Capítulo 6. Marido

Clarice inspirou o ar com força quando entrou no apartamento, aliviada por estar segura. Pegou seu celular, jogou-se no sofá e ligou para Cornélio que logo atendeu.

— Oi, filha, já soube que a operação foi um sucesso.

— Já? Como?

— Nosso agente de apoio me passou o relatório da missão e já começou a examinar os dados do pendrive.

— Então foi ele, quem é ele, exatamente?

— Seu marido, criança. Para todos os efeitos, nas próximas missões em que se encontrarem, lembre-se disso em caso de emergência.

Ela não sabia o que concluir da informação que recebeu. Marido? Nunca sequer pensou em casar e agora tinha um marido de mentirinha que beijava de verdade. Resmungou.

— Você ainda está aí, querida?

— Sim, estou cansada, vou dormir. Boa noite.

— Aqui é bom dia, ainda, mas bom descanso, nos veremos em breve e parabéns.

— Obrigada.

Ela deitou e tentou esquecer tudo o que aconteceu, mas demorou e rolou na cama por um bom tempo até dormir. O beijo parecia ter deixado uma impressão fixa em seus lábios, que atormentava sua libido.

No dia seguinte acordou tarde e quase perdeu o vôo para casa. Morava em Brighton, na Inglaterra e era complicado o translado. Chegou em casa no final da tarde, depois de pegar um carro, um avião, o trem e encontrar com Hector que a esperava na estação de trem.

— Seja bem vinda, querida. — Cornélio a esperava na porta e a abraçou.

— Obrigada, essa viagem foi bem estressante, mas não sei porque estou tão cansada.

— Mais um dia e estará recuperada.

Infelizmente, não foi o que aconteceu, mas Clarice não deu importância e durante as próximas semanas, estudou a fundo as informações contidas no pendrive, mas só as que se referiam a Ewerton Gusmão.

Descobriu vários contratos de fachada e parcerias com firmas de fachada para lavar dinheiro. Mas sua loja em Edimburgo funcionava de verdade e quem gerenciava era Noélia. Por sorte, Gusmão entrou em contato solicitando seus serviços e marcaram uma reunião.

Ela decidiu que seria por ali que começaria.

Procurou um apartamento simples em Edimburgo e dois meses depois, mudou-se. Foi quando seu cansaço e mau estar pioraram e procurou um médico. Seu apartamento era próximo ao comércio do bairro e havia uma boa clínica particular, próxima.

Marcou uma consulta e entrou no consultório, sendo recebida por um médico de meia idade, muito sério e compenetrado, que lhe agradou. Era um ginecologista e lhe fez várias perguntas, fazendo-a notar o quanto foi descuidada e que já não menstruava há quatro meses.

— Senhorita Dietrish, não preciso nem ver os resultados dos exames para confirmar o diagnóstico. A senhorita está grávida, vamos para a sala ao lado.

Deitada na mesa, com o aparelho deslizando e parando em seu baixo ventre, ouvia o som de um coração batendo rapidamente.

— É um menino e está com 15 semanas. Está formado e pelos movimentos, é bem saudável. — virou a tela para que ela visse a imagem.

A emoção a invadiu, lembrou-se da única noite em que esteve com um homem em sua vida. Estava grávida e isso mudava os seus planos. Nunca pensou em casar e ter filhos, agora tinha um marido de mentirinha que nem sabia quem era e um bebê a caminho, que chegaria no momento errado. Como não percebeu isso antes?

— O quê, estou grávida a quase quatro meses e não percebi, como? — perguntou, mais para si do que para o médico.

— Pois é, nem eu acredito. Sua barriga já tem volume e você não se deu conta. Algo na sua mente bloqueou os sinais.

Ele colocou lenços de papel na barriga dela.

— Arrume-se e volte ao consultório, lhe passarei alguns exames e suplementos.

Ela obedeceu e quando saiu do consultório, tinha os pedidos de exame, receita de vitaminas, remédio para controlar os enjoos e a programação para as novas consultas. Achou o médico muito frio, mas era melhor assim, não compartilharia com ele a sua vida.

Marcou o exame para o dia seguinte e saiu da clínica. Enfiou as mãos no bolso, pois apesar da cidade ter um clima ameno, o dia estava frio e o céu coberto de nuvens escuras.

— Não demora e começará a chover, amo chuva. É a comemoração perfeita para minha situação, não é bebê. — Acariciou o pequeno volume que já podia sentir em seu ventre, que sempre foi chapado.

Foi para seu apartamento de dois quartos, preparou uma sopa para o jantar e depois foi tomar um banho, dando tempo para a sopa esfriar. 

Vestiu um pijama e cobriu-se com um roupão aveludado. Ligou a televisão e colocou seu seriado favorito. Colocou a sopa em um pote, foi sentar-se no sofá e comeu vendo televisão.

Quando a chuva caiu, ela já estava deitada e o som que ela tanto gostava, embalou seu sono.

*

Clayton dava cobertura aos planos de Clarice e nesse instante, invadia o deposito para colocar escutas e mini câmeras no escritório e nas portas de entrada e saída de mercadorias. Saiu pelo mesmo modo que entrou: uma claraboia no telhado, onde pendurou uma corda.

Chegou em sua motocicleta e partiu em direção ao seu apartamento, do outro lado da rua onde morava Clarice. Os dois se comunicavam todo dia pela internet, mas ela não sabia quem ele era e nem que estava tão próximo.

Depois de verificar se as câmeras e áudios estavam transmitindo, arrumou-se para dormir e foi até a janela, olhou para o apartamento do outro lado e vendo tudo apagado, foi se deitar.

— Boa noite, esposa, sinto sua falta.

Ele realmente era apaixonado por ela. Desde que a viu, franzina e debilitada, entrando pelas portas principais da casa, quis ela para si, mas seu pai não deixou que se aproximasse. Por isso ficou com essa paixão encubada.

Foi muito difícil deixá-la na manhã seguinte de sua noite de paixão, mas ainda não era a hora de se conhecerem. Fez o possível para que ela não se sentisse usada e abandonada, inclusive deixando um cartão com a logo de sua empresa e seu contato, mas ela nunca ligou.

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