Ana abaixou os olhos.
Era estranho: ela não se sentia triste.
Apenas se lembrou de quando era criança e foi injustamente acusada por Yasmin.
A mãe deu um tapa nela, e Victor correu para a frente, protegendo ela:
— A Ana nunca bateria em ninguém! Ela é muito boazinha!
Naquela época, Victor acreditava nela sem hesitar.
Mas agora... ele já não tinha nem essa mínima confiança.
Victor sentiu uma inquietação inexplicável.
Afastou aquele sentimento estranho e encarou Ana:
— Peça desculpas.
Ana não resistiu. Virou o corpo na direção de Yasmin e disse:
— Desculpa. Eu não devia ter batido em você.
Yasmin, de costas para Victor, exibiu um sorriso de deboche:
— Fica parada e deixa eu te bater duas vezes. Aí a gente encerra isso.
Tanto Yasmin quanto Victor acreditavam que Ana não aceitaria.
Mas, de cabeça baixa, Ana respondeu com calma:
— Tudo bem.
O incômodo de Victor só aumentou.
Ele odiava aquela sensação e puxou Larissa, apressando ela:
— Está muito frio aqui fora. Vamos entrar logo!
Ele e Larissa deram as mãos e caminharam em direção à mansão.
Yasmin se aproximou e desferiu cinco socos violentos no abdômen de Ana.
O rosto de Ana ficou pálido. Ela disse, com a voz fraca:
— Assim está bom?
Yasmin caiu na gargalhada:
— Dá pena de você, vou te poupar. A Larissa já se mudou pra cá. O Victor não te quer mais. Quando ele quiser, você sai dessa casa.
Ela saiu rindo.
A agressão fez a gastrite de Ana atacar novamente. A dor era intensa.
Ao voltar para o quarto, ela tomou o remédio e foi se deitar às pressas.
No meio da madrugada, acordou com uma dor lancinante, sentou de repente e acabou vomitando uma grande quantidade de sangue.
Com dificuldade, ligou para o médico e começou a se preparar para ir ao hospital.
Ao sair do quarto, viu que a porta da suíte principal estava entreaberta. A luz escapava por ela, acompanhada de sons íntimos de um homem e de uma mulher.
Desde que Larissa tinha se mudado, Ana já vinha se preparando psicologicamente.
Mas, ao ver aquilo de verdade, ela não sabia se doía mais o corpo ou o peito.
Para descer as escadas, precisava passar pela porta da suíte.
Ela respirou fundo e seguiu devagar.
De dentro, veio a voz rouca de Larissa:
— Parece que a Ana está na porta...
A voz de Victor vinha carregada de desejo contido:
— Ela deve ter algum problema mental! Não liga pra ela! Eu quero você...
Quando a dor chega ao extremo, ela se transforma em dormência.
Ana passou rapidamente pela suíte, desceu as escadas, entrou no carro e foi para o hospital.
Ela teve uma hemorragia gástrica grave e precisou ser internada.
O médico pediu que alguém ficasse com ela, mas, ao pegar o celular, Ana não sabia para quem ligar.
Quando aceitou o noivado com Victor, a mãe achou que ela queria usar isso para enfrentar a família Azevedo.
Disse que, se Ana não desfizesse o noivado, consideraria que não tinha mais filha.
Se fosse antes, bastava ligar para Victor e ele apareceria.
Mas agora, tudo havia mudado.
No fim, Ana ligou para a própria assistente, ofereceu mais dinheiro e pediu que ela fosse acompanhar ela.
Depois que o remédio fez efeito, Ana finalmente adormeceu, mas foi acordada pelo toque do celular.
Era Victor ligando.
Ana atendeu.
Ouviu a voz abafada de Larissa:
— Victor, fala direito, não fica bravo. A Ana só fez isso porque te ama demais.
Em seguida, a voz de Victor veio clara:
— Ana, você é psicopata? Levantar no meio da noite pra espiar a gente transando já não basta, ainda foi lá e espalhou um monte de sangue de porco no quarto pra assustar todo mundo! Se continuar com essas palhaçadas, arruma as coisas e vai embora!