04

“Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando,  vivendo que esperando, porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.”

(Sarah Westphal)

Estava praticamente dentro do meu armário ao vasculhar algo para usar para amanhã. Eram aproximadamente sete horas da noite e eu ainda não havia encontrada nada, até porque tinha uma de minha preferência.

– Mãe! – berrei do meu quarto.

Ouvi passos de salto alto até parar na frente do meu cômodo. E quando apareceu eu simplesmente me arrependi de tê-la chamado. Estava com a sua roupa amassada e seu cabelo parecia um ninho de gato, o que realmente dava a certeza de que estava novamente se divertindo com meu pai.

E isso realmente me deixou com vontade de vomitar. O que seria legal até, porque eu estou precisando perder uns quilos por ter comido aquelas jujubas malignas – de tão boas e gorduras que são.

– O que houve? – um pouco irritada.

– Cadê aquela minha blusa bege com renda? – quis saber.

Ela vai ficar linda com a saia branca!

– Dei para a filha da vizinha. – respondeu.

Como assim? Sem a minha permissão? Não, isso não ficará do jeito que está.

– Vou lá pegar. – declarei.

Mesmo com a repreensão da minha progenitora fui à casa do lado, vendo que ela saia com a roupa que queria. E ainda com uma calça que nada combina com essa vestimenta. É um desperdício, e irei concertar isso.

– Valentina. – iniciei.

Seu apelido era Tina, e ela não tinha qualquer senso de moda. Na maioria das vezes andava com aquele cabelo preso e uma cara de que não se importava com isso. Só que é uma ótima aluna, e muitas vezes me dei bem por causa da sua ajuda. Tanto que faz parte do meu comitê do conselho estudantil.

– Boa tarde Eliana. – cumprimentou-me.

Simpática como sempre.

– É que essa blusa é minha. – decidi ser direta.

Aprendi que ficar enrolando quase nunca é a solução.

– Entretanto me deram. – rebateu de maneira nervosa.

Ih! Vai ser mais difícil pegá-la, pois notei que amou o que recebeu.

– A questão é que minha mãe fez isso sem minha permissão. E eu gosto muito dela, então, por favor, devolva. – o tom calmo.

Seu mini sorriso virou uma carranca.

– M-mas... – gaguejou, todavia a cortei.

Até porque não tinha tempo para negociações.

– Devolva a minha blusa Tina. – insisti, não alterando minha voz.

Quando ia entrando para dentro a segui, ao pular o muro, e fui para dentro da sua casa. Lembrei-me que tinha cinquenta no bolso da jaqueta, sabendo que poderia muito bem conseguir o que quero com isso. Apesar de que o que anseio valeu uns R$310,00.

– Eu compro. – gritei ao vê-la indo para o quarto.

Corri em sua direção com algumas notas em minhas mãos, sendo uma de vinte, dois de dez e de cinco.

– Obrigada, porém não. – negou.

Que droga!

– O que deseja então? – implorei.

Eu ia ficar tão mais bonita que com essa camisa.

– Um namorado, ficante ou seja o que for. Não sabe o quanto é ruim ser alvo de piada nos almoços em família – confessou.

E então começou a chorar, na minha frente. Simplesmente senti tanta compaixão que tive novamente fazer uma promessa a alguém. Daqui a pouco tenho de fazer uma lista para cumpri-las. Deixa-a me abraçar antes de responde-la.

– Tudo bem, tentarei arranjar um para ti. – disse rapidamente.

E depois de pegar aquela belíssima vestimenta de cor bege fui para a casa. E ainda tive parte do meu sono de beleza perdida ao pensar em quem poderia fazer esse favor para mim.

Sentando naqueles bancos sem pintura e quase estrebuchados comi o sanduiche que uma pessoa havia me dado. Logo minha boca saboreou o gosto do queijo de ricota, sanduiche e o tomate, além de bebericar o delicioso suco de limão.

E de repente o Patrick chegou com uns curativos no rosto. Percebi também que andava de perna aberta e devagar. E posicionou-se ao nosso lado da mesma maneira.

– O que aconteceu? – curiosíssima.

Seu sorriso pareceu se iluminar neste instante.

– Minha noite foi estupenda! – exclamou com animação.

Quem foi o bofe dessa vez?

– Conte-nos o nome do cara que alegrou sua noite. – sussurrou a Ally.

Os olhos dela chegaram a brilhar, talvez porque se sentia carente.

– O Ben Sullivan. – disse rapidamente.

A pessoa que me mandava bilhetinhos e é tímido?

– O quê? – praticamente gritei.

Quando uns meninos chegavam perto de mim os parei, mandando-os se afastar.

– Veio na minha casa para falar sobre você e como te conquistar, pois é meu vizinho. Então resolvi consolá-lo, mas quando o abracei senti uma atração tão forte que o beijei a força e sem pensar. Percebi que correspondeu no começo, mas logo se afastou e foi embora sem nem se despedir. – explicou.

Isso não se faz!

– Ele nunca tinha beijado alguém Pat! – repreendi-o.

– Desculpa Lie, mas demorou demais para tomar a iniciativa. – devolveu.

Infelizmente tem razão.

– E por que quase não anda? – de novo a Alisson.

Sua expressão se tornou sombria.

– O meu ex entrou depois e nós transamos, mas após isso ocorrer discutimos novamente, então o mandei sair. – declarou.

– O Gary? – questionei.

– Não, o Paul. Mas não me importo, ontem foi maravilhoso mesmo assim. – continuou.

Sim, já teve muitos namorados. Tantos que nem lembro o nome de alguns. E o pior é que são bonitos os que nos apresentou.

– E eu só querendo alguém para chamar de meu, já você teve dois em uma só noite. – murmurou a minha amiga desesperada.

Notei que o meu admirador passava pelo pátio, e ao nos olhar, principalmente para o gay, ficou vermelho e correu para sumir da nossa vista.

– Você não tem o Vinicius porque não quer. – um pouco irritada.

– Ele me deu um fora, agora tem que correr atrás.

Anseia por um namorado e ainda fica escolhendo? Assim não dá.

– Nem digo mais nada. – disse simplesmente.

O silêncio então reinou o ambiente, se não fosse pelo chiclete que estava mascando.

– Viu que fofo o B? Todo envergonhado. – um novo assunto reinou no ambiente.

Simplesmente me desliguei e fiquei olhando para os que estavam ao meu redor, notando o Mitchell no banco mais próximo. Alimentando-se de seu sanduiche enquanto seu único escudeiro ao seu lado. E neste momento percebi que a garota que sempre vivia ao meu lado não se encontra mais ali, provavelmente estava indo ao banheiro.

Tomei coragem e fui em direção ao meu antigo rival.

– Acho que a gata da Dalton quer falar contigo. – falou o amigo.

Rolei os olhos com o comentário costumeiro e me posicionei ao lado do novo membro do meu grupo do grêmio.

Percebi que virou sua face em minha direção, mas sua expressão em nada pareceu mudar.

– O que foi? – soou por entre seus lábios.

O outro pareceu entender ao ir para outro local.

– É que eu preciso que cancele a inscrição do seu grupo para entrar no meu. – comecei.

– Está bem, o farei. – declarou com indiferença.

Estava saindo quando me puxou, novamente dando de cara com seu peitoral, e levantou meu queixo. Para depois fazer uma trilha do meu rosto até a orelha direita, de forma lenta e provocadora.

– Tudo certo em relação a Alisson? – sussurrou com a voz grossa.

Não se pode fazer uma coisa dessas do nada, achando que em nada afetara. Poxa, é o meu ponto fraco do corpo. Tanto que fiquei arrepiada.

– Na verdade não, acho melhor conversar com ela primeiro e mostrar interesse. Só assim poderá ter uma chance com ela e começar a andar conosco. Agora me solta, pois todos estão nos olhando. – respondi ao me recuperar.

Levantou uma sobrancelha neste momento.

– Como se não gostasse de atenção não é? Ou melhor, de aparecer. – acusou.

Minha mão neste instante estava formigando para bater nele.

– Não me conhece mesmo Sr. Vinicius. – declarei.

Soltei-me sozinha e voltei ao local onde meus amigos estavam. E notei que o Patrick estava com um cara que representava a malicia.

– Qual o motivo de parecer tão intima ao lado do Mitchell? – começou.

Sorte que a Ally não estava ali no momento.

– Quero os dois juntos. – respondi apenas.

– Por quê? – insistiu.

– Quando minha amiga se faz de difícil é porque quer mesmo o rapaz. – menti.

Deu de ombros e ficou observando o Ben S., assim como eu também. Ele parecia tão relaxado perto da fila da cantina. Só que notei que estava concentrando também, pensando sobre algo.

No momento da minha companheira diária desesperada por alguém chegou para ouvir o resto da conversa, mas felizmente puxaram outro assunto assunto.

– Acho que estou apaixonado. – suspirou o gay.

Como o Pat sempre fala isso não liguei, mas com o pensamento de que isso poderia ocorrer. Pior é que não saberei se o outro o corresponderá ou não. E eu constatei que realmente meu admirador mais tímido não havia me mandado um recado hoje, nem o seu costumeiro “olá”.

– O amor é lindo! - a animação da Ally foi contagiante.

Ficaram batendo papo, todavia nada falei. Assim como o meu querido James, que sempre me acompanha em momentos como esse. As vezes até ficamos trocando mensagens nesse meio tempo, o que não ocorreu nesse intervalo.

É, as coisas estão mudando de um tempo para cá.

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