Ana soltou uma risada de escárnio, com a voz extremamente calma:
— Aquilo não era sangue de porco.
Victor ficou em silêncio por um instante e, em seguida, explodiu:
— Você não tem limite, é isso? A empregada Dirce disse que era sangue de porco. Ela cozinha todo dia, acha que ela ia se enganar? Já troquei a fechadura. Não volte mais. Vai para onde quiser.
Ana interrompeu:
— Espera.
Victor disse:
— Agora já é tarde pra pedir desculpa...
Desta vez, Ana não deixou Victor continuar:
— Hoje eu vou buscar minhas coisas e sair. Não precisa trocar a fechadura. Desta vez, eu não volto.
Victor ficou em silêncio novamente e soltou um riso frio:
— Te dou um dia.
E desligou.
A assistente se apressou em dizer:
— Sra. Ana, o seu estado é muito grave, você não pode ter alta. Quer que eu vá buscar suas coisas?
Ana balançou a cabeça:
— Você não sabe o que eu preciso levar.
Mais exatamente, o que precisava descartar.
Ela arrancou o acesso do soro, voltou para casa e começou a separar os próprios pertences.
O que dava para queimar, ela queimou. O que não dava...
As presilhas que ele tinha dado de presente de aniversário, o colar do aniversário de noivado...
As pulseiras e os artigos de luxo que Victor tinha dado ao longo dos anos, em diferentes datas comemorativas, tudo foi embalado junto.
Por último, vieram os presentes que ela tinha dado a Victor.
Victor era sempre descuidado, vivia perdendo coisas.
Depois que passaram a morar juntos, os objetos importantes dele também ficaram sob os cuidados dela.
Ana colocou na mesma caixa o álbum de fotos que havia preparado com tanto carinho, o relógio que comprou juntando salário por anos, o copo de cerâmica que ela mesma moldou para ele.
Quando terminou, naquela casa onde tinha vivido por cinco anos, não restava mais nenhum vestígio dela.
Ela saiu levando as caixas e entregou, de forma despreocupada, tudo aquilo que um dia fora tão importante para ela a moradores de rua na calçada.
Estava prestes a dirigir de volta ao hospital quando recebeu uma ligação:
— Srta. Ana, o par de alianças que você encomendou já está pronto. Você teria tempo de vir ver? Ou prefere que entreguemos no seu endereço?
Ela e Victor tinham marcado o casamento para este ano.
Ansiosa, Ana foi conversar pessoalmente com o designer, definiu o desenho das alianças e as encomendou de uma empresa estrangeira para confecção artesanal.
Mas, antes mesmo de as alianças ficarem prontas, Larissa havia voltado.
Para Ana, eram apenas duas alianças sem significado algum. Não valia a pena dar trabalho aos funcionários.
Ela foi buscar as duas pessoalmente e, sob o céu noturno, dirigiu de volta ao hospital.
De repente, fogos de artifício explodiram no céu, coloridos e deslumbrantes, fazendo inúmeras pessoas pararem para assistir.
No telão de um shopping por onde passou, surgiu a imagem de Victor.
Ele segurava uma caixinha de anel, com um olhar profundo e apaixonado:
— Larissa, ficamos separados por tanto tempo e finalmente nos reencontramos. Esta noite, mandei soltar fogos para você. Você aceita este anel e me dá uma chance? Eu sei que você quer a patente da VA. Eu vou conseguir isso para você. Quando chegar a hora, promete atender um pedido meu, tudo bem?
As pessoas ao redor gritavam, emocionadas com aquela cena romântica.
VA era a empresa que Ana havia fundado dois anos antes.
Antes, tudo o que Victor queria, desde que ela pudesse oferecer, ela entregava sem hesitar.
Mas agora... Ana sorriu com amargura.
Quando o carro atravessou a ponte, ela jogou no rio o par de alianças que tinham custado tanto esforço e dinheiro.
Ela estava prestes a deixar Sol Nascente e desaparecer por completo do mundo de Victor.