REVELAÇÃO

CAPITULO 7 :

EU NÃO POSSO FICAR ASSIM PRA SEMPRE

"ARIEL GOUVEIA"

A casa foi totalmente adaptada para mim.

Rampas substituíram os degraus. Portas foram alargadas. Barras de apoio surgiram nos corredores e no banheiro. Até os móveis foram organizados para que eu pudesse me locomover com mais autonomia.

Tudo pensado para facilitar minha vida… em cima daquela cadeira.

Às vezes eu odiava o som das rodas deslizando pelo chão de mármore. Era como um lembrete constante da minha condição.

Caio estava ao meu lado na sala de fisioterapia improvisada quando a pergunta escapou antes que eu pudesse filtra-la.

— Caio… você acha que ainda vai demorar pra eu recuperar a força nas pernas?

Ele parou de anotar algo no tablet e me olhou com atenção. Não como médico. Como amigo.

— Por que está perguntando isso agora?

Eu passei a mão pelos cabelos, frustrado.

— Porque eu estou me esforçando. Todo santo dia. E parece que o progresso é lento demais.

Ele se aproximou, apoiando os braços na barra paralela à minha frente.

— Ariel, você sofreu um trauma sério. O seu corpo está reaprendendo movimentos que antes eram automáticos. Isso não acontece do dia pra noite.

Suspirei.

— Mas vai acontecer?

Ele sustentou meu olhar por alguns segundos antes de responder.

— Vai. — A voz dele foi firme. — Você já recuperou sensibilidade. Já sustentava peso por mais tempo. Isso não é pouco.

Eu sabia disso. Mas ouvir dele tornava mais concreto.

Caio não era apenas meu médico particular. Era meu amigo de anos. Crescemos praticamente juntos. Ele conhecia meu temperamento impulsivo, meu orgulho, minha dificuldade em aceitar limites.

E, mesmo assim, escolheu estar aqui. Todos os dias.

Além das sessões de fisioterapia, ele fazia questão de me ajudar nas partes mais complicadas da recuperação — exercícios dolorosos, ajustes nos aparelhos, até nos momentos mais constrangedores da adaptação.

Com ele, eu me sentia menos vulnerável.

— Às vezes eu só queria acordar e estar normal de novo — confessei, mais baixo.

Ele deu um meio sorriso.

— Normal é relativo. Mas você vai voltar a andar. Só precisa continuar fazendo exatamente o que está fazendo.

— E se não for como antes?

Ele ficou em silêncio por um instante.

— Talvez não seja exatamente como antes. — respondeu com honestidade. — Mas pode ser forte o suficiente para você retomar sua vida. E isso já é muito.

Eu encarei minhas pernas.

Ainda havia tremores. Ainda havia fraqueza.

Mas também havia movimento.

Pequeno. Insistente.

— Eu não posso ficar assim pra sempre, Caio.

Ele colocou a mão no meu ombro.

— Você não vai.

E naquele momento, mais do que a resposta médica, o que me sustentou foi a convicção no olhar dele.

Eu ainda tinha um longo caminho.

Mas eu não estava percorrendo sozinho.

Depois do banho — com a ajuda firme e silenciosa de Caio — segui direto para o escritório.

Meu pai já me esperava.

Quando entrei, ele estava ao telefone, de costas para a porta. A postura rígida. A voz baixa, controlada.

— Certo. Vou te mandar o local… e lá acertamos tudo.

Foi a única parte que consegui ouvir antes que ele desligasse. Assim que percebeu minha presença, virou-se devagar e guardou o celular no bolso do paletó.

O ambiente parecia mais pesado do que o normal.

— Com quem o senhor estava falando, pai?

Ele hesitou por um segundo.

— Não posso falar agora, filho. É um assunto delicado… referente à nossa empresa. E ao seu cargo como sucessor.

Meu estômago se contraiu.

— E você terá que tomar uma providência logo. Mesmo que não queira.

— Então fale logo. — Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. — Que assunto é esse?

Ele caminhou até a mesa, abriu uma gaveta e retirou uma revista.

— Antes de começar a falar… preciso te mostrar uma coisa.

A expressão no rosto dele era séria. Dura. Como se aquilo também o afetasse.

Ele estendeu a revista.

E quando meus olhos encontraram a imagem na capa… meu coração simplesmente quebrou.

