2. Garantia

Clara não correu de imediato, e depois odiaria a si mesma por isso.

Havia uma diferença cruel entre perceber o perigo e acreditar que ele realmente se dirigia a você. Durante alguns segundos, enquanto os dois homens a observavam do outro lado da rua, ela ainda tentou convencer a si mesma de que havia alguma explicação menos terrível. Talvez fossem apenas capangas da casa de jogos, talvez estivessem ali para assustá-la, talvez quisessem apenas garantir que Joaquim Moura entendera a gravidade do recado. A razão dela, treinada por anos de contas mal pagas e promessas quebradas, procurava uma saída lógica antes que o medo tomasse o corpo inteiro.

Então o homem que fumava atravessou a rua.

Clara apertou a bolsa contra o peito e se afastou da marquise da farmácia, misturando-se a duas senhoras que caminhavam com sombrinhas claras apesar do céu nublado. O movimento da avenida deveria protegê-la. Havia cocheiros discutindo perto do ponto de carruagens, um vendedor de jornais gritando manchetes sobre política e escândalos aristocráticos, crianças correndo junto ao meio-fio, o rangido dos bondes puxados por cavalos cortando a manhã. Ninguém sequestraria uma mulher em plena rua, pensou Clara, e essa certeza desesperada durou apenas até a primeira esquina.

Ela dobrou pela Rua do Carmo para encurtar o caminho até em casa, como fazia sempre que precisava evitar a praça principal e as vitrines onde não podia comprar nada. Foi seu erro. A rua era mais estreita, ladeada por fachadas antigas, depósitos fechados e portas de serviço que davam para cozinhas de pensões baratas. Quando ouviu passos atrás de si, Clara apertou o ritmo, fingindo não notar. Quando os passos também aceleraram, ela já sabia.

Uma mão segurou seu braço.

Clara virou-se com força e acertou a bolsa no rosto do homem que vinha atrás dela. A fivela de metal raspou a maçã do rosto dele, e o sujeito soltou um palavrão baixo, mais surpreso do que ferido. Ela tentou gritar, mas o outro apareceu pela lateral e cobriu sua boca com uma luva escura que cheirava a tabaco, couro molhado e alguma colônia enjoativa. Clara mordeu. Mordeu até sentir gosto de sangue, até o homem praguejar por entre os dentes e apertar o pano com mais brutalidade.

— Quietinha, senhorita Moura — ele sussurrou junto ao ouvido dela. — O patrão pediu para não machucar, mas não pediu para a gente apanhar calado.

Ela tentou cravar os saltos no chão, mas a rua estava úmida e suas botas gastas escorregaram nas pedras. Um coche parado junto à calçada abriu a porta no instante exato em que a empurraram para dentro. Clara bateu o ombro contra o assento, tentou se levantar, mas o primeiro homem entrou atrás dela e segurou seus pulsos. O outro sentou-se de frente, pressionando um lenço contra a mão mordida, os olhos pequenos cheios de irritação.

A porta se fechou.

O coche partiu.

Por alguns minutos, Clara lutou mais por raiva do que por esperança. Tentou puxar as mãos, tentou chutar, tentou alcançar a maçaneta, mas cada movimento apenas a fazia perceber com maior clareza a diferença entre sua força e a força daqueles homens. O que mais a apavorou não foi a violência, mas a eficiência. Eles não estavam nervosos. Não improvisavam. Tinham feito aquilo antes, talvez muitas vezes, e a cidade continuava seguindo lá fora, com seus jornais, suas vitrines e seus cavalos, como se mulheres fossem engolidas pelas ruas todos os dias sem que ninguém se importasse.

Quando parou de se debater, estava ofegante. O homem mordido a observava com um rancor contido.

— Seu pai deveria ter lhe ensinado modos.

Clara ergueu o queixo, embora o coração batesse tão forte que parecia bater contra o estômago.

— Meu pai me ensinou a não entrar em carruagens com criminosos!

O capanga sorriu de lado.

— Pelo que ouvi dizer, seu pai não ensinou muita coisa que prestasse.

A frase a atingiu de um modo vergonhoso, porque havia verdade demais nela para que Clara conseguisse transformá-la em simples insulto. Ela virou o rosto para a janela, mas as cortinas internas estavam fechadas. O mundo se reduziu ao balanço do coche, ao cheiro de couro velho e ao som abafado das rodas sobre as pedras. Tentou contar as curvas, os minutos, a inclinação das ruas, qualquer coisa que pudesse ajudá-la depois, mas a cidade se confundiu depressa em sua cabeça, como se o medo embaralhasse até a geografia.

Quando o coche enfim parou, Clara foi retirada por uma porta lateral, não pela entrada principal. Viu apenas uma fachada escura, uma chapelaria com letras descascadas na vitrine, e depois um corredor estreito que cheirava a madeira encerada, fumaça de charuto e perfume caro demais para um lugar honesto. Havia música em algum ponto distante, uma valsa tocada em piano desafinado, misturada a vozes masculinas, risadas e ao som seco de fichas sendo empilhadas sobre mesas.

A casa de Silas Freire não parecia um covil. Esse foi o primeiro pensamento absurdo de Clara.

Não havia correntes penduradas nas paredes, nem sangue no chão, nem homens aos berros como nos folhetins baratos que as moças liam escondidas. Havia tapetes espessos, cortinas de veludo vinho, espelhos grandes demais para corredores tão estreitos e criados que abaixavam os olhos ao vê-la passar. Aquela aparência de respeitabilidade clandestina lhe pareceu pior do que qualquer sujeira. O crime, ali, não precisava se esconder na miséria; ele se vestia bem, bebia conhaque e mandava gravar cartões de visita.

