Mundo ficciónIniciar sesiónCarl franziu a testa e respondeu de forma direta:
— Então vá.
Olivia o encarou por um instante. Havia firmeza no olhar de Carl, e ela compreendeu que não havia espaço para insistir.
— Está bem. Foi um prazer rever você, Lucy.
Olivia segurou delicadamente o braço da assistente, que observava a cena quase sem entender o que estava acontecendo, e as duas se afastaram.
Lucy permaneceu em silêncio. Seu semblante revelava uma impaciência que Carl não precisou perguntar de onde vinha.
— Releve. A Olivia fala muito e...
— Faça os pedidos, Carl. Como a Olivia se comporta não é do meu interesse. Eu só quero voltar para casa.
Carl respirou fundo.
— Você não precisa ficar assim. Vamos aproveitar. Faz tempo que não almoçamos juntos. O que você quer comer?
— O que você escolher para mim está bom.
Lucy respondeu apenas isso antes de levar o copo de água aos lábios. As mãos tremiam levemente.
Os pratos chegaram pouco depois. Lucy comeu em silêncio. Carl tentou iniciar alguns assuntos, mas ela limitava-se a responder com um "sim", um "não" ou apenas um discreto movimento de cabeça.
Quando o garçom ofereceu a sobremesa, Lucy recusou. Assim que Carl pagou a conta, ela se levantou imediatamente, como se a cadeira estivesse coberta de espinhos. Ao sair, deixou o pequeno buquê de margaridas sobre a mesa.
Carl percebeu, pegou as flores e caminhou depressa atrás dela. Seus passos largos logo a alcançaram no estacionamento.
Lucy abriu a porta do carro. Antes que ela a fechasse, Carl a segurou com a mão.
— Você esqueceu.
Estendeu-lhe as margaridas.
Lucy olhou para o buquê por um breve instante antes de pegá-lo.
— Obrigada.
Agradeceu quase automaticamente.
— Vou tentar chegar mais cedo em casa.
Lucy apenas assentiu. Ligou o carro e deu partida.
Carl permaneceu parado, observando-a atravessar o estacionamento. Ainda acompanhava o carro com o olhar quando sentiu alguém tocar de leve em seu braço. Assustou-se e afastou a mão imediatamente.
O carro de Lucy já desaparecia pelo portão do estacionamento.
Lucy não viu Olivia se aproximar de Carl. Sentia-se tão sufocada que sequer olhou para trás. Apenas pisou fundo no acelerador e deixou tudo para trás: o restaurante, Carl... e Olivia.
Dirigiu até o centro. Havia muito o que comprar.
Depois que o carro de Lucy desapareceu pelo portão do estacionamento, Carl voltou o olhar para Olivia. Ela o observava com os mesmos olhos inocentes de sempre.
— Onde está sua assistente?
— Já foi. Você pode me dar uma carona de volta?
Carl abriu a boca para responder, mas não disse nada. Apenas assentiu.
Quando os dois desceram no estacionamento da empresa, encontraram Will encerrando uma ligação. Os olhares dos dois amigos se cruzaram, e Carl percebeu imediatamente a desaprovação estampada no rosto dele.
— Suba — disse Carl para Olivia.
— Senhor Mercer.
Olivia cumprimentou Will com um sorriso educado antes de entrar no prédio.
Os dois permaneceram olhando até que ela desaparecesse pelo elevador.
— Não é o que você está pensando, Will. Eu almocei com a Lucy.
Will ergueu as sobrancelhas.
— Você almoçou com a Lucy e voltou com a Olivia?
Não havia acusação em sua voz, apenas uma sincera confusão.
— Foi só uma coincidência e...
— Guarde suas desculpas para você mesmo, Carl. Depois não diga que, como amigo, eu não avisei.
— Você também, Will? Eu estou tentando, mas a Lucy tem dificultado as coisas.
— Claro que está. E o que você está fazendo em relação ao pedido de demissão?
— Acho que ela precisa descansar. Ela passava muito tempo aqui. No começo será difícil, mas eu sugeri que voltasse a pintar. Ela gostava. Logo esquece isso e acaba percebendo que é melhor para ela.
— E você acredita mesmo nisso?
Carl respondeu sem hesitar.
