Um bebê para meu chefe
Um bebê para meu chefe
Por: Leslie g
Capítulo 1

Eu tinha o meu quarto para me arrumar, com vista panorâmica, flores brancas e uma bandeja de frutas intocada, porque eu estava ocupada demais me transformando em uma noiva cheia de ilusões.

Ele tinha o dele.

A diferença é que, no dele, estava rolando uma atividade física não incluída no itinerário.

Agora, eu estava sentada no chão da minha própria suíte, ainda vestindo o roupão de seda com *Bride* bordado nas costas, chorando numa intensidade que provavelmente ativaria o alarme de incêndio se o sistema detectasse excesso de drama.

Minhas amigas ainda estavam com os vestidos de madrinha porque, tecnicamente, o evento ainda não tinha sido cancelado oficialmente — só moralmente destruído.

— Não dá para acreditar — disse Laura, andando de um lado para o outro sobre o carpete caríssimo. — Não acredito que ele estava pegando a cerimonialista. É tipo o assaltante ser o segurança do banco.

— No quarto dele — acrescentou Sandra. — No mesmo hotel. Dois andares acima de onde você estava vestindo o seu vestido de noiva.

Era isso o que mais doía.

Ele não tinha só me traído; ele me traiu no dia mais importante da minha vida, prestes a dizer “sim”.

— Fui eu que paguei a suíte — comentei entre soluços que já nem tentava disfarçar. — As duas suítes. Paguei com as minhas economias. Anos de trabalho, fazendo hora extra no fim de semana, aguentando o imbecil do meu chefe… e agora estou financiando a putaria dele.

Sandra soltou um som que parecia o rugido de uma leoa com problemas de controle de raiva.

— Você devia ter empurrado ele da varanda.

— Eu devia ter matado os dois — murmurei dramaticamente, olhando para o teto cheio de molduras elegantes. — Devia mesmo. Mas fui covarde demais.

— Você não é covarde — rebateu Laura. — Só não queria estragar o hotel com um cadáver.

No meio do caos, alguém bateu à porta. Três batidas firmes, seguras, impossíveis de confundir. Senti meu coração parar, porque reconheceria aquele ritmo em qualquer lugar do mundo.

Meu pai.

Por um segundo absurdo, pensei em fingir que não estava ali, como se pudesse sumir junto com o desastre, mas a maçaneta girou quase imediatamente. E lá estava ele, com o terno impecável que tinha escolhido para me levar ao altar e aquela expressão orgulhosa de pai — que definitivamente não estava preparado para encontrar a filha sentada no chão, chorando num quarto que cheirava mais a tragédia do que a flores brancas.

Ele travou ao me ver ali, com a maquiagem toda borrada, cercada por caixas de lembrancinhas e amigas vestidas como se tivessem acabado de sobreviver a uma guerra romântica.

— Clara? — perguntou, pausadamente. — Por que você não está pronta?

Engoli em seco.

Eu não queria que ele soubesse.

Meu pai trabalhou a vida inteira para me dar o melhor, sempre dizendo que eu merecia um homem que cuidasse de mim, que me respeitasse, que me amasse como ele me amava.

Eu não queria ser a filha corna no próprio casamento.

Mas a Sandra não nasceu com o dom da discrição.

— O imbecil estava pegando a cerimonialista — disparou ela, cruzando os braços.

O silêncio que se seguiu foi tão pesado que acho que até o ar parou de circular.

O rosto do meu pai mudou.

Não foi do nada.

Foi lento.

O olhar dele passou da confusão para a incredulidade e, depois, para algo muito mais perigoso.

— O que você disse? — perguntou, com uma calma assustadora.

Eu conhecia aquela calma.

Era a mesma que ele usava quando alguém tentava crescer para cima de mim na escola.

E eu sabia de mais uma coisa.

Meu pai era perfeitamente capaz de cometer um homicídio em nome da honra da família.

— Pai… — comecei, me levantando rápido demais.

Mas ele já tinha dado meia-volta em direção à porta.

E saiu.

— Ah, não… — sussurrei.

Porque se o Daniel ainda estivesse no quarto dele… e meu pai o encontrasse primeiro…

O casamento não seria a única coisa cancelada naquele dia.

Meu pai não gritou ao sair do quarto.

Isso foi o mais preocupante.

