Mundo de ficçãoIniciar sessãoAngel
O ar daquela noite estava diferente. Pesado. Parado, como se o tempo tivesse esquecido de correr. O relógio da parede marca quase nove horas quando ouço o som da porta da frente se abrir. Meu pai entra. O ruído de seus sapatos no piso ecoa vazio, medido, mas sem pressa. Sempre que ele chega nesse horário, quase posso adivinhar o cheiro antes de vê-lo, uísque caro misturado a algo forte e amargo, como culpa. Mas hoje tem algo diferente no ar. Ele larga as chaves sobre a mesa de centro e tira o casaco com movimentos calculados. Os olhos dele passam por mim rápido demais, frios, sem me enxergar de verdade. — Pai? — minha voz sai baixa, hesitante. — Tudo bem? Ele me ignora. Enche um copo com uísque e se senta no sofá. O som do líquido caindo na borda do cristal é o único ruído que preenche a sala. Então, sem me olhar, ele chama: — Alice. Esmeralda. As duas funcionárias aparecem no mesmo instante, uma ao lado da outra. O rosto preocupado de Alice, o olhar incerto de Esmeralda. Ele não levanta o olhar, apenas dá uma ordem seca: — Vão até o quarto da Angel, entrem no closet. As duas se entreolham, confusas. — Empacotem tudo. Agora. — ele diz, sem levantar a voz. Minhas mãos gelam. — O quê? — pergunto, sem acreditar que ouvi direito. — Pai… o que está acontecendo? Nenhuma resposta. Ele vira o copo de uma só vez, como se cada gole apagasse mais um pedaço dele. — Pai, olha pra mim! — insisto, dando um passo à frente. — Onde eu vou? Por quê está mandando empacotar minhas coisas? Nada. Ele se serve de mais uísque, a testa brilhando sob a luz do lustre. O cheiro de bebida toma o ar, pesado, sufocante. Alice e Esmeralda me olham, hesitantes. — Senhor Heitor, tem certeza de que… — Eu disse agora. — ele corta, a voz ríspida. As duas desaparecem apressadas pelas escadas. Minhas pernas tremem. Eu queria acreditar que é um mal-entendido, algum surto passageiro, algo que ele vai explicar em minutos. Mas ele continua ali, sentado, com o mesmo olhar vazio, como se eu nem existisse naquela sala. Ouço o eco das gavetas sendo abertas lá em cima. O som dos cabides rangendo dentro do closet. Minhas roupas sendo arrancadas sem cuidado, o zíper das malas correndo. Cada barulho desses dói como se arrancassem um pedaço da minha pele. — Pai... — sussurro, com a voz quase quebrando. — Por favor, me diz o que está acontecendo. Ele continua olhando para o copo com tanto foco que parece ver o fundo dele como um abismo particular. Eu me aproximo, ajoelho à frente dele, tentando forçar o contato com os olhos. Mas quando o rosto dele encontra o meu, tudo o que vejo é um deserto. Nenhum sentimento, nenhuma faísca do homem que um dia me ensinou a nadar, que ria das minhas histórias, que me chamava de “minha pequena”. — Você está me assustando… — eu digo, tentando conter o choro. Ele leva o copo à boca e bebe, ignorando completamente o que acabou de ouvir. Por dentro eu sinto o medo crescer, uma coisa viva que se espalha no peito. A sensação de que algo horrível está prestes a acontecer. E então, a campainha toca. Um som grave, metálico, que corta o ar. Meu pai recosta no sofá, exala um suspiro profundo e fecha os olhos por um segundo, como quem esperava por esse momento. — Pai, quem é? — pergunto, o coração acelerando. Sem responder, ele estende o copo vazio, observa o brilho do cristal, e deixa o silêncio me torturar. O som dos passos ecoa do corredor. Alguém cruza a porta da frente antes mesmo que a funcionária possa pedir para esperar. E, quando vejo aquele homem entrar, o chão parece fugir sob meus pés. Ele é mais alto do que qualquer um que eu já tenha visto. Alto, 1,96 talvez. O tipo de presença que faz o ambiente ceder. O terno escuro parece moldado ao corpo dele, o relógio no pulso brilha sob a luz, o olhar é tão frio e calculado que me atravessa. — Boa noite, senhor Sanchez. — ele diz, com a voz grave, controlada, porém cortante. Cada sílaba sai polida, mas carregada de poder. — Vim buscar o que é meu. O som da voz dele é uma mistura de ferro e veludo. Um tom sereno que provoca arrepio. Meu corpo inteiro endurece. Meu pai se limita a balançar a cabeça, sem sequer levantar do sofá. — Está tudo arrumado — diz meu pai, como se falasse de uma remessa de mercadoria. O homem de terno volta o olhar para mim. E quando o faz, sinto o ar sumir dos meus pulmões. O nome dele cai na minha mente antes mesmo que ele o pronuncie. Eu o conheço das revistas, das notícias, dos boatos. O magnata. O homem que construiu um império. O mesmo que dizem que arrasa concorrentes com um sorriso. Damon Laurent. O Ceo que comprou a maior de Boston. O homem que não erra. E que, diante de mim, parece mais sombra do que carne. Atrás dele, entram alguns seguranças. Homens uniformizados, expressão neutra, postura firme. Eles se espalham como se a casa fosse deles. Meu instinto grita. Damon dá um passo em minha direção. O coração b**e tão alto que parece ecoar pelo salão. Meu pai não olha pra mim, não diz uma palavra. Apenas leva o copo aos lábios novamente, como se quisesse apagar o som da minha voz com mais álcool. Ele não se move. E é aí que eu percebo… aquele homem não me pertence mais. Ele está vazio. Morto por dentro. A sala parece encolher. Damon continua ali, parado, observando tudo com a calma de quem já venceu. E eu não tenho ideia do que vai acontecer.






