Capítulo 2

No fim, ninguém morreu.

O que, considerando meu pai e a Sandra em modo justiceiro, foi quase um milagre.

A segurança do hotel apareceu antes que a cena pudesse escalar para algo que envolvesse sirenes oficiais. Daniel terminou com o lábio cortado, o terno arruinado e a dignidade mais machucada do que a própria bochecha. Ele foi embora sem nem tentar me pedir desculpas porque, sendo bem sincera, quando sua futura esposa te arrasta publicamente pelo corredor e o pai dela tenta redefinir a sua estrutura facial, pedir perdão deixa de ser uma prioridade.

O casamento foi oficialmente cancelado uma hora depois.

O salão ficou com o sinal que eu tinha pago, o fotógrafo cobrou a taxa de deslocamento e a cerimonialista, inacreditavelmente, me mandou uma mensagem dizendo que lamentava “a confusão”. Bloqueei o número dela antes de descobrir se o sarcasmo era capaz de matar.

Três dias depois, eu estava sozinha no meu apartamento pequeno, cercada por caixas que já não tinham mais destino, olhando para as paredes que eu ocuparia por apenas mais um mês. Supostamente, depois do casamento, eu me mudaria com o Daniel para o apartamento novo — que agora ele provavelmente dividiria com a especialista em logística romântica.

Eu tinha trinta dias para encontrar outro lugar.

E zero vontade.

Meu coração estava oficialmente partido, mas o drama não pagava o aluguel.

Então, fui trabalhar.

Coloquei minha roupa de escritório, que já não parecia mais roupa, mas sim um uniforme de sobrevivência: uma camisa branca perfeitamente passada, saia lápis preta, saltos sensatos e o cabelo preso num coque que me fazia parecer muito mais organizada do que eu realmente me sentia por dentro.

Não tirei a aliança.

Não porque ainda acreditasse nela.

Mas porque eu ainda não sabia em qual gaveta guardar aquele fracasso.

Cheguei à empresa de finanças com os olhos inchados e olheiras que nem o melhor corretivo do mundo conseguiria camuflar. A recepção cheirava a café caro e ambição corporativa, e meus colegas me olharam assim que atravessei a porta.

— Como foi o casamento? — perguntou alguém do departamento pessoal.

Sorri.

Aquele sorriso novo que eu tinha aprendido a usar.

— Intenso — respondi.

Tecnicamente, eu não estava mentindo.

Ninguém percebeu a ausência de fotos. Ninguém perguntou sobre a lua de mel. E eu não precisei dizer em voz alta que não tinha me casado.

Eu trabalhava como secretária do dono da empresa, o que soava muito mais glamouroso do que realmente era. Na prática, significava organizar a agenda dele, filtrar ligações, coordenar reuniões e garantir que o império financeiro não entrasse em colapso por falta de pontualidade.

Ele chegou dez minutos depois.

Adrián Castellanos.

Alto, impecável, terno escuro, a expressão concentrada como se o mundo inteiro fosse um gráfico que precisasse de correção.

Ele passou pela minha mesa e eu me levantei automaticamente.

— Bom dia, senhor — disse, com uma voz profissional que não dava a menor pista de que eu tinha sobrevivido a um motim nupcial quarenta e oito horas antes.

Passei todas as reuniões do dia, as ligações perdidas, o cliente que insistia em remarcar um horário e o investidor estrangeiro que queria confirmar a videoconferência.

Ele apenas assentiu.

Não parecia estar prestando total atenção.

Ele nunca parecia.

Depois que ele entrou na sala, levei o café, exatamente como fazia todas as manhãs: sem açúcar, espresso duplo, na xícara preta, posicionada à direita da mesa.

Quando eu já estava prestes a sair, ele me olhou pela primeira vez com algo parecido com atenção.

O olhar dele desceu por apenas um segundo até a minha mão.

A aliança brilhou sob a luz.

— Quando começa a sua licença para a lua de mel? — perguntou com aquela voz grave que nunca precisava ser elevada.

Minha garganta deu um nó.

Eu podia contar.

Podia dizer que não teve casamento, que não haveria praia, que a minha vida amorosa tinha implodido num hotel cinco estrelas.

Mas não contei.

— Amanhã, senhor.

Ele assentiu.

— Certifique-se de deixar tudo organizado antes de sair.

Então voltou os olhos para alguns documentos.

— Cláudia.

Pisquei.

— Clara, senhor.

— Claro.

Mas ele não pareceu muito convencido.

E ali, parada diante do homem que administrava milhões com precisão matemática, compreendi algo que doía quase tanto quanto a traição do Daniel: para homens como ele, eu não passava de uma peça substituível.

Saí da sala dele com uma ideia clara pela primeira vez em dias.

Eu não ficaria onde ninguém me enxergava.

Naquela noite, a Sandra não fez muitas perguntas. Apenas me observou por alguns segundos, avaliando alguma coisa em silêncio, e depois disse:

— Vai.

Olhei para ela sem entender.

— Sozinha. Você não precisa de um casamento para viajar. Precisa sair daqui… e começar a viver.

E, pela primeira vez desde que tudo desmoronou, a ideia não me pareceu absurda.

Talvez eu não pudesse recuperar meu casamento.

Talvez eu não pudesse recuperar o dinheiro.

Mas podia recuperar a mim mesma.

O aeroporto estava lotado.

Malas deslizando pelo chão, anúncios que ninguém realmente ouvia e pessoas correndo como se chegar atrasado fosse o fim do mundo.

Eu caminhei mais devagar.

Com uma mala que eu nunca cheguei a desfazer depois do casamento.

Com uma passagem que já não fazia sentido.

E com uma vida que também não fazia.

Era a minha lua de mel.

Só que sem marido, sem amor e sem um plano claro.

Mas, pela primeira vez, ela pertencia completamente a mim.

E eu não fazia a menor ideia do que aconteceria depois.

Embora nada pudesse me preparar para o que estava por vir.

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