Levaram-na a uma sala no segundo andar.

Silas Freire estava sentado atrás de uma escrivaninha, lendo um jornal.

Era um homem de quarenta e poucos anos, talvez mais, embora se conservasse com o cuidado vaidoso de quem temia parecer comum. Usava um terno escuro perfeitamente ajustado, abotoaduras de ouro e um bigode fino, aparado com precisão. Quando Clara entrou, ele dobrou o jornal com calma, como se tivesse sido interrompido durante o café da manhã, não durante um sequestro.

— Senhorita Moura — disse ele, levantando-se. — Lamento a inconveniência.

Clara olhou para os homens atrás dela, depois para Silas.

— Inconveniência é uma palavra curiosa para usar quando se manda agarrar uma mulher na rua.

Silas sorriu, e o sorriso dele não alcançou os olhos.

— Gosto de pessoas que escolhem bem as palavras, portanto aceito a correção. Ainda assim, prefiro que não pense nisto como um sequestro.

— Como devo pensar?

— Como uma retenção temporária de garantia.

Por um instante, Clara apenas o encarou. A frase era tão monstruosa, dita com tanta polidez, que ela sentiu o nojo subir antes do medo.

— Eu sou uma pessoa.

— Sem dúvida. Uma pessoa pela qual Joaquim Moura, espera-se, ainda nutre algum apego.

Aquela delicadeza venenosa fez Clara entender que Silas Freire não levantaria a voz porque não precisava. Homens como ele mandavam outros baterem, arrastarem e matarem, depois limpavam as mãos em guardanapos de linho.

— Meu pai não tem o dinheiro.

— Eu sei.

A resposta foi rápida demais. Clara sentiu a garganta secar.

— Então por que fez isso?

Silas caminhou até uma bandeja de prata e serviu-se de um cálice pequeno. Não ofereceu nada a ela, e Clara ficou grata, porque preferiria quebrar o copo contra a parede a aceitar qualquer gentileza daquele homem.

— Porque homens endividados se tornam criativos quando finalmente compreendem que algo precioso está em risco. Até ontem, seu pai achava que eu queria apenas dinheiro. Hoje, saberá que quero pagamento.

— Ele não vai conseguir.

— Talvez não sozinho.

Silas bebeu um gole e a estudou com uma atenção que fez Clara desejar estar coberta por qualquer coisa mais espessa do que o vestido simples de algodão azul que usara para procurar trabalho. Era um olhar avaliativo, não lascivo, e de algum modo isso a humilhou ainda mais. Ele a media como se calculasse peso, procedência e utilidade.

— O senhor vai matá-lo? — ela perguntou, odiando a própria voz por tremer.

— Se a dívida não for paga, seu pai deixará de ser meu principal aborrecimento.

Clara ficou imóvel.

Silas pousou o cálice na bandeja.

— Mandarei uma mensagem a Joaquim Moura. Ele terá até o fim do prazo combinado. Caso encontre uma solução, a senhorita volta para casa sem maiores danos. Caso não encontre, a cidade é grande, os portos são cheios de navios e moças sem família costumam desaparecer com uma facilidade lamentável.

O quarto pareceu perder o ar.

Clara deu um passo na direção dele, mas os homens atrás se moveram também, e ela parou antes que tocassem nela de novo. A raiva vinha em ondas, abrindo espaço dentro do medo, queimando por baixo da pele.

— Ele é um covarde — disse ela. — Mas eu não sou dívida dele!

— Não — concordou Silas, com uma serenidade quase gentil. — É por isso que funciona.

Clara não respondeu. Havia respostas que só serviam para entreter homens cruéis.

Silas fez um gesto para os capangas, e um deles abriu a porta.

— Será instalada em um quarto confortável. Trancado, naturalmente, porque a senhorita já demonstrou possuir um temperamento inconveniente. Recomendo que descanse, pois as próximas horas podem decidir mais do que imagina.

Levaram-na pelo corredor até uma porta no fim da ala. O quarto era pequeno, mas limpo, com uma cama estreita, uma bacia de porcelana, uma cômoda vazia e uma janela alta demais para ser alcançada sem arrastar algum móvel. Clara ouviu a chave girar na fechadura assim que entrou.

Durante algum tempo, permaneceu de pé no centro do quarto.

Depois foi até a porta e tentou abri-la, embora soubesse que não abriria. Bateu com o punho uma vez, duas, três, até a dor subir pelos dedos. Ninguém respondeu. A casa seguia viva do outro lado, cheia de passos, risos e música, e Clara entendeu com uma nitidez insuportável que sua prisão não interromperia a noite de ninguém.

Sentou-se na cama apenas quando as pernas falharam.

A primeira lágrima veio de medo. A segunda, de raiva. As seguintes vieram de uma dor mais funda, mais antiga, que tinha o rosto de Joaquim Moura chegando em casa com promessas mansas e bolsos vazios. Clara sempre soubera que o vício do pai destruíra a mobília, o nome da família, as economias da mãe, os vestidos que ela vendera um a um, a possibilidade de um futuro menos apertado. O que nunca compreendera, até aquele quarto trancado, era que ele também destruíra sua segurança.

A casa deles nunca fora proteção.

Fora apenas o lugar onde a ruína esperava por ela.

Quando a noite caiu, Clara ouviu passos pararem diante da porta. Prendeu a respiração, esperando a chave, mas o que veio foi a voz de Silas, baixa e perfeitamente cordial do lado de fora.

— A mensagem já foi enviada, senhorita Moura. Agora veremos se seu pai ainda se lembra do valor de uma filha.

E, pela primeira vez desde que fora arrastada para dentro da carruagem, Clara não teve certeza se queria que Joaquim viesse salvá-la.

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