Era ela. Bianca. Em sua festa de noivado. Sorrindo.

De braços dados com outro homem.

Por alguns segundos, o mundo ficou distante. O ar pareceu rarefeito. Meus dedos apertaram o braço da cadeira com força.

— Eu sei que esse assunto é complicado pra você — meu pai disse, com a voz mais branda. — Mas isso não tem volta. Ela está casada agora.

Senti o peito queimar.

Nas fotos, ela ,parecia feliz. O sorriso aberto. O olhar leve.Feliz.Sem mim.

— Pense em você agora, filho — ele continuou. — Se ela quisesse mesmo estar ao seu lado, não teria aceitado o que você disse naquele momento de fragilidade. Ela teria ficado.

As palavras dele ecoaram dentro de mim.

Se ela quisesse… teria ficado.

Eu lembrava perfeitamente daquele dia.

Eu, preso àquela cadeira pela primeira vez. Frágil. Revoltado. Orgulhoso demais para admitir medo.

Quando disse que seria um peso para ela… ela não contestou. Não lutou. Apenas ouviu.

E foi embora.Sem olhar para trás.

E eu, tolo, ainda acreditava que havia volta.

Fechei os punhos.

A dor era diferente agora. Não era só perda.

Era constatação.

— Filho… — meu pai retomou, puxando minha atenção de volta — você precisa viver sua vida. Você é jovem.

Ele fez uma pausa antes de continuar.

— E tem mais. Seu primo quer entrar com uma petição no conselho para administrar a empresa como CEO interino até você se recuperar. E, se isso acontecer… ele não vai devolver o comando para você.

Meu olhar se ergueu.

— Ele também tem direito ao cargo. Ainda mais porque você não assumiu oficialmente antes do acidente. E você sabe… eu já havia anunciado ao conselho que você comandaria a empresa no meu lugar. Eu sabia.

Meu pai tinha decidido se afastar para ter mais tempo com minha mãe. Para cuidar da saúde dela. Ele me chamou em particular naquela época. Disse que confiava em mim.

E agora…

— Eu não posso permanecer no cargo por muito mais tempo — ele concluiu. — Ou você assume… ou ele assume no seu lugar.

As palavras giravam na minha cabeça como um vendaval.

Bianca casada.

Meu primo tentando tomar o controle.

Meu pai precisava se afastar.

E eu…

Preso a uma cadeira. Respirei fundo.

Eu não podia me permitir quebrar agora.

Eu precisava me erguer. Nos dois sentidos.

Fisicamente… e como homem de negócios.

Fiquei em silêncio por alguns segundos. Mas baixar a cabeça nunca fez parte de quem eu sou.

Ergui o olhar e encarei meu pai diretamente.

— Certo. Eu vou fazer o que for preciso. Para que tudo corra bem. Ele assentiu, satisfeito.

— Muito bem, filho.

Mas o olhar dele ainda carregava algo.

— Ainda tem outra coisa — acrescentou.

— O que mais pode ter? — perguntei, já preparado para o próximo golpe. Ele respirou fundo.

— Você precisa ter uma esposa ao seu lado.

O silêncio que se instalou foi quase ensurdecedor.

— O quê?

— Um homem na sua posição precisa de estabilidade. De imagem. De estrutura. O conselho precisa ver força. Continuidade. Família.

Eu o encarei, incrédulo.

— Você quer que eu me case… agora?

— Quero que você consolide sua posição. — A voz dele era prática. Estratégica. — Negócios não esperam emoções se organizarem.

Minha mente ainda estava presa à imagem de Bianca sorrindo ao lado de outro homem.

E agora meu pai falava de casamento.

Não por amor. Mas por estratégia.

Eu sentia a dor ainda viva no peito.

Mas, por trás dela… algo começava a se formar.

Determinação.

Se Bianca tivesse seguido em frente eu também seguiria…

Se meu primo achava que podia me substituir…

Então eles iam descobrir que eu não estava acabado.

Olhei novamente para meu pai.

— Se é isso que precisa ser feito… então vamos fazer do jeito certo.

E, pela primeira vez desde que vi aquela revista, meus olhos não estavam cheios de dor.

Estavam frios. Decididos.

A guerra não seria apenas pela empresa.

Seria pela minha posição.

Nem Pelo meu nome.Seria pela minha familia.

E ninguém — nem o passado — iria me impedir.

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