Resolvido?

Will se virou e deixou Carl, que ficou petrificado quando se deu conta do que acabara de dizer. A sala estava vazia, a porta permanecia aberta, e o pedido de demissão ainda continuava sobre a mesa.

Lucy acordou. Franziu a testa ao se mover. O corpo todo doía. Tomou um banho demorado. Inconscientemente, parecia querer tirar qualquer resquício de Carl de seu corpo.

Desceu a escada, pegou o café e o celular. Abriu sua conta bancária. Havia uma quantia suficiente para uma vida mais simples, em um apartamento pequeno, não no centro, pelo menos por algum tempo, até conseguir um emprego.

O telefone vibrou em sua mão.

Era Jessi.

Lucy não havia ligado para ela. Não contou sobre a promoção e, certamente, agora Jessi estava ligando para parabenizá-la.

— Bom dia, flor do dia. — disse a animada Jessi, depois de virar a noite em um plantão no Hospital Central.

— Bom dia, Jessi. Você não estava de plantão?

— Estava. E foi ótimo, muito animado. Dois acidentes, um bêbado em coma alcoólico e uns três partos. E a sua noite deve ter sido mais animada que a minha, suponho. Me conte. E a promoção?

— Não consegui. — Lucy tentou parecer tranquila.

— Como assim? Você está brincando?

— Não.

Jessi não acreditava. Trocara mensagens com Lucy várias vezes durante os intervalos do plantão. Era tarde da noite, madrugada... Lucy havia se dedicado tanto.

— Mas...

Jessi não sabia o que dizer.

— Esqueça. Está tudo bem.

— Não está. Você sempre diz que está, mas não está. É aquela mulher de novo?

— Não, Jessi. Não é ela. É a empresa e... bem... foi uma decisão da diretoria.

— Diretoria da qual seu marido é o presidente.

— Não quero nada que não seja por mérito.

— Você acha que não merecia?

— Não importa o que eu ou você achamos, não é mesmo? Vá descansar. Eu tenho algumas coisas para fazer.

As duas se despediram.

Pela janela da cozinha, Lucy viu a oficina nos fundos do quintal. Abriu a porta e caminhou até ela. Observou a luminosidade que entrava pela janela e começou a remover algumas caixas.

Seu telefone tocou novamente.

— Lucy?

— Sim, Carl.

— Por que não almoçamos juntos? Pedirei ao motorista para buscá-la.

— Não precisa. Só me mande o horário e o local. Posso ir até lá.

Carl cerrou as mãos. Achou que, depois da noite que passaram juntos, Lucy esqueceria o que acontecera. Mas ela falava com ele como se estivessem tratando de um encontro comercial.

— Está bem.

Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, ouviu a ligação ser encerrada.

Não havia mais um "estou ansiosa", um "até mais, Carl" acompanhado de um sorriso.

Lucy deixou o telefone sobre a bancada e olhou em volta. Ia precisar de algumas coisas. Então, depois que almoçasse com Carl, iria às compras.

O restaurante que Carl escolheu ficava nas proximidades da empresa, em uma das regiões mais nobres do centro da cidade.

Lucy escolheu algo confortável para as compras: um vestido claro e fresco. Prendeu os cabelos nas laterais, deixando apenas a franja emoldurar o rosto. Quem a visse jamais pensaria que ela já fora uma executiva.

Bem, agora não era mais.

Estacionou o carro e, ao descer, viu Carl caminhando em sua direção.

Os olhos escuros, sempre tão analíticos, pareciam mais suaves naquele dia. Nas mãos, ele trazia um pequeno buquê de margaridas brancas.

Por um instante, Lucy voltou aos tempos da faculdade, quando ele a esperava na saída das aulas com aquele mesmo sorriso confiante e as mesmas flores.

Respirou fundo e caminhou ao encontro dele.

Carl parou à sua frente sem dizer nada. Ergueu a mão e afastou delicadamente um dos fios de cabelo que caía ao lado do rosto dela.

O toque fez a pele de Lucy arrepiar. Não era vergonha. Tampouco desejo. Era apenas uma sensação estranha, um sentimento que ela já não sabia nomear.

Ela se afastou. Não de forma brusca, mas Carl percebeu.

Antes, ela teria passado os braços em volta de seu pescoço ou segurado a lapela do paletó e o beijado antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa.

Ele estendeu o pequeno buquê de margaridas.

Lucy o recebeu com delicadeza.

Os dedos dos dois se tocaram por um breve instante, e ela pareceu se assustar.

Aquilo era estranho para Carl.

Parecia o primeiro encontro.

Ele já não conseguia sentir a intimidade que existira entre eles durante os primeiros anos de relacionamento.

Agora, Lucy parecia tratá-lo como um estranho, sempre cautelosa, cheia de reservas.

— Vamos? Você deve estar com fome.

Ela apenas assentiu.

Caminharam lado a lado até o restaurante, Lucy segurando discretamente as margaridas.

Carl havia reservado uma mesa junto à janela. Ela sempre gostara daquele lugar.

Puxou a cadeira para que ela se sentasse.

— Obrigada.

Ela agradeceu com educação, mas havia algo mecânico em sua voz, como quem cumpria apenas uma formalidade.

Carl sentou-se à sua frente e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu a autoconfiança vacilar.

Nunca imaginara que seria tão difícil almoçar com a própria esposa.

O garçom aproximou-se, cumprimentou os dois e entregou os cardápios.

— O que você quer comer?

— Eu...

Lucy foi interrompida pelo som de passos apressados.

— Carl? Lucy?

A voz de Olivia ecoou pelo salão.

Lucy levantou os olhos.

Olivia já estava ao lado da mesa.

Instintivamente, voltou o olhar para Carl.

— Lucy, por favor, não brigue com o Carl. O resultado e o jantar... Meus pais só queriam agradecer a ele e...

Lucy permaneceu em silêncio.

Não havia nada para responder.

Naquele instante, a imagem de Carl nomeando Olivia diante de todos voltou com força à sua memória, seguida da mesma sensação dolorosa de abandono e injustiça que a consumira naquele dia.

Carl adiantou-se antes que Olivia continuasse.

— Está tudo bem, Olivia. Já está tudo resolvido.

Assim que ouviu aquelas palavras, Lucy voltou lentamente o rosto para Carl.

Seu olhar o encarou em silêncio, como se lhe perguntasse:

Resolvido?

O que exatamente ele havia resolvido?

A noite anterior?

O cargo de assistente que lhe oferecera?

Um almoço?

Era assim que Carl acreditava consertar a injustiça que ela sofrera?

Não bastava tirar dela o cargo que conquistara por mérito. Também lhe tirara o projeto e depois fora comemorar com a vencedora.

E, quando questionado, ainda a acusara de ser mesquinha e ciumenta.

Ao encontrar o olhar dela, Carl percebeu imediatamente que a expressão de Lucy, que já não era a mesma de antes, tornara-se ainda mais distante.

Respirou fundo, tentando conter o desespero antes que acabasse piorando ainda mais a situação.

— Quero dizer... você não precisa se desculpar, Olivia. A culpa não foi sua. O que você está fazendo aqui?

Olivia sorriu com a naturalidade de sempre.

— Como não precisamos almoçar juntos na empresa, pensei em comer alguma coisa diferente, vim com minha assitente. Este sempre foi o meu restaurante preferido.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP