Clarice
Há momentos em que a vida não pede coragem. Ela exige. E cobra à vista.
Eu não dormi naquela noite. Permaneci sentada na beira da cama, os pés tocando o chão frio, como se isso me mantivesse ancorada na realidade. O quarto respirava num ritmo estranho, pesado, e eu acompanhei cada som da casa como quem vigia um território ameaçado. O estalo da madeira. O sussurro do vento. O silêncio espesso demais para ser só silêncio. O medo ainda caminhava ali, mesmo depois de a porta ter sido fech