Capítulo 7. Quase

O próximo passo era uma entrevista de emprego que ela iria no escritório da empresa do Gusmão, que ficava no segundo andar da empresa de moda administrada por Noélia. Essa, ele tinha que ver, já tinha colocado escutas e câmeras no local e montou um esquema de pintor de fachada para estar lá na hora marcada.

O dia seguinte amanheceu ensolarado, Clarice acordou e correu para banheiro. Depois de regurgitar o que tinha no estômago, levantou-se, fez sua higiene e vestiu uma roupa simples, calça jeans e camiseta.

— Hora essa! Não fecha, também não posso forçar. — resmungou olhando para o fecho da calça.

Olhou o guarda roupas e escolheu um dos poucos vestidos soltos que tinha. Decidiu sair e comprar roupas largas na tentativa de disfarçar, o máximo possível, mas não enganaria seu pai. Antes, passaria na clínica e faria os exames que o médico pediu.

Bebeu um chá, tomou o remédio para enjoo, os suplementos e saiu. Nem olhou o computador, que era seu costume, precisava providenciar a roupa para a entrevista e para os próximos dias de trabalho, depois compraria pela internet.

Andou pelas ruas em direção a clínica e depois seguiu para o shopping, onde descobriu uma boa loja de roupas para o trabalho, foi quando sentiu-se observada. Parou em uma vitrine e pelo reflexo, olhou em volta, mas não avistou ninguém e continuou.

— O que ela está fazendo?

Clayton observava Clarisse com um binóculo, desde que ela saiu de casa. Ficou esperando que ela abrisse o celular para se falarem, mas ela saiu apressada e ele quase não a viu.

Pegando sua caneca com café, foi até a janela da sala e olhou para o apartamento dela, percebendo que ela fechou a porta e saiu. Quando apontou na calçada, percebeu que ela estava de vestido florido, totalmente diferente das roupas que costumava usar.

Franziu a testa, pensativo, e pegou o binóculo para ver para onde ela iria. Infelizmente, ela chegou em um ponto que ele não conseguiu mais observar e ela quase o descobriu. Se ela olhasse para trás e para o alto, teria visto ele com um binóculo.

Achou melhor se arrumar e ir para o trabalho que arranjou para poder ver a entrevista de trabalho. Queria estar atento para que Noélia não aprontasse nada com ela. Terminou seu café, travestiu-se de pintor de parede com um gorro na cabeça e saiu.

Uma hora e meia depois, Clarice voltou para casa carregando várias sacolas. Sua entrevista era às 15 horas e ela teve tempo de organizar as roupas, almoçar, conferir os e-mails e almoçar.

Não havia nada que a preocupasse nos e-mails. Seu apoio avisou que estaria observando e quando chegou a hora marcada, ela saiu de casa e pegou um táxi. Vestia um terninho, com a calça própria para gestante. Era muito discreto e elegante, disfarçando perfeitamente seu estado e o melhor é que duraria um bom tempo.

Chegou em frente ao prédio e ela desceu do carro. Percebeu o andaime na frente do prédio e um pintor sobre ele. Passou na lateral, tomando cuidado para não ter sua roupa nova, respingada de tinta. Mas o pintor desatento, deixou o rolo escorrer e quase pingar nela.

— Hei! Preste atenção. — reclamou ela.

Clayton ao perceber o táxi parando, observou-a descer e estava tão linda, que ele ficou parado, olhando e a tinta escorreu do rolo e pingou, quase caindo sobre ela. Se a atingisse, estragaria o seu look. Ele despertou com a chamada dela, puxou logo o rolo de tinta, pousando-o no prato.

Fixou os olhos verdes nela e desculpou-se:

— Mil desculpas, senhorita, sua beleza me paralisou.

— Então, você quase me sujou de tinta e a culpa é minha? Com licença, tenho hora marcada. — continuou andando, tomando o cuidado de desviar da mancha de tinta no chão.

Ele viu a mancha e pegou o material para limpar, antes que ficasse pior.

— Só não reclame de mim para o patrão, ainda tenho três dias para te acompanhar.

Do lado de dentro da loja, na recepção, Clarice identificou-se e recebeu um crachá de visitante. Chegou ao segundo andar e foi recebida pela secretária, que a olhou surpresa com a elegância da candidata.

— O presidente logo irá atendê-la.

— Avise que eu já cheguei, por favor.

A secretária ficou séria e com raiva.

“ Quem ela pensa que é para me dar ordens.” Pensou.

— Não sou candidata a um cargo, senhorita, sou prestadora de serviço, não tenho tempo a perder.

— Sim, senhorita. — Mesmo não gostando, a secretária teve que engolir.

Pegou o telefone interno e avisou o CEO, que para sua surpresa, veio pessoalmente receber a mulher elegante e de nome pomposo: Dietrich.

— Olá, senhorita Dietrich, seja bem vinda. — disse ele estendendo a mão.

— Como vai, senhor Gusmão? Pode me chamar de Clarice.

— Você tem a idade da minha filha, se estivesse viva. Na verdade, é muito parecida com ela. Mas vamos entrar e falar de negócios.

— Sim, claro.

Os dois entraram na sala iluminada e a primeira coisa que ela viu pela janela, foi a figura do pintor. Desviou o olhar para não se aborrecer, pois deu de cara com os olhos verdes fitos nela e um sorriso de lado, zombeteiro em seu rosto.

— Não ligue para o pintor, ele não consegue ouvir nada. Sente-se. — ofereceu a ela a cadeira acolchoada de frente a sua mesa e foi para sua poltrona.

— Creio que o senhor deve ter um bom motivo para querer uma auditoria em sua empresa.

— Sim. Estou vendo um vazamento de verbas e sei bem do que estou falando, só não consigo ver onde está a brecha.

— O senhor pode confiar que manterei toda a descrição possível.

Do lado de fora, ouvindo a conversa pelo fone de ouvido via bluetooth, Clayton sorriu.

“ Ela é uma boa mentirosa, isso sim.” Pensou ele.

— Se você não se incomodar, mandei preparar aquela ponta da sala para você tra. Não quero nem a minha esposa olhando seu trabalho e daqui posso controlá-la.

— Entendo. Como nós já acordamos tudo pela internet, creio que só falta assinarmos o contrato e eu conhecer a minha mesa de trabalho.

— Sim, aqui está — passou uma pasta para ela —, fique à vontade para conferir.

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