Capítulo 10

A chuva piorou no caminho até a escola.

Não era mais só uma chuva passageira de fim de tarde. Era densa, pesada, insistente, daquelas que parecem cair com intenção, como se quisessem apagar o mundo lá fora. Os limpadores do para-brisa trabalhavam na velocidade máxima e ainda assim mal davam conta. A cada dois segundos a visão se tornava um borrão aquático, e eu precisava piscar devagar para manter o foco na rua.

Mas a verdade? Não era a chuva que me deixava tenso. Era o silêncio dentro do carro.

Vivian estava sentada ao meu lado, ereta demais, quieta demais, com as mãos entrelaçadas no colo como se estivesse se policiando para não se mover. O olhar fixo no vidro da janela, acompanhando as gotas escorrendo. Eu conhecia aquele silêncio. Conhecia desde antes de saber dirigir. Desde antes de saber mentir. Desde antes de saber que um coração podia continuar reconhecendo alguém mesmo depois de anos.

Não era um silêncio vazio. Era um silêncio cheio. Cheio de coisas não ditas, cheio de lembranças. Cheio dela e, pior ainda… cheio de mim.

Respirei fundo e virei na rua da escola no momento em que o sinal tocou. Crianças começaram a sair pelo portão como se fossem confetes coloridos sendo lançados ao ar, mochilas balançando, risadas, gritos, guarda-chuvas tortos, sapatos molhados. Um caos organizado que só existia em horários de saída escolar.

Procurei por ela.

Demorei três segundos.

Lívia surgiu no meio do grupo com o casaco rosa aberto, o cabelo preso em maria-chiquinhas que claramente tinham sobrevivido a uma batalha e um sorriso largo que eu reconheceria em qualquer multidão do mundo.

Ela logo me viu e seus olhos brilharam.

— PAPAAAAI!

Meu peito apertou na hora. Sempre apertava. Não importava quantas vezes acontecesse. Não importava quantos dias passassem. Toda vez que ela corria na minha direção daquele jeito, alguma coisa dentro de mim se reorganizava.

Desci do carro e fui até o portão. Ela veio correndo e pulou nos meus braços com a confiança absoluta de quem sabe que nunca vai cair. Segurei ela no ar.

— Ei, minha princesa — murmurei, beijando a testa dela.

Ela cheirava a suor e massinha de modelar.

— Você demorou só um pouquinho hoje — reclamou, séria, analisando como se tivesse um cronômetro invisível.

— A chuva tentou me atrasar.

Ela franziu o nariz.

— Chuva é sem educação.

— Concordo plenamente.

Coloquei ela no chão e segurei sua mão. Pequena. Quentinha. Minha.

Foi quando ela olhou além do meu ombro e congelou. De surpresa.

— Papai…

Conhecia aquele tom. Segui o olhar dela. Vivian estava dentro do carro nos observando.

Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, Lívia soltou minha mão e saiu correndo.

— TIA VIVIIII!

Eu nem consegui reagir.

Vivian arregalou os olhos quando viu o pequeno foguete humano indo na direção dela. A porta abriu e, no segundo seguinte, Lívia já estava metade dentro do carro, metade abraçada nela.

— Você tá aqui!!!

Vivian riu, surpresa, mas o riso saiu suave, verdadeiro, daquele jeito que eu lembrava.

— Eu tô.

— Você veio me ver?

Ela hesitou.

Os olhos dela vieram até mim por um segundo e voltaram pra Lívia.

— Vim pegar carona com seu pai… mas agora acho que vim te ver também.

Lívia abriu um sorriso tão grande que parecia grande demais para o rostinho dela. Prendi Lívia na cadeirinha e voltei pro banco do motorista tentando fingir que aquela cena não tinha mexido comigo, mas falhei miseravelmente.

Engatei a marcha. A rua já estava pior. A água começava a se acumular nas laterais, formando espelhos tortos que refletiam postes e faróis. Um carro passou e levantou uma onda que bateu na porta.

Suspirei.

— Acho melhor a gente ir lá pra casa.

— Pra sua casa? — Vivian perguntou.

— Aham.

