Capítulo 2

Evelyn

Os dias passam rápido demais, como se alguém tivesse apertado o modo acelerado da vida sem me avisar, e quando percebo já é sexta-feira.

Saio da última aula com a cabeça cheia de prazos, ideias de campanha e conceitos de branding rodando na mente. O caminho até o refeitório é feito no automático. Meu corpo está cansado, mas minha rotina não dá muita escolha com aula, estágio na System, trabalhos, vida social… e Edward.

Pego uma salada porque sei que deveria comer algo leve antes do estágio, só que na segunda garfada, meu estômago revira de um jeito estranho. Não é exatamente dor, e sim, uma náusea chata, insistente. Respiro fundo e forço mais uma garfada.

Eu não tenho me sentido bem nos últimos dias. Talvez eu realmente precise ir ao médico se isso continuar. Pode ser gastrite, uma vez que ando exagerando nos energéticos e na Coca-Cola para dar conta da rotina.

— Evelyn — Samantha chama, me tirando do meu foco forçado na salada.

Ergo o olhar e vejo que ela aponta discretamente com o queixo. Sigo a direção e encontro Valerie perto da máquina de refrigerante, sorrindo toda boba enquanto conversa com Dean. Eles estão próximos demais para quem diz que é só amizade.

— Eu não entendo por que ela não dá o braço a torcer — digo, balançando a cabeça. — Eles podem dar certo, mesmo com ele na Itália.

— Eu já cansei de falar isso — Samantha responde.

Abro minha garrafa de água com gás. O ploc do lacre ecoa e eu tomo um gole grande, tentando assentar o estômago.

— Tenho algo pra contar — Samantha diz, e o tom dela muda para animado.

Olho para ela.

— O Rafael vai fazer intercâmbio aqui no próximo ano.

Meu rosto se ilumina na hora.

— Sério?! Samantha, isso é incrível! — A animação vem genuína, quente. Seguro a mão dela por cima da mesa. — Eu tô muito feliz por você. De verdade.

Ela dá um sorriso largo, daquele jeito que só quem está apaixonada consegue sorrir.

Valerie se aproxima, e Samantha repete a novidade. Valerie comemora alto, abraçando a amiga.

— Tá vendo? — digo para Valerie. — Devia seguir o exemplo da Samantha e tentar com o Dean.

— A gente não tem nada além de amizade — ela responde rápido demais.

Samantha então olha para um ponto específico do refeitório e faz uma careta sutil. Eu conheço aquela expressão. É a mesma que ela faz quando vê algo que acha problemático.

Eu não gosto nada disso, mesmo assim, olho e encontro Megan. Ela está ao lado da melhor amiga, Shantal, chamando atenção sem precisar fazer esforço. Seu cabelo loiro está preso em um rabo de cavalo alto e usa um vestido xadrez curto na medida certa para não ser vulgar, mas sexy e elegante. Ela parece saída de um catálogo com seu corpo de Barbie, postura de supermodelo, confiança de quem sabe exatamente o efeito que causa.

Rainha da fraternidade feminina. Número Um do curso de Arquitetura.

Minha autoestima é boa. Eu me gosto. Eu me aceito. Mas ainda assim é desconfortável saber que a sex symbol da faculdade é a ex do meu namorado.

Até onde eu estava sabendo, ela estava em um intercâmbio em Toronto há dois meses. E as fofocas diziam que esse tinha sido o motivo do término com Edward. Eu nunca quis saber o motivo real, nunca pressionei Edward sobre seu passado com ela, não queria ser invasiva. Um dia, ele só comentou que tinham ideologias diferentes.

Mas uma coisa é clara agora, Megan não gostou nem um pouco de saber que estou com ele. O olhar que ela lança na minha direção é rápido, mas afiado.

— Eu não sabia que ela tinha voltado — Valerie comenta.

Samantha já está no celular.

— Ela não só voltou como vai dar uma festa de despedida depois do jogo, lá na fraternidade. — Ela vira a tela para nós, mostrando o convite.

Meu estômago dá um nó estranho e um calafrio percorre meu corpo.

Pego o celular quase por impulso e vejo se Edward mandou mensagem.

Tem uma.

“Te encontro no refeitório antes do seu estágio.”

Engulo em seco.

Olho para a salada à minha frente e, de repente, ela parece a coisa menos atraente do mundo. Empurro o prato, desistindo.

— Esse seu mal-estar tá estranho — Valerie observa. — Você precisa ir ao médico.

— Vou semana que vem — respondo.

Mas, no fundo, não sei se estou convencida de que é só físico. Às vezes a sensação é outra, como se algo estivesse prestes a mudar.

Eu fico olhando para a tela do celular sem realmente ver nada, minha cabeça está em outro lugar.

Penso se eu devo falar com Edward como ficaremos depois da sua formatura, o que vem depois desse campus, desses corredores, dessa rotina que parece eterna mas não é. Se ele vai ficar em São Francisco, se eu vou. Como ficaremos. Porque tudo o que eu mais quero é estar na vida dele.

E quero Edward no meu futuro também.

A ideia vem tão natural que me assusta um pouco. Talvez seja bobagem. Talvez eu esteja sonhando como uma adolescente apaixonada assistindo a comédias românticas demais. Talvez eu esteja sendo intensa. Ou meio maluca por pensar nessas coisas com só três meses de namoro.

Mas o que eu sinto é tão bom. É leve, seguro e quente.

Tudo que ele me faz sentir parece certo demais para ser ignorado.

Mordo o lábio inferior, pensativa.

Será que fui precipitada levando-o para conhecer meus pais em Denver no último feriado?

Talvez.

Mas meus pais gostaram muito dele. Minha mãe ficou encantada e meu pai aprovou rápido demais para o meu gosto. Clark… bom, Clark ficou no modo irmão superprotetor, educado, mas em alerta. Já Owen não vai muito com a cara dele, embora, sendo honesta comigo mesma, eu sei que parte disso é interesse na empresa da família Spencer.

Negócios. Sempre negócios.

Edward, por outro lado, não fala muito sobre a própria família. Sei do pai, sei que a mãe é falecida, e só. Ele nunca mencionou me apresentar ao pai dele. Nunca tocou no assunto.

Isso causa um pequeno desconforto dentro de mim. Um pontinho de dúvida que cutuca em silêncio. Mas eu não quero deixar a insegurança estragar o que é bom. O que é real entre nós. Só que também não dá para ignorar que ele praticamente se formou e nós nunca conversamos sobre o futuro. Nem uma vez. Nem por alto.

— Droga — Samantha murmura, mexendo na bolsa.

— O que foi? — Valerie pergunta.

— Meus absorventes acabaram. Você tem?

— Esqueci de colocar na bolsa hoje.

Abro minha bolsa quase no automático e tiro um pacote fechado.

— Toma. — Entrego para Samantha.

Ela agradece, e minha mente trava.

Menstruação.

A palavra ecoa na minha cabeça.

Meu coração dá um pulinho estranho quando percebo que a minha não desceu esse mês. Fico parada por um segundo longo demais. Lembro-me da piada de Samantha dias atrás. “Ou você tá grávida.”

Me repreendo mentalmente na mesma hora.

Isso é loucura. Eu me cuido, faço uso do anticoncepcional certinho. Deve ser só atraso, por estresse, rotina maluca e alimentação bagunçada.

Normal.

Totalmente normal.

Respiro fundo.

Então percebo que a expressão de Samantha muda. O rosto dela fecha um pouco, a atenção presa em algo atrás de mim. Um burburinho começa a se formar pelo refeitório, aquele tipo de som coletivo quando algo ou alguém chama atenção.

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