Ele simplesmente caminhou pelo corredor acarpetado com passos firmes — firmes demais —, como um homem que já tinha tomado uma decisão irreversível.

— Pai, espera! — gritei, segurando a barra do roupão para não tropeçar enquanto corria atrás dele.

Sandra vinha logo atrás, com a energia de quem esperou a vida toda por um momento como aquele.

O corredor do hotel ainda estava cheio de convidados confusos: primos segurando celulares, uma tia chorando sem saber exatamente o porquê e, ao fundo, como se o universo tivesse um roteirista particularmente cruel…

Eu o vi.

Daniel saiu do elevador tentando ajeitar o terno amassado com movimentos desajeitados, como se alisar o tecido pudesse apagar o que tinha feito. Mas a cara de pau continuava intacta na postura dele, até que ele levantou os olhos e deu de cara com a gente.

Primeiro me viu, de roupão branco e olhos inchados.

Depois viu meu pai caminhando na direção dele, sem pressa, mas sem hesitar.

E foi naquele instante que a ficha dele caiu.

A cor sumiu do seu rosto e, pela primeira vez desde que o conhecia, ele perdeu a pose de confiante.

Finalmente entendeu que não estava mais lidando com uma noiva magoada.

Estava diante das consequências.

— Seu Ernesto, eu posso expli…

Ele não conseguiu terminar a frase.

Meu pai o alcançou em três passos e o agarrou pela lapela do terno com uma força que eu nem sabia que existia num homem que sempre me ensinou a resolver tudo na conversa.

— Explicar o quê? — perguntou, transbordando raiva.

Daniel tentou se soltar.

Erro estratégico.

— Foi um mal-entendido…

Foi aí que meu pai o prensou contra a parede.

Cheguei exatamente na hora em que o primeiro soco estalou.

Seco.

Direto.

Ecoando pelo corredor como se o hotel tivesse decidido amplificar a justiça.

— Pai! — gritei, embora, sinceramente, não estivesse muito disposta a contê-lo.

Laura tentava separá-los, puxando o braço do meu pai, sem muito sucesso.

Sandra, por outro lado, avaliou a situação por meio segundo e decidiu colaborar com a causa.

— Isso é por usar as milhas dela! — gritou, antes de acertar um soco nada técnico, mas extremamente entusiasmado, no Daniel.

A cerimonialista brotou em cena como se alguém a tivesse invocado ao pronunciar a palavra “escândalo”.

O cabelo dela continuava perfeitamente escovado, mas a pose de indignada perdeu toda a elegância assim que ela viu a cena.

— Soltem ele! — gritou, tentando se enfiar no meio.

Grave erro número dois.

Ela tentou afastar meu pai com um drama desnecessário e acabou arranhando o braço dele com aquelas unhas de francesinha recém-feitas — que provavelmente também entraram no orçamento do meu casamento.

E quando vi a expressão de dor cruzar o rosto do meu pai, aquele homem que raramente reclamava de qualquer coisa, senti algo dentro de mim parar de tremer e se fixar num lugar muito mais firme.

Eu ainda estava de roupão branco.

Ainda tinha a palavra *Bride* estampada nas costas como uma ironia reluzente sob as luzes do corredor.

E, sem pensar, cortei a distância que nos separava em três passos decididos.

Agarrei-a pelos cabelos com uma firmeza que eu nunca tinha treinado, mas que, pelo visto, já veio instalada no meu DNA para quando eu precisasse defender quem amo.

Arrastei-a para longe dele sem elegância nenhuma.

Mas com absoluta clareza nas minhas intenções.

E o barraco começou.

Quando tudo terminou, Daniel estava todo descabelado, meu pai respirava com uma raiva contida, Sandra parecia pronta para o segundo round e eu, no meio daquela zona, compreendi tudo perfeitamente.

Meu casamento estava arruinado.

Meu dinheiro tinha praticamente evaporado.

Minha dignidade estava capengando depois de um golpe daqueles.

Mas enquanto eu olhava o corredor transformado em um campo de batalha, com convidados horrorizados e celulares gravando cada segundo do desastre, percebi algo que não esperava descobrir naquele dia:

Eles podiam ter me traído.

Podiam ter me humilhado.

Podiam até ter me deixado na falência emocional e financeira.

Mas eu não ia sentar e chorar.

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