Mundo de ficçãoIniciar sessãoCAPÍTULO 6 :
UMA TENTATIVA CLARA DE ALIVIAR O PESO ISABEL MARQUES Saí do quarto da minha mãe tentando manter o rosto firme. Passei a mão rapidamente pelos olhos antes de entrar na cozinha — meu pai não precisava ver que eu estava à beira de chorar. Ele estava encostado no fogão, mexendo distraidamente a panela, mas percebi que a comida já estava pronta havia alguns minutos. Ele só precisava ocupar as mãos. — Ela dormiu? — perguntou, sem me olhar de imediato. — Está descansando — respondi, sentando à mesa. Ele trouxe o prato e colocou na minha frente com aquele cuidado exagerado que ele sempre tinha quando o assunto era eu ou minha mãe. Ficamos alguns segundos em silêncio. Eu via no semblante dele algo que ele tentava esconder: preocupação profunda… e uma impotência silenciosa que o consumia por dentro. Meu pai sempre foi um homem forte, trabalhador, daqueles que resolvem tudo. Mas quando o assunto era a saúde da minha mãe… ele não podia consertar com esforço ou horas extras. E isso o destruía. — Falei com o hospital hoje — ele disse, finalmente, sentando-se à minha frente. — Eles mantiveram a estimativa do valor. Eu abaixei os olhos para o prato. — Eu imaginei. Ele respirou fundo. — Eu estou tentando um empréstimo. Talvez consiga alguma coisa… não é o suficiente, mas ajuda. Eu sabia que não ajudava. Sabia que ele já tinha feito tudo o que podia. Horas extras. Dois empregos no passado. Economias praticamente inexistentes. E mesmo assim ele continuava tentando. — Pai… — chamei, com cuidado. Ele levantou os olhos para mim. Cansados. Mas firmes. — A gente vai dar um jeito — ele disse antes que eu completasse a frase. — Eu não vou desistir dela. A voz dele falhou no final. Aquilo partiu meu coração. — Eu sei que não vai — respondi, estendendo a mão por cima da mesa e segurando a dele. — A gente vai passar por isso juntos. Ele apertou meus dedos. — Eu só queria poder fazer mais. — O olhar dele ficou distante por um momento. — Ela não merece sofrer assim. — Ninguém merece — murmurei. A cozinha simples, iluminada por uma lâmpada amarelada, parecia pequena demais para conter tanta angústia. E ainda assim, era ali que a gente se fortalecia. Meu pai tentou sorrir. — Você precisa focar na faculdade, Isabel. Sua mãe sempre sonhou em te ver formada. — Eu vou me formar, pai. E ela vai estar lá na primeira fila. Ele sorriu de verdade dessa vez. Pequeno, mas sincero. Ficamos conversando sobre coisas simples depois disso — uma tentativa clara de aliviar o peso do assunto. Ele perguntou sobre minhas aulas, reclamou do preço do mercado, comentou sobre o vizinho barulhento. Mas por trás das palavras comuns, havia algo que não precisava ser dito. Medo. E esperança. Enquanto ele falava, eu observava aquele homem que sempre foi meu porto seguro… agora carregando nos ombros uma batalha que ele não sabia como vencer. E foi ali, naquela mesa simples, que minha decisão de aceitar a proposta do Senhor Andre se tornou ainda mais sólida. Eu faria o que fosse preciso. Mesmo que meu pai não soubesse por agora o preço real disso. Não estava sendo nada fácil pra mim. Como se já não bastasse tudo o que estava acontecendo em casa, eu ainda carregava o peso de um término que, mesmo sendo minha decisão, ainda doía. Foi um namoro de um ano e meio. Um ano e meio de mensagens de bom-dia, de risadas no meio da semana, de planos que pareciam tão simples quando estávamos juntos. Ele não era apenas meu namorado. Ele foi o meu primeiro em tudo. Meu primeiro beijo de verdade. Minha primeira vez. Meu primeiro amor. E talvez seja isso que torna tudo mais difícil. Ele teve que ir embora para ajudar o pai nos negócios da família. Não foi uma escolha impulsiva. Foi responsabilidade. Dever. Algo que ele não podia ignorar. Lembro