeu. Isso foi pior. Quando Joaquim terminou, o amigo antigo ficou em silêncio por tempo suficiente para que os sinos da igreja terminassem de marcar a hora. Depois fechou os olhos, como alguém que procurava uma solução entre possibilidades indecentes. — Quanto? — perguntou. Joaquim disse o valor. Otávio empalideceu. — Não há empréstimo comum que cubra isso em três dias. — Eu sei. — Nem venda de casa, nem penhor, nem favor de parente. Silas sabia exatamente o que estava fazendo quando estipulou esse prazo. — Eu sei — repetiu Joaquim, e dessa vez sua voz saiu tão baixa que quase se perdeu na chuva. — Mas você conhece gente. Famílias. Homens ricos. Alguém que precise de um contador, de um favor, qualquer coisa. Eu trabalho o resto da vida. Eu assino o que for preciso! Otávio olhou para ele com uma tristeza dura, sem piedade suficiente para mentir. — Você não tem o que oferecer, Joaquim. A frase deveria tê-lo derrubado, mas ele já estava no chão havia muito tempo. Ainda assim, alguma coisa dentro dele se contraiu, porque ouvir a verdade em voz alta tinha uma brutalidade própria. — Eu tenho minha filha para salvar. Otávio desviou o olhar. Foi um gesto pequeno, quase nada, porém Joaquim o percebeu com a atenção desesperada de quem procura qualquer abertura em uma parede lisa. O amigo sabia de algo. Ou pensava em algo. E aquilo o assustava. — O que foi? — Nada. — Otávio. O tabelião suspirou e conduziu Joaquim para baixo da marquise de uma confeitaria fechada, longe do fluxo de pessoas que atravessavam o largo. Por alguns segundos, apenas observou a chuva riscando o ar entre eles, como se precisasse escolher as palavras com o cuidado de quem manuseia veneno. — Há um homem — disse enfim. — Muito rico. Mais rico do que quase todos nesta província, embora a fortuna dele esteja enterrada em terras, fábricas, títulos antigos e naquela casa maldita no alto da serra. Joaquim franziu a testa. — Quem? — Gabriel de Valença. Conde de Monteluz. O nome atravessou Joaquim como um vento frio. Todos conheciam o conde de Monteluz, embora quase ninguém o visse. Conheciam os boatos, sobretudo os boatos, porque homens escondidos davam à cidade o prazer de inventá-los. Diziam que Gabriel de Valença sobrevivera a um incêndio quando menino, que metade de seu rosto ficara marcada, que usava uma máscara de metal escuro presa junto à pele, que vivia isolado em uma propriedade enorme onde criados eram pagos para não falar. Alguns juravam que ele enlouquecera depois da tragédia. Outros diziam que era cruel, que quebrava espelhos, que não suportava crianças, que animais fugiam ao vê-lo. Joaquim nunca acreditara em tudo, mas também nunca precisara acreditar. A monstruosidade dos outros sempre parecera uma informação distante quando não havia pão faltando em sua mesa. — O que ele tem a ver com Clara? Otávio apertou a boca. — Ele procura uma esposa. Joaquim encarou o amigo, sem compreender de imediato, ou compreendendo tão depressa que o próprio corpo se recusou a aceitar. — Uma esposa? — Há meses, talvez anos. Nenhuma família aceita. As nobres recusam por medo ou orgulho, as ricas sem título recusam por nojo disfarçado de prudência, e as pobres o bastante para considerar a proposta temem entregar uma filha a um homem que todos chamam de fera. Joaquim sentiu a chuva escorrer pela nuca, gelada. — Por que ele precisa tanto se casar? — Porque precisa de um herdeiro legítimo. Se morrer sem descendência, Monteluz passa para Teodoro de Valença, e há muita gente que considera essa possibilidade pior do que qualquer máscara no rosto de Gabriel. O nome Teodoro significava menos para Joaquim do que deveria, mas a expressão de Otávio bastou para indicar que não se tratava de um primo inconveniente qualquer. Ainda assim, nada daquilo parecia uma solução. Parecia outra porta, e atrás dela havia uma escuridão diferente. — Você está sugerindo que eu peça dinheiro a ele? Otávio demorou um instante a responder. — Estou dizendo que Gabriel de Valença tem dinheiro, urgência e uma necessidade que nenhuma família respeitável quis atender. Joaquim recuou como se tivesse sido empurrado. A sugestão se formou inteira antes que Otávio a dissesse, e foi justamente por isso que ela pareceu tão obscena. Clara, sentada na mesa da cozinha com os dedos manchados de tinta. Clara remendando seu casaco sem reclamar. Clara perguntando, aos sete anos, se alguém poderia levá-la embora. Clara, agora trancada em um quarto por causa dele, transformada em garantia por um criminoso e em possibilidade por um conde que ninguém aceitava. — Não — disse Joaquim, mas a palavra saiu fraca demais para ser uma decisão. Otávio não insistiu. Não precisava. O prazo insistia por ele. Ao longe, outro sino bateu a meia hora. Joaquim olhou para o papel amassado dentro do bolso, onde a mensagem de Silas parecia pesar mais do que chumbo, e compreendeu com um terror lento que havia caminhos tão indignos que um homem decente jamais consideraria. O problema era que ele já não sabia se ainda tinha o direito de se chamar assim. — Onde fica Monteluz? — perguntou. Otávio fechou os olhos por um instante, e Joaquim soube que, naquele exato momento, algum pedaço final de sua paternidade acabava de ser vendido antes mesmo de chegar ao preço.






