04

Zara Nox

O relógio marcava seis da tarde quando fechei meu computador pela última vez naquele dia. Meus dedos doíam de tanto digitar relatórios, mas meu peito estava leve - mais um dia como assistente do Lorenzo Castellani tinha terminado, e eu sobrevivi.

Encontrei Liz na portaria, se espreguiçando igual um gato cansado.

- Eu tô morta - ela reclamou, jogando a bolsa no ombro. - Se eu tiver que ouvir mais uma bronca do setor de contabilidade, juro que peço demissão.

- Relaxa - respondi, rindo. - Que hoje é sexta, e depois vem o paraíso do fim de semana.

Ela riu junto, e eu senti uma pontinha de alegria por finalmente ter alguém que dividisse as pequenas vitórias do meu dia.

- O que você vai fazer hoje, Zara?

- Curtir um pouco minha casa nova - respondi, abrindo um sorriso meio tímido.

- Casa nova? - Liz arqueou as sobrancelhas. - Ah, é mesmo! Às vezes esqueço que você acabou de chegar do internato.

- Pois é. E agora é a minha vez de escolher os móveis, o perfume do ambiente, a playlist... tudo. - Suspirei, sentindo aquele misto de liberdade e medo. - Sabe o que é viver 18 anos num lugar que não era seu?

Ela assentiu devagar.

- Quer ir pra lá comigo? Fazemos uma noite das meninas. Você é a primeira amiga que tenho em 18 anos.

Liz me olhou com um sorriso sincero, depois me puxou para um abraço.

- Então é oficial. Hoje é o início da nossa tradição.

- Noite das meninas? - brinquei.

- Com direito a fofoca, vinho e filme ruim.

Rimos juntas, e por um segundo esqueci que tinha passado o dia inteiro tentando entender o humor imprevisível do meu chefe.

- Adoraria, mas preciso passar em casa pra pegar umas roupas.

- Relaxa, vamos direto. Roupa é o que não falta - falei, sem pensar.

- Jura? Tá tentando me seduzir com guarda-roupa emprestado? - ela provocou.

- Só quero companhia, garota. - Ri, empurrando-a de leve. - Vamos antes que eu mude de ideia.

Descemos os degraus da entrada principal e, por impulso, olhei para trás.

Lorenzo saía do elevador, terno impecável, passos firmes, olhar fixo em algum ponto distante. Aquilo me deu um frio no estômago.

Ele exalava uma presença... difícil de ignorar. Não era apenas beleza - era controle. E eu, que nunca tivera nada, me sentia minúscula diante de alguém como ele.

Apertei o passo.

Liz percebeu.

- Fugindo de quem?

- De mim mesma. - Foi tudo o que consegui dizer.

Entramos no táxi e seguimos até meu novo prédio.

- Boa noite, seu Juca - cumprimentei o porteiro, que já me conhecia desde o dia da mudança.

- Boa noite, meninas. Cuidado com o frio, hein? - ele avisou, sorrindo.

No elevador, Liz falava sobre um cara que conheceu na academia - alto, moreno, e que provavelmente mentiu a idade. Eu fingia interesse, mas minha cabeça ainda estava na figura do Lorenzo, no modo como ele havia me olhado quando entrei na sala dele pela primeira vez: curioso, intenso, como se me conhecesse há anos.

A porta do elevador se abriu, e a brisa gelada do último andar me fez arrepiar. Abri a porta do apartamento e deixei Liz entrar primeiro.

- Meu Deus do céu, Zara! - ela exclamou, girando sobre os próprios pés. - Que apê é esse?

Sorri, meio sem graça.

- Eu ganhei quando saí do internato. Não sei de quem. Só recebi as chaves e os documentos.

Liz parou no meio da sala, completamente boquiaberta.

O apartamento realmente era um sonho: piso de mármore branco, janelas enormes com cortinas translúcidas e uma vista que parecia abraçar a cidade inteira. Um piano de cauda ocupava o canto da sala - algo que eu nunca tinha tocado, mas que me dava a sensação de pertencer àquele lugar.

- Sortuda você - ela disse, rindo e girando pelo espaço. - Meus pais são ricos, mas nem eles têm uma vista dessa. Isso aqui é o estilo Castellani de ser.

- Como assim? - perguntei, me servindo de vinho.

- Ui, que delícia - ela murmurou, pegando uma taça. - O Lorenzo Castellani é o maior proprietário de arranha-céus da cidade. E o seu apartamento é no último andar, com uma vista panorâmica. Coincidência?

Eu parei de respirar por um segundo.

- Tá dizendo que ele... - deixei a frase morrer.

- Que ele pode ter te dado esse apê? - Liz completou, rindo. - Vai saber. O homem é cheio de segredos.

Me sentei no sofá, tentando ignorar o aperto no peito.

- Ele é estranho - confessei. - Um dia parece distante, no outro... parece que quer saber tudo sobre mim.

- Zara Nox, não vai me dizer que tá afim dele!

- Claro que não, Liz! - respondi rápido demais. - Ele é meu chefe. E eu mal comecei lá.

Ela riu.

- Ok, mas não precisa mentir pra mim. Ele é bonito demais pra ser só "meu chefe".

- Ele é um homem complicado - murmurei, girando o vinho na taça. - E eu já tive complicações demais na vida.

Liz se jogou no sofá ao meu lado.

- Então vamos falar de coisa boa. - Ela pegou o controle da TV e colocou um filme qualquer de comédia romântica. - Regrinha da noite das meninas número um: nada de assuntos sérios.

- E número dois?

- Beber até esquecer o nome do ex inexistente.

Caímos na risada.

As horas passaram leves - rimos, comemos pizza fria e reclamamos da vida. Em algum momento, Liz adormeceu no sofá, o cabelo caindo sobre o braço da poltrona.

Fiquei observando a cidade pela janela. As luzes piscavam como constelações artificiais.

E, por algum motivo, pensei em Lorenzo.

Lembrei do modo como ele me olhou mais cedo, como seu olhar parecia atravessar a fachada profissional e tocar algo que nem eu sabia explicar.

Era desconcertante.

Perigoso.

"Não, Zara", murmurei pra mim mesma. "Ele é seu chefe. Foco."

Mas uma parte de mim - aquela que nunca teve ninguém olhando por ela - se perguntava por que ele parecia tão... protetor.

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