— Não precisa, Gustavo. Me deixa num lugar mais alto que eu pego um carro.

Olhei pra rua. Depois olhei pra ela.

— Você tá vendo isso?

Outro carro passou e jogou água de novo. Ela fechou a boca.

— Só até a chuva diminuir — completei. — Prometo que depois te levo em casa.

Ela cruzou os braços. Não disse sim, mas também não disse não.

Lívia, claro, já estava comemorando.

— Tia Vivi vai na nossa casa! Tia Vivi vai ver meu quarto! Tia Vivi vai ver meu unicórnio musical!

— Lívia… — Vivian tentou conter.

— E meu castelo! E minha caixa de glitter! E meus adesivos de estrelinha!

— Tá bom — Vivian riu. — Eu vou ver.

Vitória instantânea.

Lívia levantou os braços como se tivesse acabado de ganhar um campeonato. Balancei a cabeça, segurando um sorriso.

O trajeto da escola até em casa levou o dobro do tempo. Precisei desviar de ruas alagadas, dar algumas voltas, dirigir devagar. O trânsito parecia andar em câmera lenta, mas, estranhamente, eu não estava com pressa.

Talvez porque, pela primeira vez em anos… Eu estava dirigindo com ela ao meu lado.

Quando finalmente parei na garagem, a chuva ainda batia forte no telhado. Desci primeiro, dei a volta e peguei Lívia no colo.

— Capitão resgate ativado.

— Missão salvar sapatos! — Ela respondeu.

Carreguei ela até a porta. Vivian veio atrás, protegendo a cabeça com a bolsa. Entramos meio molhados, meio rindo, meio sem saber exatamente por quê. Assim que a porta fechou, senti aquele alívio automático.

Casa.

Meu território seguro. Meu refúgio. Nosso mundo.

Lívia escorregou do meu colo e segurou a mão de Vivian.

— Vem vem vem vem!

— Lívia...

Tarde demais. Ela já estava puxando Vivian pelo corredor.

— Vou te mostrar meu quarto!

Olhei pra Vivian, que retribuiu o olhar.

— Boa sorte. — desejei sem emitir nenhum som.

Ela estreitou os olhos e se deixou ser levada.

Fiquei sozinho na sala por alguns segundos, ouvindo os passos rápidos e a voz animada de Lívia se afastando. Tirei o celular do bolso e soltei o ar devagar.

Meu peito ainda estava cheio. Confuso. Mas quente.

Fui pra cozinha. Cozinhar sempre me ajudava a organizar os pensamentos. Cortei legumes, temperei carne, liguei o fogão. O cheiro começou a se espalhar e com ele veio aquela sensação estranha de normalidade.

Passos correndo.

— PAPAI!

— Oi, chef assistente.

— A Tia Vivi gostou do meu quarto!

— Eu sabia.

— Ela falou que meu unicórnio é estiloso.

— Ela tá certa.

— E minha cama é macia igual nuvem.

— Ela também tá certa.

Silêncio.

— Papai…

— Hum?

— Posso guardar ela pra sempre?

A faca parou no ar. Meu coração também. Engoli devagar.

Antes que eu respondesse, a voz de Vivian veio atrás:

— Lívia, acho que seu pai tá te sequestrando pra ajudar ele.

Ela apareceu na porta.

Cabelo levemente úmido, bochechas rosadas e olhos que ainda me desmontavam como se o tempo nunca tivesse passado. Lívia correu até ela e segurou a mão dela de novo.

— Tia Vivi, papai cozinha bem!

— É mesmo?

— Mas às vezes ele erra o sal.

Levantei uma sobrancelha.

— Traição dentro da equipe?

Lívia riu.

Vivian também.

E naquele instante, simples, doméstico, comum, alguma coisa dentro de mim apertou forte. Porque parecia família e isso… Isso era muito, muito perigoso.

Voltei a mexer a panela antes que alguém percebesse a bagunça que tava acontecendo dentro do meu peito, mas uma certeza ficou ali, silenciosa, firme, impossível de ignorar: a chuva lá fora podia até alagar ruas… Mas a tempestade de verdade tinha acabado de voltar pra minha vida.

E ela tinha nome.

Vivian.

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