— Claro. Ela sempre supera as coisas. Depois logo volta ao normal.
Will encarou Carl com incredulidade.
— Espero que você tenha razão.
Carl ficou olhando para as costas do amigo. Sentia como se tivesse perdido alguma coisa, embora ainda não soubesse exatamente o quê.
Lucy passou o restante da tarde no centro da cidade. Comprou tudo o que precisava e voltou para casa. Levou as caixas para o que, por enquanto, seria seu ateliê improvisado.
Precisava juntar mais dinheiro para ela e para sua mãe. Helen podia precisar a qualquer momento, e Lucy não queria depender de Carl para nada.
Quando a tarde caiu, entrou em casa, tomou um banho, vestiu uma roupa leve e preparou um jantar simples. Nada como antes.
Enquanto esperava, começou a procurar vagas de emprego, mas quase todas as empresas que conhecia também mantinham algum relacionamento com Carl. Ela sabia que ele não permitiria que trabalhasse em nenhuma delas e, provavelmente, essas empresas também não se sentiriam confortáveis em contratá-la.
O tempo passou. Lucy olhou para as horas.
"Vou tentar chegar mais cedo."
Soltou um riso baixo, quase depreciativo consigo mesma. Sentou-se à mesa e jantou sozinha, mais uma vez. Mesmo depois de tudo, o nó na garganta ainda se formava. Talvez agora doesse ainda mais.
A casa estava tão silenciosa que o leve barulho dos talheres parecia ecoar pelas paredes.
Quando repousou os talheres sobre o prato e se levantou, viu os faróis do carro de Carl iluminarem a garagem. Continuou o que estava fazendo. Foi até a cozinha, colocou o prato na máquina de lavar louça e fechou a porta sem pressa.
Carl entrou apressado. Quase jogou as chaves sobre o aparador. Trazia o paletó sobre o braço e a gravata afrouxada ao redor do pescoço.
— Eu me atrasei um pouco.
Lucy olhou para o relógio sobre a bancada da cozinha.
— Se ainda não jantou, a comida está na mesa. Se estiver fria, é só esquentar no micro-ondas.
Lucy subiu as escadas.
Carl olhou para a mesa posta. tirou a gravata, jogou-a sobre o paletó, que deixou no sofá, e caminhou até a sala de jantar. Observou as travessas.
Havia passado em um bar com um dos sócios e um cliente. Já não tinha fome. Beliscou um pedaço da carne, guardou o restante na geladeira e subiu.
Lucy estava na sacada, olhando para a noite em silêncio.
— Guardei a comida na geladeira.
— Obrigada.
Lucy respondeu sem se virar.
Aquela educação engessada o irritava mais do que quando ela o questionava. Pela primeira vez, percebeu isso. Antes, ela discutia. Agora, nem sequer lhe dava a oportunidade de se explicar.
— Eu precisei...
— Está tudo resolvido. Não há necessidade de explicar.
Carl respirou fundo.
— Ainda isso, Lucy? Por que tanto barulho? O que está faltando para você? Eu já expliquei. A Olivia precisava de uma oportunidade. Não é um jogo. Você não sabe perder?
Lucy sentiu o ar faltar. Era como se algo esmagasse seu peito. Virou-se lentamente para ele.
— Eu aceito perder, Carl... mas só quando o jogo é justo.
Fez uma pequena pausa.
— Se fosse justo... eu não teria perdido e você sabe disso.. A Olivia precisava de uma oportunidade. Então você a escolheu primeiro... mesmo sabendo de tudo o que eu fiz.
Carl deu mais um passo e segurou seus braços.
— O que mais você quer? Você tem uma casa, dinheiro... precisa mesmo fazer tanto barulho por causa disso? O que você quer? Eu compenso.
Um riso breve escapou dos lábios de Lucy. Foi inevitável.
As pulseiras.
Todas elas passaram por sua mente.
Carl afrouxou lentamente as mãos quando viu os olhos dela se encherem de lágrimas. Ela não olhava para ele. Olhava para as mãos dele segurando seus braços.
Ele a soltou. O coração batia acelerado dentro do peito.
Lucy deu um passo para trás.
— Não haverá mais barulho — murmurou.







