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Capítulo 4 – A Casa Estranha

Angel

O ar daquela noite estava diferente. Pesado. Parado, como se o tempo tivesse esquecido de correr.

O relógio da parede marca quase nove horas quando ouço o som da porta da frente se abrir. Meu pai entra. O ruído de seus sapatos no piso ecoa vazio, medido, mas sem pressa. Sempre que ele chega nesse horário, quase posso adivinhar o cheiro antes de vê-lo, uísque caro misturado a algo forte e amargo, como culpa.

Mas hoje tem algo diferente no ar. Ele larga as chaves sobre a mesa de centro e tira o casaco com movimentos calculados. Os olhos dele passam por mim rápido demais, frios, sem me enxergar de verdade.

— Pai? — minha voz sai baixa, hesitante. — Tudo bem?

Ele me ignora. Enche um copo com uísque e se senta no sofá. O som do líquido caindo na borda do cristal é o único ruído que preenche a sala. Então, sem me olhar, ele chama:

— Alice. Esmeralda.

As duas funcionárias aparecem no mesmo instante, uma ao lado da outra. O rosto preocupado de Alice, o olhar incerto de Esmeralda. Ele não levanta o olhar, apenas dá uma ordem seca:

— Vão até o quarto da Angel, entrem no closet.

As duas se entreolham, confusas.

— Empacotem tudo. Agora. — ele diz, sem levantar a voz.

Minhas mãos gelam.

— O quê? — pergunto, sem acreditar que ouvi direito. — Pai… o que está acontecendo?

Nenhuma resposta. Ele vira o copo de uma só vez, como se cada gole apagasse mais um pedaço dele.

— Pai, olha pra mim! — insisto, dando um passo à frente. — Onde eu vou? Por quê está mandando empacotar minhas coisas?

Nada. Ele se serve de mais uísque, a testa brilhando sob a luz do lustre. O cheiro de bebida toma o ar, pesado, sufocante.

Alice e Esmeralda me olham, hesitantes.

— Senhor Heitor, tem certeza de que…

— Eu disse agora. — ele corta, a voz ríspida.

As duas desaparecem apressadas pelas escadas.

Minhas pernas tremem. Eu queria acreditar que é um mal-entendido, algum surto passageiro, algo que ele vai explicar em minutos. Mas ele continua ali, sentado, com o mesmo olhar vazio, como se eu nem existisse naquela sala.

Ouço o eco das gavetas sendo abertas lá em cima. O som dos cabides rangendo dentro do closet. Minhas roupas sendo arrancadas sem cuidado, o zíper das malas correndo. Cada barulho desses dói como se arrancassem um pedaço da minha pele.

— Pai... — sussurro, com a voz quase quebrando. — Por favor, me diz o que está acontecendo.

Ele continua olhando para o copo com tanto foco que parece ver o fundo dele como um abismo particular.

Eu me aproximo, ajoelho à frente dele, tentando forçar o contato com os olhos. Mas quando o rosto dele encontra o meu, tudo o que vejo é um deserto. Nenhum sentimento, nenhuma faísca do homem que um dia me ensinou a nadar, que ria das minhas histórias, que me chamava de “minha pequena”.

— Você está me assustando… — eu digo, tentando conter o choro.

Ele leva o copo à boca e bebe, ignorando completamente o que acabou de ouvir. Por dentro eu sinto o medo crescer, uma coisa viva que se espalha no peito. A sensação de que algo horrível está prestes a acontecer.

E então, a campainha toca. Um som grave, metálico, que corta o ar. Meu pai recosta no sofá, exala um suspiro profundo e fecha os olhos por um segundo, como quem esperava por esse momento.

— Pai, quem é? — pergunto, o coração acelerando.

Sem responder, ele estende o copo vazio, observa o brilho do cristal, e deixa o silêncio me torturar. O som dos passos ecoa do corredor. Alguém cruza a porta da frente antes mesmo que a funcionária possa pedir para esperar.

E, quando vejo aquele homem entrar, o chão parece fugir sob meus pés. Ele é mais alto do que qualquer um que eu já tenha visto. Alto, 1,96 talvez. O tipo de presença que faz o ambiente ceder.

O terno escuro parece moldado ao corpo dele, o relógio no pulso brilha sob a luz, o olhar é tão frio e calculado que me atravessa.

— Boa noite, senhor Sanchez. — ele diz, com a voz grave, controlada, porém cortante. Cada sílaba sai polida, mas carregada de poder. — Vim buscar o que é meu.

O som da voz dele é uma mistura de ferro e veludo. Um tom sereno que provoca arrepio. Meu corpo inteiro endurece. Meu pai se limita a balançar a cabeça, sem sequer levantar do sofá.

— Está tudo arrumado — diz meu pai, como se falasse de uma remessa de mercadoria.

O homem de terno volta o olhar para mim. E quando o faz, sinto o ar sumir dos meus pulmões. O nome dele cai na minha mente antes mesmo que ele o pronuncie. Eu o conheço das revistas, das notícias, dos boatos. O magnata. O homem que construiu um império. O mesmo que dizem que arrasa concorrentes com um sorriso.

Damon Laurent.

O Ceo que comprou a maior de Boston. O homem que não erra. E que, diante de mim, parece mais sombra do que carne.

Atrás dele, entram alguns seguranças. Homens uniformizados, expressão neutra, postura firme. Eles se espalham como se a casa fosse deles.

Meu instinto grita. Damon dá um passo em minha direção. O coração b**e tão alto que parece ecoar pelo salão.

Meu pai não olha pra mim, não diz uma palavra. Apenas leva o copo aos lábios novamente, como se quisesse apagar o som da minha voz com mais álcool.

Ele não se move. E é aí que eu percebo… aquele homem não me pertence mais. Ele está vazio. Morto por dentro.

A sala parece encolher. Damon continua ali, parado, observando tudo com a calma de quem já venceu. E eu não tenho ideia do que vai acontecer.

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