do dia em que ele me contou. — É temporário — ele disse, segurando minhas mãos. — A gente dá um jeito. Eu suporto a distância. Ele estava disposto. Mas eu… ,eu não sei se estava. Namoro à distância parece simples quando você fala. Mas na prática, é viver de chamadas de vídeo, de saudade acumulada, de inseguranças silenciosas. É não poder abraçar quando precisa. Não poder olhar nos olhos para saber se está tudo bem. Eu sabia que seria complicado. Sabia que eu iria sofrer. Então fui eu quem disse que era melhor terminar. Mesmo gostando muito dele. Mesmo amando, talvez. — Você tem certeza? — ele perguntou naquele dia, com os olhos marejados. Eu disse que sim. Mas nunca tive tanta dúvida na vida. Preferi cortar antes que a ausência nos destruísse aos poucos. Preferi guardar a memória boa do que assistir ao desgaste. Só que ninguém me avisou que terminar por escolha própria também dói. Às vezes me pego pensando como ele está. Se sente minha falta. Se já conheceu alguém. E então lembro que fui eu quem fechou a porta. O problema é que, mesmo depois de fechada, ela nunca deixou de existir dentro de mim. E agora, com tudo acontecendo ao mesmo tempo — minha mãe doente, a pressão, as decisões difíceis — eu ainda carrego essa ausência silenciosa no peito. Ele foi o meu primeiro amor. E dizem que a gente nunca esquece o primeiro. Eu acho que é verdade.... Fiquei em silêncio por alguns minutos, sentada à mesa da cozinha, o garfo parado no prato. Minha mente estava longe dali — perdida em lembranças que eu tentava fingir que já tinham cicatrizado. — O que foi, filha? — meu pai perguntou, atento. Eu pisquei algumas vezes, voltando para o presente. — Só pensando mesmo, pai. Ele me observou por alguns segundos. Meu pai sempre teve essa habilidade de perceber quando havia algo além do que eu dizia. — Filha… — ele apoiou os braços na mesa. — E você e o Eduardo? O nome dele soou diferente quando veio da boca do meu pai. Mais real. Mais definitivo. Respirei fundo. — Nós não podíamos manter o namoro, pai. Essa coisa de distância… não dá certo. Ele franziu levemente a testa. — Ele parecia gostar muito de você. Eu sorri de lado. — E gostava. Eu também gostava dele. Gostava. No passado. Era estranho falar assim. — Então por que terminar? A pergunta era simples. A resposta não. — Porque eu não queria viver esperando ligação. Nem contando os dias pra ver alguém que eu não sabia quando voltaria. Ele disse que aguentaria. Disse que faria dar certo. Mas… eu não aguentaria, isso acabaria nos machucando de alguma forma. Meu pai ficou em silêncio, absorvendo minhas palavras. — Às vezes — ele disse com cuidado — a gente não termina porque deixou de amar. Termina porque tem medo de sofrer. Eu engoli em seco. Talvez fosse isso. — Eu preferi não arriscar — continuei. — É melhor assim. Mas a frase não saiu tão convincente quanto eu gostaria. Ele segurou minha mão por cima da mesa. — Você tem um coração enorme, Isabel. Só precisa tomar cuidado pra não se proteger demais e acabar afastando coisas boas. Fiquei olhando para nossos dedos entrelaçados. — Eu só… não queria complicar ainda mais a minha vida. E essa era a verdade. Com minha mãe doente. Com a pressão financeira. Com a proposta que eu ainda não tinha contado a ninguém. Eu não tinha espaço para mais dor. Mas, no fundo, uma parte de mim ainda se perguntava como teria sido se eu tivesse tentado. Se eu tivesse sido mais corajosa. — Você fez o que achou melhor — meu pai disse por fim. — E isso já é suficiente. Eu assenti. Mas quando ele voltou a falar sobre assuntos cotidianos, minha mente escapou outra vez. Para um sorriso que eu ainda lembrava. Para promessas que ficaram no ar. Para um amor que talvez não tenha terminado completamente… só ficou guardado em algum lugar dentro de mim.






